O ato de aplaudir está sendo banalizado?

Umberto Eco

Umberto Eco

  • Michael Reynolds/ EFE

    18.set.2014 - O presidente ucraniano, Petro Poroshenko (acenando à esq.), agradece aos aplausos após um discurso no Capitólio, em Washington, nos Estados Unidos

    18.set.2014 - O presidente ucraniano, Petro Poroshenko (acenando à esq.), agradece aos aplausos após um discurso no Capitólio, em Washington, nos Estados Unidos

Enquanto vasculhava meus arquivos de computador recentemente, eu me deparei com dois artigos que escrevi em meados dos anos 80, sobre a misteriosa "tribo Bonga". Era minha forma irônica de discutir certos hábitos que notei estarem se enraizando na época, hábitos que eu acreditava que nos faziam parecer uma sociedade primitiva. Por exemplo, uma propensão ao aplauso.

Eu escrevi que, em tempos idos, os bongas reservavam seu aplauso apenas para duas situações: quando apreciavam uma boa performance ou quando desejavam honrar uma pessoa valorosa. Então veio a televisão, e com ela luzes e sinais que orientavam a plateia no estúdio a quando aplaudir. Quando os espectadores em casa descobriram a artimanha, muitos sentiram que o aplauso foi banalizado –mas não os bongas.

Um grande número de bongas compareceu aos estúdios de televisão, ávidos por uma chance de aplaudir. Em vez de um sinal de aplauso, alguns apresentadores de televisão passaram simplesmente a dizer no momento indicado: "E agora uma grande salva de palmas". Mas logo as plateias de estúdio passaram a aplaudir sem aguardar pela deixa do apresentador. Bastava o apresentador perguntar a alguém na plateia como ganhava a vida e, independente da resposta –"eu cuido da câmara de gás no canil local", por exemplo– e a plateia iniciava uma ovação trovejante. Às vezes os apresentadores mal tinham a chance de dizer "Boa noite" antes de aplausos extasiados abafarem o restante da saudação.

Assim, o aplauso se tornou uma parte indispensável da televisão; sem ele, os programas pareceriam de alguma forma falsos, e os espectadores em casa poderiam mudar de canal! Os bongas queriam que a televisão mostrasse a vida real como ela é, e a vida real inclui pessoas que aplaudem. Assim, para que se sentissem assentados na "vida real", os bongas passaram a ter a necessidade de aplaudir o tempo todo, não apenas dentro dos estúdios de TV. Eles aplaudiam em funerais –não por estarem felizes com a morte de alguém ou por acharem que o aplauso de alguma forma agradaria ao falecido, mas para se sentirem vivos e reais, como as pessoas na TV. Eu escrevi na época que tinha visitado a casa de um bonga e testemunhei a chegada de um parente, que anunciou, "A vovó acabou de ser atropelada por um caminhão!" –e que, em resposta, todos se levantaram e começaram a aplaudir.

De nada valeu meu conto de advertência. Nas aproximadamente três décadas desde que inventei a história sobre a avó, o hábito de aplaudir apenas se tornou mais disseminado. Isso me veio à mente recentemente, enquanto assistia um programa agradável chamado "Reazione a Catena" ("Reação em Cadeia"), apresentado por um homem chamado Amadeus. O programa apresenta duas equipes adversárias, cada uma com três pessoas, tentando adivinhar palavras. Seria perfeitamente lógico para uma equipe aplaudir quando um de seus membros responde corretamente. (De fato, neste programa, até mesmo a pessoa que responde aplaude a si mesma.) Mas ela também aplaude quando um oponente dá a resposta certa. Eles até mesmo aplaudem quando Amadeus anuncia a mudança de um jogo para outro.

Eu não acho que os participantes reagem assim por serem mentalmente perturbados; na verdade, eles costumam parecer jovens inteligentes. Eu suspeito que sejam compelidos a aplaudir porque, de algum modo, o aplauso parece ser a parte mais significativa do programa. Assim, aplaudir não significa mais algo. Pode ser uma expressão rítmica, como em muitos rituais tribais, ou talvez uma afirmação improvisada, semelhante a balançar a cabeça afirmativamente ou dizer "oh yeah", que significa participação, alegria e satisfação. Mas o uso excessivo privou as palmas de seu significado em muitos outros contextos.

Eu não entendo o que leva as pessoas atualmente a aplaudirem em todo tipo de situações aparentemente impróprias --incluindo, na Itália, nos funerais das vítimas da Máfia. Trata-se de um sinal de respeito pelos que partiram? Significa alegria por suas mortes? Uma reverência aos assassinos? Certamente as pessoas deveriam traçar um limite em algum lugar. No mínimo, talvez todos possamos concordar, por dignidade e respeito, não vamos aplaudir quando um presidente coloca uma coroa de flores no túmulo do Soldado Desconhecido.

(Umberto Eco é autor dos best-sellers internacionais "Baudolino", "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucault", entre outros.)

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Umberto Eco

Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. É autor de "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucalt".

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