Ninguém, nem os intelectuais, tem a resposta que queremos ao terrorismo

Umberto Eco

Umberto Eco

  • Sebastien Nogier/EFE

    Franceses depositam homenagens aos mortos nos ataques em Paris em memorial montado na praça da República

    Franceses depositam homenagens aos mortos nos ataques em Paris em memorial montado na praça da República

A mídia está sempre perguntando a escritores, psicólogos e filósofos quais são suas ideias sobre a atualidade. Mas os intelectuais não são oráculos com respostas para tudo

Recentemente, certas questões espinhosas que eu tentei abordar anos atrás ressurgiram na agenda. Por isso, se eu me repetir aqui, não é totalmente minha culpa.

A primeira questão se refere ao punhado de escolas italianas que nos últimos anos decidiram não montar um presépio por medo de ofender os alunos de origem não cristã.

Meu pai, que não era crente, costumava passar muitas noites em todo Natal criando maravilhosas cenas da Natividade, simplesmente por sentir-se ligado à tradição. Assim sendo, tem sentido impedir que crianças que são fiéis participem dessa mesma tradição na escola?

Bem, o próprio fato de que muitas escolas na Itália têm corpos discentes variados nos oferece uma solução excelente para esse problema: durante a época de Natal, as escolas poderiam montar um presépio em uma sala especial dedicada a imagens religiosas, onde as crianças que desejarem poderão vê-lo.

Então, durante os feriados muçulmanos ou judaicos importantes, exposições diferentes poderiam ser criadas e colocadas na mesma sala, com um professor disponível para explicar as imagens aos alunos que não as compreenderem.

As crianças teriam liberdade para envolver-se com essas manifestações religiosas conforme desejarem. Assim elas teriam a oportunidade de aprender sobre a pluralidade de crenças --um benefício para sua educação, já que a história das religiões muitas vezes não é ensinada nas escolas.

A segunda questão se refere à responsabilidade dos intelectuais em abordar temas públicos. Na televisão e em outros lugares, eu ouço as pessoas perguntarem: por que os intelectuais não se manifestam mais sobre a ameaça terrorista?

Em primeiro lugar, devo dizer que essa questão não se aplica aos intelectuais franceses, que têm debatido plenamente os ataques terroristas do ano passado e como o país deve reagir a eles.

Mas mesmo fora da França simplesmente não é verdade que os intelectuais não falam sobre terrorismo; na verdade, eles o fazem o tempo todo. Aqui na Itália, por exemplo, basta percorrer os canais de televisão ou as páginas de um jornal para encontrar escritores, filósofos e psicólogos falando à vontade sobre o extremismo violento.

Portanto, a pergunta mais pertinente é algo mais abstrato, e preocupante: "Por que os intelectuais não nos dão as respostas que nossos políticos deixaram de dar?"

Esta é uma expectativa estranha, e até fetichista, que as pessoas têm, como se os intelectuais fossem oráculos dos quais brotam todas as respostas. Quem diz que grandes poetas, pensadores ou romancistas sabem o que fazer em situações que confundiram as melhores mentes políticas do mundo?

É verdade, como eu já disse diversas vezes, que os intelectuais às vezes podem prever o futuro --pense nos aspectos proféticos de "1984", de George Orwell. E os intelectuais certamente podem nos ajudar a entender fatos importantes. Mas no momento atual a opinião de um intelectual é tão válida quanto a de qualquer outra pessoa.

Os intelectuais podem manifestar consternação, dor e indignação, mas se eles sugerirem, por exemplo, que não devemos bombardear as cidades sírias, mas só os poços de petróleo do país, sua opinião não valerá mais que a de qualquer político que disser a mesma coisa.

Muitos anos atrás eu escrevi que se uma poeta se encontrar em um teatro onde começa um incêndio, ela não deve se erguer e ler um de seus poemas em voz alta --ela deve chamar os bombeiros.

E assim, esperar que os intelectuais forneçam todas as respostas é uma maneira de não admitir que os políticos, chefes de Estado e generais tampouco têm as respostas. As pessoas que apelam aos intelectuais diante das dificuldades da vida são como católicos devotos que só contam com os santos.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Umberto Eco

Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. É autor de "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucalt".

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