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Paulo Sampaio


Sapateiro de Sabrina e Ivete posta foto com máscara de Bolsonaro e "causa"

A máscara com  imagem de Bolsonaro - Arquivo Pessoal
A máscara com imagem de Bolsonaro Imagem: Arquivo Pessoal
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

21/06/2020 04h00

O estrogonofe de filé estava quase pronto, quando a cozinheira Raquel Duarte se deu conta de que faltava champignon. "Não como estrogonofe sem champignon", diz o designer de sapatos Fernando Pires, 66 anos, patrão de Raquel. Ele saiu para comprar o cogumelo. A caminho do mercado, que fica a cerca de duas quadras de sua casa, fez uma selfie usando a máscara com estampa do rosto do presidente Jair Bolsonaro que havia ganhado do ator David Cardoso Jr.

"Não costumo fazer selfie, nunca tiro foto minha para postar nas redes sociais, mas queria agradecer o David", diz. Depois de postar a foto e comer o estrogonofe, Fernando se deitou para descansar. Pouco tempo depois, ao acessar o celular, levou "um susto".

"Já havia quase 200 comentários", lembra o sapateiro, que tem entre suas clientes Ludmilla, Ivete Sangalo e Sabrina Sato. "Eu pensei: 'Gente, o que é isso?'"

Ludmilla, Ivete Sangalo, Sabrina Sato e os modelos Fernando Pires - Arquivo Pessoal/UOL - Arquivo Pessoal/UOL
Ludmilla, Ivete Sangalo, Sabrina Sato e os modelos Fernando Pires
Imagem: Arquivo Pessoal/UOL

Fato inédito

No momento desta entrevista, ontem à noite, já havia quase 20 mil likes. "Nunca recebi esse retorno. As pessoas enlouqueceram."

O motivo da "comoção nacional", como Fernando definiu a reação, é a publicidade que um homossexual conhecido no meio da moda estaria dando a um presidente declaradamente homofóbico. "O povo fala que o Bolsonaro disse que preferia ter um filho morto do que gay. Que é misógino, discrimina negros. Onde as pessoas leram isso? Me mostra!"

Para Fernando, as declarações homofóbicas feitas por Bolsonaro "são antigas". "As pessoas evoluem. O presidente tem amigos em comum com o (promoter carioca) Amin Khader, que não pode ser mais gay. O Amin já postou várias fotos abraçando o Bolsonaro."

Muitos aplausos

Ele calcula que 75% dos comentários foram de pessoas aplaudindo sua atitude. O resto era "meia dúzia de bichas": "Elas me xingaram de tudo o que você puder imaginar. Gay maricona, velha gagá, surtada, disseram que meu sapatos sempre foram horrorosos, que nunca tiveram relevância. Só faltaram me enterrar."

A princípio, Fernando respondeu com "coraçõezinhos". "Eu estava me divertindo." Mas à certa altura, resolveu responder. "Um deles disse que eu copiava o (designer francês de sapatos Christian) Louboutin, eu respondi: "Manda a foto do original! Quero ver!!'"

Entre os comentários, havia quem sugerisse à cantora rapper Gloria Groove que cancelasse (bloqueasse) Fernando na rede social.

Fernando: "Eu respondi: 'Fala para a Sabrina me cancelar também, a Ivete, a Claudia Raia, a Deborah Secco, a Ludmilla, a Madonna, a Talia...Tenta a Hebe, de repente você consegue!"

Armas poderosas

Formado em arquitetura, Fernando Pires faz sapatos há 40 anos. Ele define seu estilo como diferenciado. "Pra mim, sapatos são armas poderosas nos pés das mulheres. Não abro mão disso. Faço modelos para elas arrasarem com os homens, e deixarem as amigas mortas de inveja."

Fernando tornou-se famoso por produzir sapatos grandes, chamativos, alegóricos. Sabrina Sato costuma desfilar no Carnaval com modelos feitos exclusivamente para ela, de 20 cm de salto. "Só ela consegue usar", afirma ele. Ao longo de quatro décadas, "os saltos foram aumentando".

Entre Hebe Camargo e Regina Duarte - Arquivo Pessoal/UOL - Arquivo Pessoal/UOL
Entre Hebe Camargo e Regina Duarte
Imagem: Arquivo Pessoal/UOL

Bico fino de verniz

Ele explica que, dada a exclusividade dos modelos, sua produção é limitada. "Não faço mil pares, porque o meu objetivo não é a quantidade, mas a qualidade. Não tenho loja há seis anos", diz. O valor do par de sapatos vai de R$ 850 a R$ 5 mil (com cristais).

Embora sua principal clientela seja a feminina, Fernando Pires gosta de homenagear homens que admira. "Ontem mesmo fui buscar no ateliê um par de mocassins de verniz que eu tinha desenhado especialmente para o Bolsonaro, nem sei se ele usou, e agora mandei fazer igualzinho para dar de presente para o (apresentador) Sikêra Jr., do Alerta Nacional (Rede TV!)", diz.

Mocassins decorados com balas estilizadas, feitos especialmente para Bolsonaro e Sikêra Jr. - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Mocassins decorados com balas estilizadas, feitos especialmente para Bolsonaro e Sikêra Jr.
Imagem: Arquivo Pessoal

O modelo tem bico fino e é atravessado, na parte de cima, por uma fileira de balas de revolver estilizadas.

Sem medo de covid

A respeito da pandemia de covid-19, Fernando diz que não deixou de trabalhar nenhum dia desde o começo da quarentena. "Não vou ao ateliê desde o Carnaval e estou trabalhando com menos gente, até porque os fornecedores deram uma diminuída na produção."

Isso não significa que ele tenha medo do Sars-CoV-2: "Medo é a pior coisa para enfrentar esse vírus. Quem tem de ter medo é ele, de mim!"

Foi pouco

Ele garante que, depois da "comoção" causada no instagram, passou a ter mais seguidores. Diz ter ido de 42.200 para 42.800. Aos que deixaram de segui-lo, diz: "Vão com Deus!"

Animado, finaliza: "Se eu soubesse que ia causar esse furor, teria feito muito mais. E pode escrever aí: amanhã (hoje) vou caminhar na (avenida) Paulista com a minha mascarinha!"

Paulo Sampaio