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Paulo Sampaio


Versão virtual da "Festa dos Pelados" reúne quase 300 gays no zoom

O panfleto da festa - Divulgação
O panfleto da festa Imagem: Divulgação
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

01/06/2020 07h00

Depois de quase três meses sem produzir uma edição da Kevin, também conhecida como "Festa dos Pelados", o jornalista Rafael Maia decidiu aderir ao novo normal e criou uma versão virtual do evento. "Bombou!", comemora ele. "Conseguimos reunir 275 pessoas no Zoom."

Zoom é uma ferramenta digital utilizada basicamente para teleconferências. Criado em 2011 nos Estados Unidos, tornou-se uma solução prática para quem precisa trabalhar em casa durante o isolamento social recomendado em todo o mundo desde o começo da pandemia de covid-19.

A imagem dos participantes aparece em "janelas" da tela subdividida do celular ou computador. Exceto por alguns deslizes que viralizaram na internet, como o da executiva que esqueceu a câmera ligada e usou o sanitário enquanto falava com colegas de trabalho, exibir-se nu para uma coletividade não tem sido exatamente a principal serventia da ferramenta.

Sonoridade pop

Eis que no sábado, 30, a Kevin explorou o flanco alternativo do Zoom. "Foram oito horas de festa, a partir das 21h, e as pessoas entravam na tela à medida em que iam chegando", conta Rafa Maia. Três DJs se revezaram, cada um tocando de sua casa uma "sonoridade pop eletrônica com foco em artistas LGBTs".

Um dos DJs, já seminu - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Um dos DJs, já seminu
Imagem: Arquivo Pessoal

Na versão virtual da festa, no máximo 300 pessoas podem estar ao mesmo tempo na tela, limite estipulado pela plataforma, o que representa um terço do público que costumava frequentar o modelo pré-quarentena. Em ambos os formatos, a maior parte dos frequentadores se livra das peças de roupa na medida em que os aditivos vão fazendo efeito. Na Kevin presencial, o sexo acontecia no chamado darkroom — quarto escuro onde os participantes praticam uma espécie de cabra-cega sexual.

À saída do darkroom, no claro, o parceiro pode ser aproveitado ou descartado, sem que ninguém fique (aparentemente) melindrado. No on-line, o descarte pode acontecer em um clique. Segundo o produtor Maia, "essa brincadeira on-line é muito interessante porque o sexo virtual, o envio de nudes e o ingresso em aplicativos de pegação fazem muito parte do universo do público que frequenta a Kevin."

Versão "física" da Kevin - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Versão "física" da Kevin
Imagem: Arquivo Pessoal

Chapelaria congestionada

O nome da festa faz alusão às tirinhas Kevin & Friends, que retratam "as aventuras do menino inconvenientemente feliz". Criado em 2015, o evento foi projetado com o objetivo de fazer "as pessoas se sentirem livres de qualquer preconceito, especialmente na forma de se vestir". Isso incluía se despir. A chapelaria costuma ser o ponto mais congestionado do lugar, justamente porque boa parte dos frequentadores não tira as peças de uma vez, mas ao longo da noite.

A Kevin física se realizava em uma boate de aspecto decadente (faz parte da proposta) localizada em uma ladeira pouco convidativa, justo no pedaço em que ela passa embaixo de um viaduto no centro de São Paulo. O lugar tem paredes pintadas de preto, espelhos embaçados, neons esmaecidos e um palco minúsculo em que se apresentam performances.

Fila virtual

No sábado, o link para entrar na sala já estava disponível quinze minutos antes do começo da festa. Os primeiros a chegar entravam no correspondente uma 'fila' on-line. Como em uma teleconferência, "cada pessoa ocupava sua janelinha, com ou sem acompanhante, e, no centro, alguém ficava em destaque". Maia: "Eu sou o host do evento, então podia revezar a todo instante quem ia para o destaque. Deixei que cada um permanecesse 20 segundos, para que todos pudessem ficar um pouquinho."

Na lateral da tela, havia uma lista com os nicknames dos que estavam ali. O participante podia deslizar a setinha pelas imagens de cada frequentador, mandar mensagens para todos ou chamar no privado. "Funciona mais ou menos como o clássico bate-papo do UOL", compara.

Olhando pela janelinha

O quarto nem tão escuro é uma sala que reúne pessoas interessadas em fazer sexo (virtual). "Dei uma entradinha, mas como a festa estava boa, eu preferi ficar interagindo", diz o atendente Flávio de Quinto, 29 anos. Interagir significa dançar sozinho, em casa, e, ao mesmo tempo, com várias pessoas, na tela.

Pelo que Quinto conta, a versão on-line da festa tende a agradar mais quem aprecia o voyeurismo: "O contato físico é substituído pela observação das janelinhas. É legal reparar como cada um se diverte", diz. Reparar e puxar papo. "Adicionei e fui adicionado nas redes sociais."

Distribuição de tarefas

Os ingressos foram vendidos em quatro lotes nos valores de R$ 10, R$ 15 e R$ 20 — quarenta seriam distribuídos gratuitamente, mas a procura foi tamanha que acabaram sendo negociados. De acordo com Rafa Maia, o dinheiro arrecadado "ajuda a manter a festa viva", ou seja, a pagar as contas da versão física enquanto dura a quarentena.

O fim da versão on-line da Kevin revelou um aspecto prático para os anfitriões. Eles não precisaram se preocupar com a limpeza do salão, dos banheiros, nem, principalmente, do darkroom. Também não tiveram de amparar bêbados pelados nem carregar a aparelhagem de som pra casa. Muito moderno, o sistema distribuiu as tarefas entre os frequentadores, que se ocuparam, cada um, com arrumação do próprio espaço.

Paulo Sampaio