Troquem o Partido Republicano por um novo grande partido

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

  • Mary Altaffer/AP

    Cartaz separa membros da imprensa de convidados para coletiva de imprens ado pré-candidato republicado à Presidência dos EUA no Trump National Golf Club Westchester, em Briarcliff Manor, em Nova York

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Se um partido pudesse declarar falência moral, o atual Partido Republicano estaria em concordata.

Esse partido precisa simplesmente fechar as portas e começar de novo, já. É sério, alguém, por favor, comece um Novo Partido Republicano!

Os EUA precisam de um sistema bipartidário saudável. Os EUA precisam de um partido de centro-direita saudável para garantir que os democratas continuem sendo um partido de centro-esquerda saudável.

Os EUA precisam de um partido de centro-direita pronto para oferecer soluções de mercado para problemas como a mudança climática. Os EUA precisam de um partido de centro-direita que apoie as leis de senso comum sobre armas. Os EUA precisam de um partido de centro-direita que apoie a política fiscal de senso comum. Os EUA precisam de um partido de centro-direita que apoie o livre mercado e também ajude os trabalhadores impactados por ele. Os EUA precisam de um partido de centro-direita que entenda que a política externa é muito mais complexa hoje, quando é preciso gerenciar países fracos e em colapso, não apenas os fortes e musculosos.

Mas este Partido Republicano não é nada disso. O Partido Republicano de hoje é para a governança o que a Universidade Trump é para a educação --um empreendimento eticamente contestado, que enriquece e se perpetua ao descartar qualquer pretensão de defender princípios reais, ou uma proposta de valor realmente relevante, e em vez disso joga com a ignorância e os medos do público.

É apenas uma concha vazia, vendendo pedaços de si mesmo a quem pagar mais --política após política--, um pouco para o Tea Party aqui, um pouco para as grandes petroleiras ali, um pouco para o lobby das armas, para os zelotes anti-impostos, para os negadores da mudança climática.

E antes que você perceba o partido defende uma confusão incoerente de ideias não relacionadas a qualquer teoria sobre para onde vai o mundo ou de como os EUA podem novamente ser grandes no século 21.

Torna-se, em vez disso, uma coalizão de homens e mulheres que vendem pedaços de sua marca para qualquer um que possa energizar mais sua base, para que eles consigam se reeleger, para que possam vender mais pedaços de sua marca, para se reeleger.

E agora sabemos como eles estão pouco ligados a qualquer princípio, porque os anciãos do Partido Republicano hoje nos disseram isso (com algumas notáveis exceções) ao se disporem com tal empenho a dar seu apoio a um candidato presidencial que eles sabem que é totalmente ignorante em política, não fez a lição de casa, envolveu-se em ataques racistas contra um juiz, zombou de um repórter deficiente, impugnou toda uma comunidade religiosa e fez propostas ignorantes sobre muros, sobre permitir que aliados sigam sozinhos e se tornem nucleares e sobre derrubar tratados comerciais, regras de guerra e acordos nucleares de maneiras que seriam terrivelmente desestabilizadoras caso ele assumisse o cargo.

Apesar disso, todos os principais líderes republicanos dizem que vão apoiar Donald Trump --mesmo que ele esteja embebido em uma "definição de manual" de racismo, como o descreveu o presidente da Câmara, Paul Ryan--, porque ele assinará sua agenda e só poderá causar danos limitados diante de nossos controles.

Mesmo? Senhor presidente da Câmara, sua agenda é uma confusão. Trump dará ainda menos atenção ao senhor se ele for presidente e, como colocou acertadamente o senador Lindsey Graham, precisa haver um tempo "em que o amor pelo país supere o ódio por Hillary".

Chegará um dia esse tempo com esta versão do Partido Republicano?

Et tu, John McCain? Você não quebrou sob a tortura dos norte-vietnamitas, mas sua fome por reeleição é tão grande que não ousa levantar sua voz contra Trump? Espero que você perca. Você merece. Marco Rubio? Você chamou Trump de "fraudulento", ele insulta seu próprio ser e você ainda o apoia? Que libertação!

Chris Christie, você não tem um grama de respeito próprio? Está servindo de criado a um homem que afirmou, falsamente, que em 11 de Setembro, em Jersey City, onde vivem muitos árabes-americanos, "milhares e milhares de pessoas aplaudiram quando aquele prédio caiu". Christie está apoiando um homem que inventou uma mentira descarada sobre moradores de seu próprio Estado porque assim talvez consiga ser seu vice-presidente. Desprezível.

Foi exatamente por isso que muitos eleitores republicanos optaram por Trump, para começar. Eles intuíram que a única coisa em que esses políticos republicanos estavam interessados era manter seus cargos --e tinham razão. Isto deixou os eleitores tão totalmente cínicos que muitos pensaram: por que não lhes impor Trump? É tudo um jogo de enganação, de qualquer modo. E pelo menos Trump mostra o dedo para todos esses liberais politicamente corretos. E de todo modo governar não importa --só a atitude.

E quem lhes ensinou isso?

Mas importa. Conheço muitos conservadores bem intencionados que sabem que importa. Um deles precisa começar o Novo Partido Republicano --um partido de centro-direita livre de todos os Trumps, as Sarah Palins, os Grover Norquists, os Sean Hannitys, os Rush Limbaughs, o lobby das armas, o lobby do petróleo e todos os outros grupos de interesses estreitos, um partido que redefina um conservadorismo com princípios. Angarie seu dinheiro para ele na internet. Se Bernie Sanders pode, você pode.

Este é um momento tão vital; o mundo que moldamos depois da Segunda Guerra Mundial está ficando instável. Esta é a hora para os EUA estarem em sua melhor forma, defendendo seus melhores valores, que hoje estão sendo atacados em tantos lugares --pluralismo, imigração, democracia, comércio, o Estado de direito e a virtude das sociedades abertas. Trump nunca será um mensageiro verossímil, ou simplesmente um mensageiro, desses valores. Um Novo Partido Republicano poderá ser.

Se você o criar, eles virão.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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