Falando por falar

Umberto Eco

Umberto Eco

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Eu espero que os editores do "l'Espresso" e outros estimados veículos de mídia italianos não se ofendam com esta confissão: a publicação que leio toda semana com mais interesse e respeito é a revista de quebra-cabeças "La Settimana Enigmistica", não apenas por ser divertida, mas também porque ela exige minha colaboração para completar suas cerca de 50 páginas.

Interessantemente, a abordagem para elaboração de dicas de palavras cruzadas varia de um país para outro. A tradição italiana é muito diferente, por exemplo, da francesa, que apresenta a pista na forma de um enigma. O semiólogo Algirdas Greimas cita um famoso exemplo, no qual a dica "o amigo dos símplices" deveria ser resolvido como "herborista"; nesse cenário, o solucionador do quebra-cabeça precisa saber que símplices são plantas com propriedades medicinais, usadas pelos médicos há muito tempo. Em comparação, as dicas nas palavras cruzadas italianas se referem a opiniões disseminadas e comumente aceitas –como, por exemplo, a dica "inclui massa, legumes e verduras" deve ser entendida como "dieta do Mediterrâneo" e "cobra americana" como "jiboia".

Eu me deparei recentemente com a dica "elas animam os talk shows". Inicialmente pensei que se referisse às famosas personalidades de televisão ou atualidades. Nada disso: a resposta era "brigas". Quem quer que tenha criado a palavra cruzada estava explorando o saber popular de que o que torna um talk show interessante independe do seu apresentador ser popular, se os convidados incluem travestis ou exorcistas, ou se o tema é pedofilia ou eventos dramáticos como acidentes aéreos. Esses elementos certamente são acessórios importantes: afinal, seria um bocado tedioso assistir um talk show no qual um filólogo bizantino entrevistasse monges trapistas sofrendo de mutismo seletivo, ou onde se sentassem calmamente para discutir pergaminhos antigos. De uma forma ou de outra, o que os espectadores  procuram é por uma briga.

Certa vez eu assisti a um episódio de um talk show ao lado de uma idosa, que comentava, toda vez que os participantes do programa falavam mais alto cortando uns aos outros: "Por que eles estão interrompendo uns aos outros? Não dá para entender o que eles estão dizendo! Cada um não pode falar na sua vez?" Quem dera todos os programas de televisão fossem como aquele memorável programa francês "Apostrophes", no qual parecia que o apresentador, Bernard Pivot, precisava apenas levantar seu dedinho para que a pessoa que estava falando soubesse que era a vez de outra pessoa.

O problema é que os espectadores passaram a esperar discussões dramáticas por parte dos convidados de talk shows. Importa cada vez menos o que as pessoas dizem (de qualquer modo, em geral presume-se que seja irrelevante) e mais a forma como é dito –gritando "Me deixe terminar! Eu não o interrompi quando você estava falando!" ou insultando uns aos outros. Como na luta livre, não importa que os lutadores estejam fingindo. Assim como não importa se eram reais as tortas dos comediantes de pastelão, atiradas nos rostos das pessoas. O que importa é que o público acredite que seja real.

Não haveria nenhum problema nisso se os talk shows fosse apresentados como mero entretenimento, como os reality shows. Mas, ao menos na Itália, certos talk shows políticos influentes são descritos como a "terceira casa do Parlamento" ou comparados à antecâmara de um tribunal. Que questões serão debatidas no Parlamento, ou se o suspeito sendo julgado realmente estrangulou uma jovem –tudo isso é tema para os talk shows, a ponto desses programas tornarem praticamente a sessão parlamentar de fato ou o veredicto do júri irrelevantes.

Se, no final, o que contar não seja o conteúdo, mas a forma do confronto, não é de se estranhar que as pessoas estejam cada vez menos interessadas no que acontece no Parlamento, ou no que os tribunais têm a dizer sobre os escândalos do momento. Por que se dar ao trabalho de tentar ser um cidadão informado ou mesmo votar na eleição, quando você pode simplesmente ficar em casa e assistir tudo se desdobrar na televisão?

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Umberto Eco

Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. É autor de "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucalt".

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