Topo

CarnaUOL

Anderson Baltar


Na União da Ilha, Laíla trabalha para resgatar tradição de bons sambas

Laíla, diretor de Carnaval  - Reprodução
Laíla, diretor de Carnaval Imagem: Reprodução
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

02/09/2019 18h18

Décima colocada no último Carnaval, a União da Ilha do Governador prepara-se para a briga em 2020 com uma tentativa de retomada de sua tradição de grandes sambas-enredos. Escola que legou ao gênero clássicos como O Amanhã (1978), É Hoje (1982) e Festa Profana (1989), a Ilha tem no seu novo diretor de Carnaval, Laíla, como um dos mentores deste reencontro com suas raízes. Para surpreender, a tricolor encampou uma ideia de seu diretor que dialoga com os Carnavais das décadas de 1950 e 1960: a ausência da sinopse para a criação dos sambas concorrentes.

Com um tema sobre as dificuldades e esperanças dos moradores das favelas, a União da Ilha, ao contrário das coirmãs, não distribuiu o roteiro do desfile aos seus compositores. A ideia central do enredo "Nas encruzilhadas da vida, entre becos, ruas e vielas, a sorte está lançada: salve-se quem puder" foi passada para os poetas por meio de palestras realizadas na quadra. A partir daí, os sambas foram compostos.

Na avaliação de Laíla, o processo, além de ter dado mais liberdade aos compositores, propiciou uma boa safra de sambas. "Estou felicíssimo porque temos obras fantásticas e iremos conseguir retomar o caminho dos bons sambas de 20, 30 anos atrás. Pedi aos compositores um samba com melodia, com beleza de letra e poesia. Cada um fez do seu jeito. Depois, pegaremos o que os sambas tiverem de melhor e encaixaremos no desfile", explica o diretor.

A disputa também apresenta diferenças em relação aos anos anteriores. Ao invés do tradicional corte com bateria e torcidas pagas, audições têm sido realizadas na quadra. À disposição, um pequeno palco, com um grupo de cerca de dez ritmistas e apenas três microfones para os compositores e intérpretes se apresentarem.

Na primeira passada, o samba se apresenta em um compasso bem lento e se acelera para o andamento comum na entrada da segunda passada. O conceito intimista agradou ao público e propiciou a Laíla uma melhor avaliação dos sambas. "A gente tem que ouvir para poder entender melhor a melodia. Pedi aos compositores que não fizessem samba acelerado. Não somos bloco de rua, somos uma escola de samba", salienta Laíla.

Com oito sambas na disputa, as audições acontecerão em todas as sextas-feiras de setembro. A semifinal e a final, marcadas para os dias 5 e 12 de outubro, serão no formato tradicional. Mesmo assim, Laíla pensa em uma novidade: usar o estacionamento da quadra, dias antes da final, para testar os sambas em um ambiente ao ar livre. "A quadra tem uma reverberação que atrapalha. Quero ouvir os sambas como se fossem na avenida para poder escolher o melhor", explica.