Osso de 3 cm aponta que humanos saíram da África bem antes do que se pensava

  • Ian Cartwright

    Um fóssil encontrado por pesquisadores no deserto árabe foi identificado como sendo a falange de um Homo sapiens de 85 mil anos

    Um fóssil encontrado por pesquisadores no deserto árabe foi identificado como sendo a falange de um Homo sapiens de 85 mil anos

Um osso de um dedo da mão, de três centímetros, está fazendo com que cientistas repensem o que se sabia sobre as primeiras migrações dos humanos modernos.

Pesquisadores descobriram, a partir da análise do osso atribuído a um Homo sapiens, que já havia humanos vivendo na região que hoje conhecemos como Arábia Saudita há aproximadamente 85 mil anos. Até agora, acreditava-se que o Homo sapiens só começou a viver continuamente fora da África há 60 mil anos.

Esse achado reforça as evidências de que a migração se espalhou para além do continente africano muito antes do que se pensava. Pesquisas anteriores relataram decobertas semelhantes em Israel, China e Austrália, algumas delas datadas de cerca 180 mil anos.

A nova pesquisa, assinada por 30 cientistas de diferentes universidades, foi publicada na revista científica Nature Ecology and Evolution.

A falange analisada pelo grupo de cientistas foi encontrada em Al Wusta, um deserto da Península Arábica. Ela estava no meio de uma coleção de mais de 800 ossos de animais e de 400 artefatos de pedra coletada pelos pesquisadores.

Em escavações anteriores na Arábia Saudita, já haviam sido descobertas ferramentas que podiam ter sido usadas pelos primeiros Homo sapiens. Mas faltava encontrar ossos humanos.

Klint Janulis
As escavações foram feitas em Al Wusta, na Arábia Saudita

Nenhum outro resto mortal do dono do dedo, contudo, foi encontrado. "Isso é normal", observa How Groucutt, um dos responsáveis pela pesquisa. "Quase todos os humanos e animais desaparecem sem deixar rastros", afirma.

Para Groucutt, o grupo de pesquisadores teve muita sorte ao localizar e identificar a falange. "Geralmente, não somos capazes de distinguir quando se trata de um fragmento humano. Mas esse osso é muito peculiar", diz Groucutt, que é pesquisador de Oxford.

Para analisar a falange, a equipe usou uma técnica de datação baseada na medição da quantidade de energia emitida por seus elementos radioativos. Também construiu um modelo 3D do osso e o comparou com restos humanos desse período de tempo.

Verificou-se que ele se assemelhava mais a ossos de Homo sapiens que aos dos neandertais, cujos ossos são mais curtos e largos.

Uma questão de clima

Segundo os pesquisadores, há 85 mil anos o clima na região em que hoje fica a Arábia Saudita era muito diferente. As monções, com suas intensas chuvas, criaram lagos exuberantes, habitados por animais muito parecidos com os hipopótamos. Gado selvagem e antílopes também parecem ter migrado a partir da África nessa época.

Os registros fósseis identificados em Al Wusta mostra uma rica variedade da vida animal, junto com ferramentas feitas de pedra que se parecem muito com as usadas pelos Homo sapiens.

Segundo o professor How Groucutt, há razões para acreditar que os humanos se sentiram atraídos pelo clima favorável. "O interessante é que no passado foi dito que os humanos não poderiam se espalhar para a Ásia antes de ter ferramentas mais complexas. Nossos achados sugerem que esse tipo de migração, na verdade, não reflete um avanço tecnológico mas, sim, uma mudança climática."

Pesquisas recentes na África do Sul também indicam a influência das mudanças climáticas na evolução humana.

Apesar de ser difícil determinar com base apenas nos achados do local das escavações, há indícios de que a ocupação humana foi de curta duração na região.

Klint Janulis
Além da falange, cientistas encontraram cerca de 800 ossos de animais e 400 artefatos

Teria sido limitada de entre centenas e dois mil anos. Não se sabe se, em um determinado momento, a população foi extinta ou simplesmente decidiu mudar para outro lugar.

"Agora, o grande mistério é o que aconteceu com essas pessoas", diz Groucutt.

As evidências genéticas sugerem que todos os não africanos vivos descendem de humanos que migraram da África há 60 mil anos. Mas os pesquisadores tentam conciliar dados genéticos com as crescentes evidências arqueológicas que indicam que os Homo sapiens já tinham saído da África bem antes.

Uma teoria é a de que essas populações mais antigas foram extintas e substituídas por uma posterior que conseguiu avançar e se estabelecer permanentemente em diferentes partes do mundo.

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