As eleições da Suécia e os problemas da União Europeia

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Loulou d'Aki/The New York Times

    Membro do Partido Democrata da Suécia, de extrema direita, fala com potenciais eleitores em Estocolmo

    Membro do Partido Democrata da Suécia, de extrema direita, fala com potenciais eleitores em Estocolmo

As dificuldades da União Europeia (UE) nas duas últimas décadas decorrem de três problemas principais. O primeiro é o chamado "déficit democrático" de suas instituições. As eleições para o Parlamento Europeu, sediado em Bruxelas, são marcadas por uma baixa participação eleitoral e pelo pouco interesse dos cidadãos dos países membros, sobretudo na Europa Oriental. 

Em 2014, a porcentagem de abstenções foi de 87% na Eslováquia, de 81% na República Checa, 79% na Croácia e de 77% na Polônia. Na parte Ocidental há menos abstencionistas, mas as porcentagens dos que não votaram ainda foram altas, 65% em Portugal, 63% na Holanda, 56 % na França e 53% na Alemanha. Na Bélgica, onde o voto é obrigatório, a abstenção foi bem menos reduzida, representando 10% do eleitorado. Nada indica que o desinteresse eleitoral diminuirá nas próximas eleições do Parlamento Europeu em maio de 2019. Causa e efeito do abstencionismo, as decisões dos órgãos centrais europeus aparecem como atos arbitrários dos "burocratas de Bruxelas" que atropelam os direitos individuais, os pequenos empresários e a soberania dos países membros.

O segundo problema se refere às consequências da Grande Recessão iniciada em 2008. Um estudo do economista francês Guillaume Allègre, publicado em fevereiro deste ano, mostra que todos os países da UE tiveram um aumento das desigualdades nos últimos dez anos. O impacto foi maior na Espanha, Grécia, Itália e Portugal. Mas até a Alemanha, cuja taxa de desemprego é menor, conheceu um aumento das desigualdades. Enfim, há o terceiro problema. Trata-se do aumento da imigração e do número de refugiados buscando asilo político oriundos da Ásia Central, da África e do Oriente Médio.

Os três problemas convergem numa onda de insatisfação e revolta que desestabilizou a vida política e social dos diversos países europeus. O Brexit, os movimentos anti-UE e xenófobos e a emergência dos partidos de extrema-direita se inscrevem nesta evolução da UE.  

É neste contexto que devem ser interpretados os resultados das eleições de domingo (9) na Suécia. O escrutínio, que envolveu eleições locais, regionais e nacionais, trouxe surpresa e constrangimento. A surpresa veio por conta do resultado final. Algumas sondagens davam ao partido de extrema-direita Democratas da Suécia (SD) 20% dos votos, logo abaixo dos sociais-democratas (SAP). A eventualidade de um governo formado por uma aliança entre os conservadores, os deputados anti-UE e a extrema-direita parecia assim possível na Suécia, como ocorreu na Itália, em maio deste ano, e na Áustria, em outubro de 2017. Sem contar o avanço da Frente Nacional na França, que levou sua líder, Marine Le Pen, ao segundo turno da presidencial, em maio de 2017. Aliás, Marine Le Pen considerava a vitória do SD como favas contadas. Poucas horas antes do fechamento das urnas ela tuitou: "Eleições na Suécia: mais uma noite ruim para a União Europeia.. ", prevendo a vitória dos anti-UE e do SD.

Isso não ocorreu. Embora com uma pequena maioria, os sociais democratas continuaram sendo o maior partido sueco, com 28,4% dos votos. Em segundo lugar vêm os moderados, como 19,8% e em terceiro o SD, com 17,6%. O constrangimento se refere à porcentagem expressiva de votos recebidos pela extrema-direita, representada pelo SD, em crescimento constante nos últimos anos. Na realidade, o afluxo maciço de refugiados em 2014 (80 mil), 2015 (160 mil) e 2016 (230 mil), num país de 10 milhões de habitantes, mudou abruptamente o clima político na Suécia.

Mais recente do que os problemas institucionais e econômicas da União Europeia, o problema dos refugiados é também o mais difícil de resolver. Tanto na Suécia como no restante da UE.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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