O WhatsApp e o analfabetismo funcional

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Alex Almeida/Folhapress

A recente edição dos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que examina regularmente o desempenho escolar em várias dezenas de países, entre os quais o Brasil, suscitou debates e controvérsias em toda parte.

Os jornais "The New York Times", o britânico "Times Educational Supplement", o espanhol "El País",  o suíço "Le Temps" e o australiano "The Conversion" comentaram, geralmente de maneira crítica, a situação do ensino médio de seus respectivos países à luz dos resultados do Pisa . No caso da França, o assunto valeu um editorial do "Le Monde" condenando a insensibilidade do governo aos resultados medíocres registrados pelos alunos franceses.

No Brasil, a avaliação do Pisa também foi bastante comentada. O dado mais preocupante, sublinhado pelos especialistas, foi a estagnação do conhecimento dos adolescentes brasileiros nos anos recentes, após avanços observados entre 2000 e 2009. De fato, as médias dos alunos nas três áreas analisadas - matemática, ciências e leitura - praticamente estacionaram entre 2009 e 2015, deixando o Brasil acantoado nas últimas colocações da lista dos 69 países avaliados.

Não entendendo claramente o que lê, a maioria dos alunos brasileiros de 15 e 16 anos (faixa etária avaliada) tem dificuldades para adquirir mais conhecimentos e, no conceito dos organizadores do PISA, para exercer plenamente sua cidadania. Dessa forma, persistem o iletrismo, caracterizando jovens e adultos escolarizados sem os conhecimentos correspondentes ao seu grau de estudos, e o analfabetismo funcional, isto é, a incapacidade de utilizar a leitura e a escrita para sua atividade social e profissional.

Resta que a dificuldade de leitura e de compreensão de textos tem consequências mais amplas. No Brasil, como em outros países, a generalização do uso de sms e de aplicativos de mensagens instantâneas como o WhatsApp oferece um testemunho cotidiano da extensão do analfabetismo funcional entre profissionais e prestatários de serviços.

Num estudo publicado no ano passado, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), organizadora do Pisa, analisou o uso da internet pelos alunos de diferentes meios sociais. Obviamente, há uma grande diferença entre os estudantes dos países ricos, onde o uso da internet é generalizado nos domicílios, lugares públicos e escolas, e os dos países pobres, onde o acesso é restrito às escolas e ainda assim de maneira precária.

Porém, o estudo constatou que mesmo nos países ricos, onde os alunos de todas as categorias sociais têm acesso fácil à internet, existe uma fratura social e digital ("digital divide", em inglês) entre os jovens internautas. Assim, nas cinco nações nórdicas, na Holanda e na Suíça, 98% dos alunos pobres têm a internet no seu domicílio e na escola.

Alunos com boa capacidade de leitura, geralmente oriundos de famílias mais favorecidas, tiram melhor proveito da internet para obter informações qualificadas. Segundo os autores do relatório, a aptidão para utilizar a internet como instrumento de aquisição de conhecimentos e de qualificação profissional está correlacionada aos níveis de proficiência registrados no Pisa.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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