Sem dar atenção à crise humanitária, Trump vê críticas tornarem Porto Rico seu pesadelo

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • AP Photo/Ramon Espinosa

Uma tempestade ameaça a Casa Branca. Tendo praticamente entregue Porto Rico à sua sorte, Trump recebe em Washington o impacto do furacão Maria. A ilha caribenha, que é território (não Estado) americano, foi parcialmente atingida pelos furacões Irma (6/9), José (10/09) e pegou em cheio o Maria (21/9).

A maioria de seus 3,4 milhões de habitantes está sem energia, combustível e água corrente. Com estradas, ruas e pontes bloqueadas, cidades e campos devastados o transporte é difícil, a ajuda dos poderes públicos é insuficiente e a situação da população é precária.

TOM BRENNER/NYT
Donald Trump ainda não visitou Porto Rico

No meio desta crise humanitária, Trump resolveu tuitar contra Carmen Yulin Cruz, prefeita de San Juan, a capital porto-riquenha. Tuitando de sua residência e campo de golfe da Flórida, Mar-a-Lago, Trump alegou que o governo federal está fazendo um "grande trabalho" para auxiliar Porto Rico e acusou a prefeita de ter "rala capacidade de liderança" para organizar os socorros aos 400 mil habitantes da capital. Na mesma altura, apareciam imagens de Carmen Yulin Cruz andando numa rua inundada para ajudar moradores de sua cidade.

O contraste entre as imagens vindas de Mar-a-Lago e de San Juan foi altamente desfavorável para Trump. Logo, a mídia social foi invadida por mensagens atacando o presidente instalado no conforto de sua enorme mansão (a vigésima maior dos Estados Unidos) que recriminava a prefeita que ajudava moradores com água até a cintura.

Não foram só oponentes e adversários políticos de Trump que exprobaram sua declaração. As críticas vieram também do partido republicano. Assim, John Kasich, governador de Ohio e liderança importante entre os republicanos, tomou distância da maneira com que Trump se dirigiu à prefeita. 

Comentando o episódio, Annie Karni, no site noticioso "Politico", afirma "a reação de Trump à (tragédia de) Porto Rico testa os limites de seu ímpeto rancoroso". As consequências materiais do desastre podem ultrapassar o espaço da ilha caribenha e atingir o território continental americano. Um editorial do New York Times citou uma declaração de Ricardo Rosseló, governador de Porto Rico, alertando que a insuficiência dos socorros a Porto Rico poderia provocar um "êxodo maciço" de seus habitantes, que são cidadãos americanos, para o continente, arruinando as chances de recuperação da ilha e provocando "um tumulto demográfico profundo" nos estados sulistas e em particular na Flórida.

Katrina de Trump

Caso o drama humanitário se agrave e o número de mortos aumente em Porto Rico, a ruína da ilha e o êxodo para os Estados Unidos não podem ser descartados. Comentaristas têm feito um paralelo entre a atitude de Trump com relação a Porto Rico e o declínio político de G. W. Bush por sua gestão desastrosa da crise humanitária em New Orleans, na sequência da passagem do furacão Katrina (agosto de 2005). Acompanhado de altos funcionários federais, Trump visitará Porto Rico nesta terça-feira (3).

Ainda é cedo, para avaliar todas as repercussões da crise. Mas é possível que no futuro o caso de Porto Rico apareça como um divisor de águas na presidência Trump.

Mago das sondagens políticas e excelente comentador, Nate Silver, editor do site FiveThirtyEight, discutiu as hipóteses sobre o comportamento lunático de Trump e a ideia que suas broncas generalizadas sejam uma estratégia para manter sua base eleitoral unida. "Por mais cínico que se seja, é difícil ver qual o possível benefício político que Trump pode tirar de suas críticas a Cruz, cuja cidade foi devastada por Maria".

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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