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Leonardo Sakamoto

Bate-boca na Jovem Pan mostra que Presidência perdeu respeito sob Bolsonaro

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

27/10/2021 17h32Atualizada em 27/10/2021 20h48

Jair Bolsonaro teve um lembrete de como é dura a vida fora da proteção do cercadinho de fãs na porta do Palácio do Alvorada e dos comícios eleitorais organizados por seus apoiadores - locais onde ele pode promover um vírus assassino, ser homofóbico e contar mentiras e ainda ser chamado de "mito" pelos presentes.

Em uma entrevista ao programa Pânico, na Jovem Pan, nesta quarta (27), para marcar a estreia do canal de TV da empresa, Bolsonaro pensou que encontraria a mesma tranquilidade que viu diversas vezes em conversa com a área de jornalismo. Foi questionado, contudo, pelo humorista André Marinho, se "rachador tem que ir para a cadeia".

O presidente e dois de seus filhos, o hoje senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) e o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), são acusados de terem praticado por anos o desvio de dinheiro público através da devolução compulsória dos salários dos servidores de seus gabinetes, prática conhecida carinhosamente como "rachadinha".

O humorista elaborou uma pegadinha, citando investigações que apontam para supostos casos de desvios envolvendo o PT no Rio e perguntando ao presidente o que ele achava disso. Irritado, respondeu que o pai de André, Paulo Marinho, quer a cadeira de seu filho Flávio. O empresário, um dos principais apoiadores de Jair durante a eleição de 2018, sentiu-se abandonado após o início do governo e se tornou um crítico.

A entrevista é um exemplo de como a Presidência da República, sob Bolsonaro, perdeu o respeito. E por culpa do próprio capitão.

Em quase 34 meses de governo, Bolsonaro fez de tudo para minar a imagem da Presidência da República: de ameaças de golpes de Estado, passando pela instrumentalização de instituições para defender a ele e os filhos até o uso do poder de seu cargo para sabotar o combate à covid - como mentir que a vacina mata adolescentes e provoca Aids.

Ao não se mostrar à altura do cargo, ele abre brecha para quem deseja trata-lo sem a deferência e o respeito que os votos lhe conferiram. Quando ele se negou a prosseguir a conversa com André Marinho, o humorista afirmou: "Responda à pergunta que te fiz, cara. Por quê? Só quer pergunta de bajulador?"

Então disse que o presidente "é tigrão com humorista e tchutchuca com STF". E, depois, em embate com um comentarista bolsonarista, que trouxe Paulo Marinho à baila, André afirmou que "O meu pai não chora no banheiro" - em clara referência à declaração de Bolsonaro, admitindo que fazia isso.

Diante disso, Bolsonaro deixou o programa no meio. Ou "fugiu", como cravaram redes sociais. Para um político que construiu sua imagem na base da "lacração", zoando com quem fugia de ataques e pegadinhas, ficou mal - principalmente entre os mais jovens.

Sob pressão, Bolsonaro costuma falar bobagens ou deixar aflorar o velho deputado federal conhecido por dizer que não estupraria uma colega porque ela não "merecia". O que nos coloca uma pergunta: se ele mantiver o segundo lugar na disputa presidencial, faltará novamente aos debates ou vai encarar?

Ninguém duvide, pois, se ele impuser a condição para participar de que sejam todos realizados no cercadinho do Alvorada.