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Bolsonaro vai sendo descascado na mesma cozinha em que frita Mandetta

15.abr.2020 - O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta durante coletiva de imprensa sobre o coronavírus - UESLEI MARCELINO/REUTERS
15.abr.2020 - O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta durante coletiva de imprensa sobre o coronavírus Imagem: UESLEI MARCELINO/REUTERS
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

16/04/2020 02h42

Desde que percebeu que sua exoneração seria inevitável, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, resolveu dar o troco. Com isso, a autoridade, a competência e a sanidade do presidente da República vêm sendo abertamente questionadas por um subordinado com mais aprovação que ele. Uma novidade para um Jair Bolsonaro que se acostumou a fritar e humilhar auxiliares em público.

"Sessenta dias tendo de medir palavras. Você conversa hoje, a pessoa entende, diz que concorda, depois muda de ideia e fala tudo diferente. Você vai, conversa, parece que está tudo acertado e, em seguida, o camarada muda o discurso de novo. Já chega, né?", afirmou Mandetta ao site da revista Veja nesta quarta (15).

Esse relato trata de um presidente da República que não sustenta sua própria palavra e os acordos que firma, sendo, portanto, incapaz de construir consensos para poder vencer uma pandemia. Mostra alguém que vive para a guerra, visando à capitulação do outro. Não admira que seja tutelado por seus auxiliares militares.

No último domingo (12), o ministro já havia provocado Bolsonaro a demiti-lo. Disse, em uma entrevista, que o país vive uma situação em que o responsável pela pasta da Saúde orienta uma coisa e o presidente da República, outra. O mais importante não foi a mensagem, mas o canal - o programa Fantástico, da Rede Globo, tão odiada pelo mandatário. E com gravação na sede de governo de Goiás - o médico e ruralista Ronaldo Caiado rompeu com o governo exatamente por conta do negacionismo sanitário presidencial.

Bolsonaro tem demonstrado, desde a posse, uma grave insegurança no exercício de suas funções. Há um rosário de declarações em que gasta tempo para convencer a plateia que ele é quem manda, reafirmando-se como capitão, timoneiro, presidente da República. Esquece que chefia pode até ser dada e comprada, mas liderança se conquista. Essa insegurança aliada a uma boa dose de paranoia conspiracionista fazem com que, paradoxalmente, um chefe atue para conter sua própria equipe quando ela se destaca. É assim com Luiz Henrique Mandetta, mas já foi com Sergio Moro e Paulo Guedes.

O que deve estar passando pela cabeça desse mandatário inseguro ao verificar que um subordinado resolveu não se demitir diante de seus ataques? E que sabe usar a imprensa a seu favor, vendendo uma boa imagem, sendo visto como mais essencial do que ele próprio para a condução do desafio atual?

Uma coisa foi substituir um ministro como o finado Gustavo Bebianno, fritando-o em parceria com seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro. Afinal, quem era Bebianno na fila do pão? Outra coisa é um presidente com 33% de aprovação trocar um ministro da Saúde que ostenta 76% em meio a uma pandemia de um vírus assassino transmitido por contato social.

O presidente adoraria colocar um Terraplanista biológico na pasta, alguém que batesse bumbo ao seu lado para que todos os brasileiros furassem as quarentenas, adotassem a ficção do isolamento vertical (segregando apenas idosos e as pessoas imunodeprimidas) e voltassem ao trabalho.

Relatos apontam que, diante das pressões, Bolsonaro aceitaria alguém com uma visão diferente, desde que não batesse de frente em público com ele. Ou seja, quer liberdade para continuar atacando a política de combate ao vírus e, ao mesmo tempo, um novo ministro ou uma nova ministra que aceite ficar em silêncio diante disso e tocar o trabalho que achar certo. Melhor seria contratar um hamster, daqueles bem branquinhos.

Tampouco adianta chamar um Nomão Reluzente para o cargo. Caso o novo chefe da Saúde resolva agradar o presidente, o resultado será um aumento significativo no número de mortos por Covid-19. Não é o brilho desse Nomão Reluzente que vai convencer médicos e enfermeiros a engolirem uma política suicida ou fazer com que a população diga amém quando a contagem de corpos disparar.

Daí chegamos ao ponto central dessa discussão: para que a letalidade do coronavírus seja menor, precisamos de pessoas que não aceitem transigir com a ciência neste momento. Sinceramente, Bolsonaro aceitaria trocar alguém que não endossa e nem segue suas ideias equivocadas por alguém que não endossa e nem segue suas ideias equivocadas? A questão não é Mandetta, mas estrutural. É a cabeça do presidente e suas prioridades.

A pandemia de coronavírus será bem didática para Jair Bolsonaro ou para o eleitor brasileiro. Um dos dois pode, a depender da escolha que for feita pelo presidente, aprender a lidar com as consequências de seus atos.

Leonardo Sakamoto