A política nas cidades globais

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • NIKLAS HALLE'N/AFP

    Sadiq Khan, prefeito de Londres

    Sadiq Khan, prefeito de Londres

A eleição de Sadik Kham, do Partido Trabalhista (Labour Party), no cargo de prefeito de Londres tem vários aspectos interessantes. O primeiro foi amplamente divulgado pela mídia internacional. Trata-se do primeiro muçulmano, filho de um chofer de ônibus e de uma costureira paquistaneses, que se torna prefeito da cidade. Já havia um prefeito muçulmano, de origem marroquina, em Roterdã. Mas o caso de Londres é bem mais significativo. A eleição consagra o cosmopolitismo da capital do Reino Unido.

Para ficar só no tema da religião, uma pesquisa recente mostrou que 48% dos londrinos são cristãos, 12% muçulmanos, 5% hinduístas, 1,8% judeus, 1% sikhs, enquanto 21% não têm religião. Sobretudo, Londres é também o maior centro econômico e financeiro da Europa e o quinto maior do mundo, segundo o estudo da Brookings Institution. O tema das cidades mundiais (global cities), caracterizadas pela concentração de atividades nodais --sedes de bancos e empresas multinacionais, grande aeroporto, proximidade de zona portuária, eixos de transportes, hospitais de ponta, centros universitários, museus-- de impacto internacional, tem sido estudado por universidades e grandes agências.

Assim, um relatório recente da agência multinacional Deloitte sobre Londres, Nova York, Paris, Hong Kong, Singapura, Tóquio e Sidney, que se situam no topo das 50 global cities do planeta,  mostra o relevo particular de Londres.  Em última instância, o fator que permite a Londres se destacar das grandes metrópoles citadas acima e das outras que compõem a lista das top 50 é o renome de suas instituições de ensino superior e a notoriedade da elite dirigente formada na metrópole e nas áreas circunvizinhas (Oxford e Cambridge). A partir do mapeamento da carreira de 50 mil profissionais do setor público e privado trabalhando em 40 mil instituições em 160 países, o estudo registra que os dirigentes formados em Londres vêm de 95 nações e trabalham em 134 países espalhados pelo mundo afora.

Contudo, quando se sai do contexto empresarial e administrativo para se passar ao contexto político, a singularidade de Londres com relação ao próprio Reino Unido vem à tona. De fato, a mentalidade liberal, o modo de vida tolerante e a convivência multicultural que caracterizam Londres contrastam com o perfil mais conservador do resto do Reino Unido. 

Tal é a leitura que foi feita dos resultados das últimas eleições. De fato, a vitória de Sadik Kham deixou em segundo plano o resultado medíocre do Partido Trabalhista no restante do Reino Unido. O partido perdeu em outras cidades chaves na Inglaterra, continuou com uma base importante no País de Gales (onde as eleições eram parlamentares) e caiu para terceiro lugar na Escócia (também em eleições parlamentares), atrás dos nacionalistas escoceses e do Partido Conservador.

Jeremy Corbyn, o líder do Trabalhista, cuja direção está sendo contestada por outros dirigentes do partido e pelo próprio Sadik Kham, reconheceu que o seu partido ainda se posiciona desfavoravelmente para as legislativas de 2020. 

O paradoxo londrino, uma metrópole progressista e multicultural que destoa do resto do país, se reproduz também em Nova York. Eleito em 2015 e com um índice de popularidade que ronda 50% atualmente, o prefeito democrata Bill de Blasio implementa uma agenda progressista que diverge de boa parte da dos líderes de seu próprio partido, entre os quais o governador do Estado de Nova York, Andrew M. Cuomo. 

De imediato, o paradoxo londrino vai ser de novo posto à prova. Daqui a pouco mais de um mês, no dia 23 de junho, seguido com atenção pelo mundo inteiro, terá lugar o referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (EU), o Brexit. Majoritariamente favoráveis à permanência na EU, os eleitores londrinos parecem ter junto si a maioria do país, segundo a última sondagem publicada pelo "Financial Times". Mas a vantagem ainda é pequena: 46% dos eleitores são contra e 43% a favor do Brexit.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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