Desenterrando o potencial de Pompeia

Umberto Eco

Umberto Eco

  • 6.fev.2013 - Salvatore Laporta/AP

    Ruínas de Pompeia, a antiga cidade romana que foi enterrada por uma erupção do monte Vesúvio em 79 d.C

    Ruínas de Pompeia, a antiga cidade romana que foi enterrada por uma erupção do monte Vesúvio em 79 d.C

A imprensa continua voltando ao destino de Pompeia --no presente. A antiga cidade romana, que foi enterrada por uma erupção do monte Vesúvio em 79 d.C. e foi desenterrada ao longo dos últimos séculos, parece destinada a desaparecer novamente, mas dessa vez por causa da burocracia do governo.

Alguns críticos podem repetir o velho clichê de que cultura não coloca comida na mesa, mas, nas mãos certas, Pompeia, um destino turístico infalivelmente popular, tem o potencial de gerar um belo retorno. E não sou o primeiro a dizer isso.

Em 1988, a IBM encomendou um livro sobre como preservar o patrimônio cultural da Itália. O resultado foi intitulado "Le Isole del Tesoro Proposte per la Riscoperta e Gestione delle Risorse Culturali" (As Ilhas do Tesouro: Propostas para a Redescoberta e a Gestão dos Recursos Culturais). O volume continha alguns de meus estudos, assim como o trabalho do historiador da arte Federico Zeri, do arquiteto Renzo Piano e do economista Augusto Graziani, juntamente com uma contribuição do estudioso de semiótica Omar Calabrese e um debate moderado pelo historiador da arte Carlo Bartelli.

O esforço visava investigar a natureza do que poderíamos chamar de riquezas culturais --obras de arte enterradas nos porões de galerias, áreas de ruínas, locais de batalhas históricas e assim por diante-- e examinar seus problemas econômicos inerentes. Por exemplo, elas se beneficiariam com o tipo de marketing cultural que já provou ser útil nos esforços de autofinanciamento de muitos museus europeus e americanos?

Piano apresentou um projeto extraordinário focado em Pompeia (só por isso ele já merecia ser nomeado senador vitalício, uma honra que o governo italiano lhe conferiu no ano passado). O projeto dele, que foi elaborado meticulosamente com a ajuda de uma equipe de outros arquitetos, considerou como reestruturar o acesso a Pompeia e melhorar a experiência dos visitantes assim que estivessem lá dentro. A proposta implicava a criação de novas estruturas educativas para o complexo arqueológico, incluindo um local dedicado ao relato histórico da erupção do Vesúvio, novo mobiliário urbano e um centro para coleta e preservação dos novos achados das escavações atuais.

Naturalmente, tudo isso viria acompanhado de um preço, mas o projeto foi concebido para sustentar a si mesmo com novas atrações. Por exemplo, Piano propôs a construção de estruturas elevadas das quais os visitantes poderiam observar as escavações ainda em progresso --e portanto ver não apenas as partes de Pompeia que já foram desenterradas e estudadas, mas também as partes que ainda estão gradualmente vindo à luz.

Além de projetar esses pontos de observação elevados, que seriam temporários e móveis para seguir a ação de novas escavações à medida que progredissem, a proposta sugeriu a criação de áreas subterrâneas que exibiriam novos tesouros e displays informativos. Assim, a própria cidade, sua paisagem e seus arredores não precisariam ser permanentemente alteradas, e a nova Pompeia financiaria a si mesma aumentando o número de visitantes pagantes --e aumentando o nível de satisfação dos visitantes com a experiência.

Os autores e a IBM apresentaram o livro concluído ao presidente italiano na época, Sandro Pertini. Apesar de ter gostado da ideia, ele não podia fazer muita coisa, a não ser entregá-lo oficialmente à ministra da Cultura, Vincenza Bono Parrino. Talvez ela o tenha lido, ou talvez o tenha levado para casa para calçar alguma mesa bamba. O fato é que, desde então, nenhuma menção foi feita ao projeto.

A proposta de Piano ainda está por aí em algum lugar, enterrada como Pompeia, e enquanto isso a própria Pompeia ainda está caindo em pedaços. A situação se resume não a falta de dinheiro ou ideias, mas de boa vontade. Talvez por motivos que eu desconheça, a situação atual, com os muitos interesses mesquinhos e lamentáveis que envolve, seja benéfica para alguém. Nossas "Ilhas do Tesouro" não foram projetadas para prever esses acordos escusos; caso contrário, em vez de uma referência à obra de Robert Louis Stevenson no título, talvez nós devêssemos tê-la apresentado como uma oferta irrecusável.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Umberto Eco

Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. É autor de "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucalt".

UOL Cursos Online

Todos os cursos