Trump não pode ser um vencedor a menos que passe por uma mudança radical

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

  • Jim Watson/ AFP

    Donald Trump faz discurso como presidente eleito dos EUA, em Nova York

    Donald Trump faz discurso como presidente eleito dos EUA, em Nova York

Iniciei a noite da eleição escrevendo uma coluna que começava com palavras de um imigrante, meu amigo Lesley Goldwasser, que veio para os EUA do Zimbábue nos anos 1980. Observando nosso cenário político alguns anos atrás, Lesley notou: "Vocês, americanos, chutam seu país como se fosse uma bola de futebol. Mas não é uma bola. É um ovo Fabergé. Vocês podem quebrá-lo".

Com Donald Trump, sinto mais medo do que jamais senti em meus 63 anos de que poderemos fazer exatamente isso: quebrar nosso país, poderemos ficar tão irreparavelmente divididos que nosso governo nacional não funcionará.

Desde o momento em que Trump surgiu como candidato, levei a sério a possibilidade de que ele poderia ganhar; esta coluna nunca predisse algo diferente, embora com certeza o desejasse. Isso não significa que a realidade disto não seja chocante para mim.

Apesar de eu saber que era uma possibilidade, o fato cru de que a maioria dos americanos quisesse tanto uma mudança radical e perturbadora e simplesmente não se importava com quem fosse o agente, que tipo de modelo ele poderia ser para nossos filhos, se ele realmente tinha a capacidade de executar seu plano -- ou se de fato tinha um plano a executar -- é profundamente perturbador.

Antes que eu exponha todos os meus medos, há algum laivo de esperança a se encontrar nesta votação? Estou procurando há horas, e a única que posso ver é esta: não acredito que Donald Trump estivesse realmente comprometido com uma única palavra ou política que ele apresentou na campanha, exceto uma frase: "Eu quero ganhar".

Mas Donald Trump não pode ser um vencedor a menos que passe por uma mudança radical de personalidade e política e se torne tudo o que ele não foi nesta campanha. Ele precisa se tornar um sanador, em vez de um divisor; um falador de verdades compulsivo, em vez de um mentiroso compulsivo; alguém disposto a estudar os problemas e tomar decisões com base em provas, e não alguém que atira para todo lado; alguém que diz às pessoas o que elas precisam ouvir, e não o que elas querem ouvir; e alguém que aprecia que um mundo interdependente só pode prosperar com base em relacionamentos em que todos saiam ganhando.

Só posso esperar que ele o faça. Porque do contrário todos vocês que votaram nele --sem levar em conta seus defeitos óbvios-- porque queriam uma mudança radical e perturbadora, bem, vocês terão isso.

Suponho que Trump não queira ser conhecido como o pior presidente da história, quanto menos um que presidiu a mais profunda fratura de nosso país desde a Guerra Civil. Isso abalaria o mundo todo. Portanto, só posso esperar que ele, como presidente, tente se cercar das melhores pessoas que consiga, o que certamente não inclui gente como Rudy Giuliani ou Newt Gingrich, quanto menos os extremistas da direita alternativa que agitaram sua campanha.

Mas há também um lado profundamente preocupante na obsessão de Trump por "ganhar". Para ele, a vida é sempre um jogo de resultado nulo: eu ganho, você perde. Mas quando você está dirigindo os Estados Unidos da América tudo pode ser um jogo de soma zero.

"O mundo só fica estável quando os países estão inseridos em relações em que todos ganham, em interdependências saudáveis", observou Don Seidman, o executivo-chefe da LRN, que assessora empresas sobre liderança, e autor do livro "How" [Como].

Por exemplo, os EUA empreenderam o Plano Marshall depois da Segunda Guerra Mundial, dando milhões de dólares à Europa, para transformá-la em um parceiro comercial e criar um relacionamento que veio a ser de grande benefício mútuo. Trump compreende isso? Os que votaram nele compreendem que muitos de seus empregos dependem de os EUA estarem inseridos em interdependências saudáveis em todo o mundo?

Como posso explicar a aparente vitória de Trump? É cedo demais para dizer com certeza, mas meu instinto me diz que tem muito menos a ver com comércio ou diferenças de renda, e muito mais com cultura e o sentimento de "falta de lar" de muitos americanos.

Não há nada que possa deixar as pessoas mais irritadas ou desorientadas que sentir que perderam seu lar. Para alguns, é porque os EUA estão se tornando um país de maioria de minorias, e isso ameaça o sentido de comunidade de muitos brancos de classe média, especialmente os que vivem fora das áreas urbanas mais cosmopolitas.

Para outros, é o turbilhão atordoante da mudança tecnológica em que estamos metidos. Ou ela eliminou seus empregos ou transformou seus locais de trabalho de maneiras que eles acham desorientadoras -- ou lhes impôs exigências estressantes de aprendizado por toda a vida. Quando as duas coisas mais importantes na sua vida estão de cabeça para baixo, não é surpreendente que as pessoas fiquem desorientadas e busquem as soluções simplistas defendidas por um suposto homem forte.

O que eu sei com certeza é isto: o Partido Republicano e Donald Trump estão prestes a controlar todos os níveis do governo, dos tribunais ao Congresso à Casa Branca. Essa é uma responsabilidade incrível, e estará toda sob eles. Eles compreendem isso?

Pessoalmente, não lhes desejo o mal. Há muito em jogo para meu país e meus filhos. Diferentemente do Partido Republicano nos últimos oito anos, não tentarei fazer meu presidente falhar. Se ele falhar, todos falharemos. Por isso sim, vou esperar que surja um homem melhor do que o que vimos nesta campanha.

Mas no momento estou angustiado, assustado por meu país e por nossa união. E pela primeira vez me sinto sem um lar na América.

*Esta coluna foi escrita antes da confirmação da vitória de Donald Trump

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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