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Anderson Baltar


Novo presidente da Mangueira: "Não abro mão de um enredo cultural"

Leo Queiroz/Divulgação
Imagem: Leo Queiroz/Divulgação
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

10/05/2019 18h40

Aos 67 anos, o comerciante descendente de sírios Elias Riche foi eleito, no último dia 28, por aclamação, como o novo presidente da Estação Primeira de Mangueira. Apesar de não ter raízes no morro, vive a verde e rosa desde os 17 anos de idade. Foi componentes, presidente de ala, participou de comissões de Carnaval e foi vice-presidente em várias gestões.

Pelos próximos três anos, Riche tem a responsabilidade de gerir uma escola que ainda vive em processo de recuperação financeira, mas, mesmo assim, ganhou dois títulos nos últimos quatro anos. Além disso, encara como missão o resgate do papel da escola de samba como um ponto de encontro de sua comunidade e celeiro de novos sambistas. Confira nesta entrevista exclusiva os seus principais planos:

Chegar à presidência era um desejo antigo?

Quase fui candidato à sucessão do Alvinho (Álvaro Caetano, presidente de 2001 a 2006), mas não aconteceu. Tudo tem sua hora. O desafio é muito grande. Vamos ter problemas sérios para fazer o Carnaval, que custa muito dinheiro e a Mangueira, como a maioria das escolas, só arrecada a partir de julho. Os eventos até lá são quase sempre deficitários e as contas continuam chegando normalmente. Participei de muitos Carnavais mas estava afastado da escola. Vim a uma reunião em novembro e me empolguei e participei dos preparativos deste verdadeiro Carnaval de superação. Depois do desfile, as pessoas começaram a me pedir para ser presidente e acabei me convencendo de que poderia encarar o desafio com o nosso grupo.

Se cada um fizer a sua parte, conseguiremos fazer um ótimo trabalho.

A situação financeira da escola era crítica há alguns anos. Como ela está hoje?

Passamos de R$15 milhões de dívidas na época em que Chiquinho (da Mangueira) assumiu para R$ 4 milhões. Contraímos mais R$ 2 milhões que o conselho autorizou pegar de empréstimo para o último Carnaval. São R$ 6 milhões, mas é um valor administrável. Antes sofríamos com penhoras e ações trabalhistas e cíveis. Se não fosse o trabalho da última gestão, a Mangueira não teria sobrevivido. Agora temos que incrementar as formas de arrecadação da escola.

Raphael Dias/Getty Images
Imagem: Raphael Dias/Getty Images

Como você vê o modelo atual de gestão do Carnaval? É viável encontrar outras formas de sobrevivência?

As escolas têm que mudar. É inviável esse Carnaval absurdamente caro. O Carnaval é a maior festa que nós temos e a gente não tem que ficar dependendo muito do dinheiro público. A Prefeitura é a maior beneficiada com a festa, mas não está interessada. Ela deveria estar mais presente. A ajuda do Governo do Estado é importante, mas precisamos encontrar um caminho de autossuficiência, com uma gestão profissional. A verba da Light que surgiu no último Carnaval foi de lei de incentivo - que, se não fosse no Carnaval, iria para o Cirque de Soleil ou para o Rock In Rio.

Você vê um Carnaval em que o dinheiro da prefeitura ainda é fundamental ou que as escolas procurem outras fontes?

Tínhamos 2 milhões, caiu para 1 milhão e agora para 500 mil e o dinheiro todo ainda não foi pago. E as contas estão vencendo. Penso o seguinte: se vier dinheiro da Prefeitura, é um plus. Estou me programando para fazer o Carnaval apenas com o dinheiro que vem da Liga e da TV. Se vier o da Prefeitura, poderemos investir um pouco mais. Esse é o erro que muitas escolas cometem: esperam o dinheiro público e depois se enchem de dívidas. Não faremos isso. Graças a Deus, a Mangueira não tem nenhuma dívida do Carnaval passado.

Qual foi o segredo da Mangueira, no meio de tanta dificuldade, ganhar dois Carnavais nos últimos quatro anos?

O principal é agrupar pessoas. Se você forma um grupo de pessoas participativas, você encontra soluções com maior facilidade. Todo mundo contribui, quer mostrar serviço e busca ajuda. Quando as decisões são centralizadas, o diretor só veste a camisa e vai desfilar. Quando abrimos o processo de decisão, temos mais facilidade para resolver os problemas. A troca de ideias é muito proveitosa. Ninguém é dono da razão.

Quais são as primeiras medidas que o mangueirense verá em sua gestão?

Nesta semana tive uma reunião com a Dannemann Siemsen, que é uma firma importante de registro de patentes, e nós vamos ter o domínio de nossa marca, licenciando nossos produtos. A Mangueira é uma escola com nome muito forte no mundo todo. O verde e rosa é uma marca nossa. Vamos tomar também o controle dos shows da escola. Estamos conversando com os segmentos que a partir de agora todos os shows passam por conta da escola - o que será uma forma de arrecadação a mais. Também quero pensar em um projeto de visitação ao barracão pelos turistas.

Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira - Bruna Prado/UOL
Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira
Imagem: Bruna Prado/UOL

Falando mais especificamente do Carnaval 2020. Quando teremos o enredo?

Já conversei com o Leandro Vieira (carnavalesco) sobre isso. Temos três propostas patrocinadas e uma, do Leandro, sem patrocínio. Vamos estudar isso até o dia 31 de maio e conversar com ele para ver o que é melhor para a escola. Se tiver patrocínio, ótimo; se não tiver, vamos encontrar uma forma de colocar o enredo na avenida. Não abro mão de um enredo cultural, ainda que patrocinado. Queremos entrar em junho com tudo, para adiantar o trabalho.

Um dos maiores problemas atuais nas escolas é o custo da disputa de samba. Qual sua opinião?

Quero mexer na disputa de samba. Os custos estão altíssimos e, para baratear, é importante manter a disputa curta, como foi no ano passado, e limitar o número de compositores em cada obra. Hoje temos sambas com 10, 12 pessoas e, ao invés disso, poderíamos ter três ou quatro opções a mais para poder escolher. Também quero reativar o concurso de sambas de terreiro. É um ótimo laboratório para o surgimento de novos compositores e um manancial de material para os discos dos cantores de samba.

Temos que reativar essa vertente de ser um local onde o samba é gerado o ano todo.

Ser uma escola de samba viva.

Sim. Fazemos um esforço para botar o Carnaval na rua. Gastamos milhões e os componentes passam na avenida por meia hora, 25 minutos. Depois, vai todo mundo para casa. Não pode ser assim. A escola de samba tem que ser um local de encontro o ano todo, que faça parte da vida das pessoas. É isso que queremos fazer na Mangueira.

O desfile da Mangueira deste ano extrapolou os muros do mundo do Carnaval. Você acha que pode ter sido um evento que marcou a reaproximação das escolas de samba com o grande público?

Eu sou da época em que você ia para o samba e encontrava o povo na avenida. Ia de madrugada para a fila comprar ingresso e, na arquibancada, acontecia um encontro de torcidas. Hoje a arquibancada é fria. Poucos sambas hoje mexem o público. Mas o nosso samba de 2019 ultrapassou fronteiras. Tanto que estamos lançando um projeto, em conjunto com o Museu Histórico Nacional, chamado "Mangueira no Museu", com uma exposição sobre o desfile campeão e a história da escola. Devemos lançar no segundo semestre. Toda iniciativa que inclua a Mangueira na vida cultural da cidade será incentivada.