A radicalização da campanha eleitoral americana após a Superterça

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Jim Young/Reuters

As significativas vitórias de Hillary Clinton e de Donald Trump em suas respectivas primárias na última terça-feira (1º) levaram a campanha presidencial americana para outro patamar. A primeira constatação interessante, analisada pelo cientista político Corey Robin, diz respeito ao campo democrata. Hillary venceu em sete Estados e Bernie Sanders em quatro. O exame da distribuição de votos mostra que Sanders tem mais apoio entre os eleitores pobres, os independentes e as mulheres mais jovens. Hillary tem vantagem entre os eleitores ganhando mais de US$ 100 mil anuais, entre as mulheres casadas e o eleitorado negro: 80% dos eleitores negros votaram nela dos Estados sulistas.

Ora, a eventual saída de Sanders e a consolidação da candidatura de Hillary Clinton --que aparece sempre com uma candidata do establishment--, levará boa parte do eleitorado popular para o abstencionismo, ou para a candidatura de Donald Trump. De fato, é sabido que Trump, a exemplo de Sanders, também é um candidato anti-establishment. As pesquisas e os votos republicanos nas primárias mostram que ele é majoritário entre o eleitorado branco, mais velhos, pouco escolarizados e avessos às elites, ao politicamente correto e a um tipo de modernidade que não lhes concerne. Mas seu perfil antissistema também atrai simpatias variadas.

Uma reportagem do site online do "The Guardian" traz o testemunho de eleitores dos mais diversos meios sociais e culturais que se decidiram a votar em Trump. Até onde irá o crescimento eleitoral de Trump? Um teste decisivo de sua campanha, e das primárias republicanas, acontecerá no dia 15 de março, quanto terão lugar as primárias na Flórida, Estado onde o vencedor leva a totalidade dos votos dos 2472 representantes republicanos. Ali ele enfrentará o senador do Estado, Marco Rúbio. Se perder, Trump perde o pique de sua sequência de vitórias e terá sua candidatura comprometida da Convenção de Cleveland, que escolherá o candidato republicano à Casa Branca.

No meio tempo, a candidatura de Hillary reúne cada vez mais apoios entre o eleitorado moderado republicano, enquanto Trump assusta muita gente dentro e fora dos Estados Unidos. Uma boa ilustração disso foi a coluna recente de Martin Wolf na "Folha de S. Paulo". Nela, Wolf, que é talvez o mais influente editorialista econômico do mundo, ataca Trump diretamente, num dos textos mais duros que escreveu na sua carreira de comentarista chefe de Economia do "Financial Times". 
 

 

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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