Terra infeliz é uma onde ninguém mais sabe qual é seu dever

Umberto Eco

Umberto Eco

  • Filippo Monteforte/AFP

Pessoas na imprensa e na televisão celebraram com satisfação e muita fanfarra o trabalho de resgate aos passageiros da Norman Atlantic. Essa foi a balsa de propriedade italiana que pegou fogo além da costa da Grécia em 28 de dezembro. Apesar dos relatos variarem, ela contaria com 478 passageiros e tripulantes a bordo, com até 432 pessoas resgatadas durante condições meteorológicas difíceis. Algumas pessoas morreram e outras estão desaparecidas, mas a operação de resgate pareceu, em grande parte, eficiente.

A mídia deu atenção particular às ações do capitão do navio, Argilio Giacomazzi, que, após dirigir as operações de resgate a bordo da balsa, foi o último a deixar o navio. Os comentaristas não deixaram de notar isso, dado um recente desastre com balsa durante o qual o capitão abandonou o navio antes de seus passageiros. Aquele capitão foi tudo, menos corajoso, de modo que, inevitavelmente, no relato de algumas pessoas, o rótulo de "herói" começou a ser empregado em relação ao capitão Giacomazzi.

Não há como coibir o fervor e hipérbole da mídia sempre que se agarra a certas histórias. Atualmente, quando alguém expressa alguma discordância a respeito de algo, é dito que ela "troveja", como se fosse Júpiter no Olimpo. E uma pessoa no meio de uma controvérsia estaria no "olho da tempestade". Isso também é um erro, porque quando se está no olho de uma tempestade, tudo está calmo. Mas o público precisa de sua dose de agitação.

Vamos voltar a Giacomazzi. Não há dúvida de que ele é uma pessoa digna (mesmo que seja provado posteriormente que teve alguma responsabilidade pelo incidente). E só podemos esperar que, no futuro, todo capitão se comporte como ele. Mas ele não é um herói. Ele é um homem que cumpriu seu dever de forma honesta e sem covardia. Tanto a tradição marítima quanto a lei italiana ditam que um capitão deve ser a última pessoa a deixar seu navio e esse dever certamente envolve risco.

Quem é um herói? Segundo Thomas Carlyle, o ensaísta e historiador escocês do século 19, heróis são grande homens com enorme carisma, que deixam sua marca na história. Neste sentido, tanto Shakespeare quanto Napoleão foram heróis. Mas a ideia de Carlyle foi condenada por Tolstói e posteriormente por alguns historiadores, que deram menos importância a grandes eventos, preferindo dar maior foco às tendências coletivas e estruturas econômicas e sociais.

Por outro lado, os dicionários definem um herói como sendo uma pessoa que realiza um ato excepcional –um que não seja exigido dela e a um grande risco pessoal– em benefício de outros. Nesse sentido, o jovem policial italiano Salvo D'Acquisto foi um herói –ele salvou 22 pessoas de represálias nazistas durante a Segunda Guerra Mundial ao assumir plena responsabilidade por um crime inexistente. Ninguém lhe pediu para assumir a culpa ou para ficar diante de um pelotão de fuzilamento para salvar as vidas de seus conterrâneos. Mas além e acima do dever, ele fez exatamente isso, o que lhe custou sua vida.

Para ser um herói, não é necessário ser soldado ou líder. Heróis são aqueles que arriscam suas vidas para salvar uma criança que está se afogando ou um colega mineiro, ou que dão as costas aos confortos da medicina moderna para arriscarem suas vidas para socorrer pacientes com ebola na África. Parece que o próprio Giacomazzi, quando entrevistado após o desastre da balsa, rejeitou o rótulo como não justificado. "Heróis não servem a um propósito", ele disse. "Tudo em que ele pensa é naqueles que não estão mais conosco." Foi uma forma sensível de rebater a santificação por parte da mídia.

Mas por que chamamos algumas pessoas de heróis quando estão apenas cumprindo seu dever?

O dramaturgo alemão Bertolt Brecht, em sua peça "A Vida de Galileu", nos disse "infeliz é a terra que precisa de heróis". Por que infeliz? Porque é um lugar que carece de pessoas normais que fazem o que deveriam fazer, que não se esquivam de suas responsabilidades e que o fazem "com profissionalismo". Na falta desses cidadãos, um país precisa desesperadamente de figuras "heroicas" e da distribuição a torto e a direito de medalhas de ouro.

Uma terra infeliz é, portanto, uma onde ninguém mais sabe qual é seu dever, de modo que as pessoas buscam freneticamente um demagogo carismático que lhes diga o que fazer. E essa, se me recordo corretamente, foi a mesma ideia expressada por Hitler em "Mein Kampf".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Umberto Eco

Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. É autor de "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucalt".

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