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Josias de Souza

Depoimentos da CPI roubam audiência do cercadinho de Bolsonaro no Alvorada

15.mai.2021 - Sem máscara e provocando aglomeração, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) participou de almoço com ruralistas em Brasília em meio a atos de apoio ao governo - CLÁUDIO MARQUES/ESTADÃO CONTEÚDO
15.mai.2021 - Sem máscara e provocando aglomeração, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) participou de almoço com ruralistas em Brasília em meio a atos de apoio ao governo Imagem: CLÁUDIO MARQUES/ESTADÃO CONTEÚDO
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

16/05/2021 05h19

O Datafolha troveja índices negativos sobre Bolsonaro. Mas ele não se dá por achado. Continua ornamentando aglomerações. Envia raios que os partam para os seus críticos. "Não queremos o confronto com ninguém", discursou, em manifestação de ruralistas e evangélicos neste sábado. "Mas não ousem confrontar ou roubar a liberdade do nosso povo. Vocês têm todo o direito de ir e vir, o direito à crença, o direito de trabalhar. E, sem qualquer critério, esses direitos foram suprimidos de vocês."

A maioria dos brasileiros (58%) avalia que o capitão não tem capacidade para liderar o Brasil. Somando-se os que nunca confiam no que o presidente declara (50%) e os que só lhe dão crédito às vezes (34%), verifica-se que 84% desconfiam do lero-lero de Bolsonaro. Pela primeira vez, há mais apoiadores do impeachment (49%) do que opositores da ideia (46%). Como se tudo isso fosse pouco, Lula disparou na frente do capitão na corrida presidencial.

É como se a "gripezinha" cobrasse a fatura do negacionismo de Bolsonaro. O capitão logo perceberá que há males que vêm para pior, pois dois espetáculos não cabem ao mesmo tempo num só palco. Ou numa única Brasília. Um acaba roubando audiência do outro. Estava em cartaz desde 2019 a presidência-auditório do cercadinho do Alvorada. Há 15 dias, começou um novo espetáculo político.

Pela terceira semana consecutiva, o brasileiro vai maratonar a série de depoimentos da CPI da Covid. Indócil, Bolsonaro capricha na teatralidade. Mas tornou-se coadjuvante de um espetáculo estrelado pelo elenco que ele próprio selecionou. Os protagonistas da semana serão Ernesto Araújo e Eduardo Pazuello. Na terça-feira, será inquirido na CPI o ex-chanceler que se orgulha da condição de "pária". Na quarta, o general que promoveu a ocupação militar da Saúde. A chance de o governo sair ileso é nula.

Seguindo o rastro de provas que o capitão produziu contra si mesmo durante a crise sanitária, a CPI já demonstrou a existência de um modelo vacinocida. Nele, a cloroquina era poção mágica contra a "gripezinha", o brasileiro tinha de enfrentar o vírus de peito aberto, e a contaminação em massa levaria a uma imunização de rebanho que tornaria as vacinas desnecessárias. Deu, por ora, em 434 mil mortos.