Visita de Obama tem objetivos que vão além de Cuba

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Reuters

A visita de Obama à Cuba está recebendo uma grande cobertura midiática tanto nos Estados Unidos como no resto do mundo.

O grupo jornalístico do "Miami Herald", o diário da Flórida que aparece como o jornal estrangeiro mais focado em Cuba e cujos leitores compõem boa parte da emigração anticastrista, enviou sete jornalistas a Havana para cobrir a viagem de Obama. Resta que, para além das fotos oficiais do encontro com Raúl Castro ou da família e Obama passeando em Havana, há outros desdobramentos políticos e culturais acontecendo mais discretamente em Cuba.

Nesta segunda (21) o secretário de Estado, John Kerry, se encontra, pela primeira vez, com uma delegação das Farc, a organização guerrilheira colombiana. Conduzida pelo presidente colombiano, Juan Manuel Santos, a negociação com as Farc deve pôr fim a um conflito que matou cerca de 220.000 pessoas e provocou o êxodo de milhões de outras desde 1964. O encontro de Kerry com a guerrilha ilustra os objetivos mais amplos da visita de Obama.

Outro recado diplomático, mais sutil, feito em Havana, dirigiu-se ao Irã. Aproveitando a data do Ano Novo (Noruz) no calendário persa, Obama enviou suas felicitações ao governo e ao povo iraniano.

Na mensagem o presidente americano salienta que sua presença em Cuba demonstra que "mesmo depois de décadas de desconfiança, velhos adversários podem recomeçar uma nova via [de entendimento]".  A resposta do aiatolá Khamenei, líder religioso e político do Irã foi negativa, acusando os americanos de tentarem restaurar sua "prévia hegemonia" sobre os iranianos. Mas o gesto ficou registrado e contará nas negociações em curso entre os dois países.

A visita de Obama também acendeu a luz verde para dezenas de firmas americanas que querem fazer negócios em Cuba. Por enquanto, a burocracia dos dois países atrapalha as iniciativas dos empresários americanos. A carência das infraestruturas cubanas em matéria de eletricidade, estradas etc., também constitui um entrave aos investimentos americanos. Mas o sinal foi dado. No médio prazo, a abertura da economia cubana aos Estados Unidos pode corresponder, segundo alguns especialistas, à incorporação de mais um estado ao agregado econômico americano.

Enfim, há o aspecto cultural e simbólico da visita do primeiro presidente negro americano. Cuba conta oficialmente com 36% de afrodescendentes no seio de sua população de 11 milhões de habitantes. O país é urbanizado, (77% da população vivem nas cidades) e sensível à influência cultural americana. Quanto Fidel tomou o poder e decretou o fim do racismo em Cuba, ele se referiu explicitamente aos Estados Unidos que ainda assumiam, no início dos anos 1960, o regime de semiapartheid que caracterizava o país desde o fim da guerra da Secessão.

Embora o regime castrista tenha estimulado a promoção social e profissional dos negros, há ainda poucos deles nas elites econômicas e políticas, ao mesmo tempo em que um número proporcialmente alto de afrocubanos mora nas zonas urbanas e rurais pobres. Para esses cubanos, os Estados Unidos do presidente Obama e de sua família representam uma imagem muito mais forte do que os shoppings e os carrões dos emigrados cubanos em Miami. 

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

UOL Cursos Online

Todos os cursos