Milenares e misteriosas: 4 escritas que ainda não foram decifradas por nós

Stefhanie Piovezan

Colaboração para o UOL

Linguistas estimam a existência de 6,5 mil a 7 mil línguas no mundo, mas nem 10% possuem uma boa descrição e conhecê-las fica ainda mais difícil quando "desaparecem". Há, porém, pesquisadores que aceitam o desafio de tentar decifrar os códigos antigos e recuperar um pouco do que foi engolido pelo passado.

"É como na engenharia reversa", compara Renato Miguel Basso, doutor em linguística e professor da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos). A diferença é que a peça que serve de modelo pode ter milhares de anos, estar danificada e conter pouco material, e o processo de fabricação pode ser entendido de duas formas: sob a hipótese de uma origem única para todas as línguas ou com base na ideia de origens diferentes.

Nos dois casos, os linguistas analisam similaridades entre os signos ainda não decifrados e línguas já conhecidas e tentam chegar a padrões. O trabalho pode levar décadas e, como nos sistemas de escrita a seguir, não solucionar o mistério.

Escrita do Vale do Indo

O que arqueólogos descobririam sobre as civilizações atuais se, daqui a 4 mil anos, encontrassem os escombros de uma grande cidade? O exercício foi proposto por Rajesh Rao, professor da University of Washington, durante uma palestra para o TED para exemplificar o desafio por trás da antiga escrita do Vale do Indo.

A civilização responsável por essa forma de escrita ocupou uma área que hoje abrange o Paquistão, o Noroeste da Índia e partes do Afeganistão e do Irã, e deixou para trás pequenos selos de pedra e plaquetas de cobre e cerâmica descobertos por acaso na década de 1920.

Os pesquisadores sabem que essas peças eram usadas para estampar etiquetas de argila colocadas em mercadorias, mas, como destacou Andrew Robinson em artigo na "Nature", sua interpretação esbarra na ausência de um artefato com correlações, como no caso dos hieróglifos egípcios na Pedra de Rosetta; no fato de não saberem qual era a língua falada e na própria tensão nas regiões de fronteira, o que dificulta as escavações.

Linear A

A civilização minóica, que habitou a ilha de Creta até cerca de 1500 aC, inspirou o mito do Minotauro --um ser com cabeça de touro e corpo de homem que vivia em um labirinto-- e ainda faz linguistas buscarem um fio de Ariadne para decifrar sua forma de escrita.

Suas inscrições começaram a ser encontradas durante escavações no fim do século 19 e foram diferenciadas pelo arqueólogo britânico Arthur Evans entre hieróglifas e lineares. Os pesquisadores logo perceberam que as inscrições do tipo Linear A originaram a escrita chamada de Linear B, usada pelos povos micênicos e decifrada no início dos anos 50 por Michael Ventris e John Chadwick, mas ainda não conseguiram compreendê-la.

"A abundância de materiais foi o que, em grande parte, permitiu que a Linear B fosse decifrada. Isso demonstra que, quando existem muitos artefatos com finalidades comuns, como utensílios domésticos e vasos usados em cerimônias religiosas, há uma possibilidade maior de comparar os símbolos que se repetem e chegar a conclusões. Por exemplo, uma jarra pode trazer o nome de um deus ou deusa e ser encontrada nas imediações de um templo. Se o nome dessa divindade é bem conhecido --em grego, fenício ou outra língua antiga-- já se tem uma pista", explica Alessandro Beccari, professor do departamento de linguística da Unesp (Universidade Estadual Paulista) em Assis.

Etrusco

Os etruscos viveram na Itália, na região da Toscana, e suas inscrições são datadas a partir do século VII aC. A maioria dos textos é breve, mas há exceções, como um livro de 281 linhas escrito em um rolo de linho e descoberto aos pedaços, cobrindo uma múmia egípcia. Reunido e batizado de Liber Linteus, esse material está exposto no Museu Nacional de Zagreb, à espera de alguém que consiga decifrá-lo.

"O etrusco chegou a ser falado pelos romanos do período arcaico, concomitantemente ao latim, mas se extinguiu e seus registros escritos nunca foram decifrados. Há uma grande quantidade de material remanescente, porém não se sabe como essa língua funciona internamente. Ainda não se quebrou o código", diz Beccari.

Escrita maia

A América também guardou segredos. A escrita maia permaneceu como um enigma por séculos e hoje é considerada quase completamente decifrada. No caso dela, o desaparecimento e, curiosamente, a própria decodificação estão relacionados à atuação dos missionários católicos. Eles ajudaram a preservar as línguas nativas --algumas ainda faladas em partes da América Central e do México--, mas trabalharam para minar a escrita.

"Embora o interesse dos religiosos na conversão fizesse com que estudassem as línguas nativas e escrevessem gramáticas e dicionários para elas, havia igual interesse na extinção das práticas religiosas maias, codificadas em uma forma de escrita considerada sagrada. Como não aceitavam as práticas e as ideias religiosas dos maias, os membros da Igreja Católica e o governo colonial espanhol procuraram abolir o emprego das escritas tradicionais, substituindo-as por escritas em que se empregava o alfabeto latino. Nesse caso, a escrita torna-se indecifrável, mas a língua subsiste em outro sistema, ambos de forma intencional", conta Beccari.

Para Basso, essa imposição de uma nova linguagem (glotocídio) figura ainda hoje ao lado do preconceito linguístico como explicação para a redução da diversidade linguística no mundo. "Estima-se que, a cada duas semanas, uma língua desaparece, e com cada uma que se vai a gente perde junto um pedaço de humanidade".

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