Os impasses do populismo

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Toby Melville/Reuters

Marcado para o dia 23 de junho próximo, o referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado Brexit, ecoa bem além dos países do Velho Mundo. Para Ylan Q. Mui, editorialista econômica do "Washington Post", o Brexit é um ponto alto de tendências políticas protecionistas que encontram suporte em quase todos os países da União Europeia (UE) e na campanha de Donald Trump e Bernie Sanders nas primárias americanas. Afirmando que a maioria dos apoiantes do protecionismo são operários mais velhos atingidos pela queda do emprego industrial, ela completa o seu artigo com uma frase do economista chefe do FMI, Maury Obstfeld: "o problema é que o comércio [globalizado] cria vencedores e perdedores. E nós ainda não conseguimos tomar conta adequadamente dos perdedores."

Mas o assunto é mais complicado e a oposição à globalização atrai bem mais gente do que os velhos trabalhadores desempregados pela indústria. As repercussões do Brexit na política do Reino Unido e as clivagens que a campanha de Trump abre no interior do Partido Republicano, ilustram a complexidade dos debates atuais sobre o protecionismo. No Reino Unido, o projeto de saída da UE gera divergências no Partido Conservador, no Trabalhista e na opinião pública. O "Brexit poll tracker" do "Financial Times", que sintetiza as sondagens sobre o tema, computou no dia 17 de abril 44% de opiniões favoráveis à permanência na UE, 42% contra e 13% de indecisos. Mas, desde setembro de 2015, é a primeira vez que a porcentagem de opiniões desfavoráveis encosta tão perto da porcentagem dos favoráveis à UE.

Nos Estados Unidos, onde os republicanos são tradicionalmente defensores do Estado mínimo e do livre comércio, ao contrário dos democratas, mais ligados aos sindicatos e mais protecionistas, Trump conduz uma propaganda protecionista que não satisfaz seu campo partidário. Num artigo bem apanhado publicado no site Politico, Tevi Troy recapitula o longo processo que aproximou intelectuais conservadores do partido republicano, cujo ápice ocorreu nas presidências de Ronald Reagan (1981-1989). Ajudando a modernizar o Partido Republicano, os intelectuais conservadores reunidos na "National Review", na "Weekly Standard", em "Commentary" e em outras revistas, ainda pesaram nos mandatos dos presidentes Bush, pai (1989-1993) e filho (2001-2009). Mas sua influência esvaneceu nas últimas campanhas presidenciais. Agora, esses intelectuais estão afastados ou em conflito com a campanha de Donald Trump. Parte desses setores, já aderiram à corrente #NeverTrump e começam a bandear-se para o lado de Hillary Clinton. Na circunstância, a candidatura de Hillary aparece cada vez mais como o desaguadouro de eleitores centristas que fogem da polarização entre Bernie Sanders e Donald Trump.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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