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Paulo Sampaio


Em live, naturistas citam ereção à vista como "falta grave"

Já são mais de 250 mil adeptos do naturismo no Brasil - Getty Images/iStockphoto
Já são mais de 250 mil adeptos do naturismo no Brasil Imagem: Getty Images/iStockphoto
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

01/07/2020 04h00Atualizada em 04/07/2020 13h07

Por mais espontânea que seja uma ereção, ela deve ser "acalmada" quando o homem se encontra em um evento de nudistas que estão em harmonia com a natureza. Isso faz parte das "Normas Éticas do Naturismo", cujo primeiro item, "Faltas Graves", foi abordado em uma live que reuniu no fim de semana cerca de 20 entusiastas do movimento.

Só depois que o pênis está em posição de "repouso", o participante da confraternização deve se levantar para dar um mergulho no mar, ou, no caso de um sítio, na piscina.

"Ninguém precisa exibir a ereção como um troféu. Se você está excitado, não vai se levantar, atravessar toda a parte da piscina até chegar ao banheiro. Não! Você vai sentar, esperar acalmar, para depois se levantar. Na praia, a mesma coisa. Aconteceu? Senta. Faz um buraquinho na areia, vira de bunda pra cima e espera."

A sugestão é do vice-presidente da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN), Leonardo Spínola, que estava na live e deu explicações práticas de como evitar a infração. O tópico 1 das "Faltas Graves" é "Exibir um comportamento sexualmente ostensivo, ou praticar atos de caráter sexual ou obsceno nas áreas públicas".

Plano médio curto

A primeira curiosidade de um leigo que participa de uma live com naturistas é a respeito da forma como a nudez será apresentada em um quadradinho de aproximadamente três por quatro. Para não fazer feio, e mesmo sob uma temperatura de aproximadamente 16ºC, a reportagem tirou a camisa e exibiu a nudez do pescoço e colo — plano médio curto. Nem era necessário. O próprio vice-presidente, que mora no sul, usava um abrigo de moletom preto com capuz.

Para ser naturista, ninguém precisa estar nu. É o que se explica a um senhor de uns 60 e poucos anos chamado Roberto, que diz que era naturista até que se casou pela segunda vez. Deixou de frequentar os eventos do movimento porque sua atual mulher não é adepta — nem quer ser. Roberto veste uma camisa social e paletó.

Falha grave

"Não existe ex-naturista", afirma enfaticamente um juiz chamado Alexandre, que coordenou a live. "O naturismo é uma filosofia que você pode vivenciar o tempo todo, mesmo estando de paletó e gravata. Eu, no meu trabalho, só não estou sem roupa porque preciso seguir as normas da profissão e do local."

Antes mesmo de eu dizer que gostaria de fazer uma foto da live, me alertam energicamente, em dois momentos, que o uso da imagem dos participantes sem o consentimento deles é ilegal. Tento explicar que isso é algo que todo jornalista deve saber, e independe de os entrevistados estarem nus. Também me solicitam para não publicar o nome completo de ninguém.

Para não interromper o fluxo do encontro, preferi ficar sem a imagem. O que me intrigou foi a insistência do alerta. Quero crer que não existe pudicícia de cunho social em uma filosofia que preconiza a harmonia com a natureza.

Só os homens

Entre os cerca de 20 frequentadores do evento, em torno de 99% eram do sexo masculino. Cotavam-se apenas duas mulheres. Tanto Spínola quanto Alexandre afirmam que foi "acaso".

"Todos estão convidados, homens, mulheres, gays, lésbicas, crianças, adolescentes, idosos. Se as mulheres não vêm, o que eu posso fazer?", diz o vice-presidente da FBrN.

Por sua vez, Alexandre afirma que já participou de lives em que havia mais mulheres ("cinco, seis"): "Não se esqueça de que hoje é sábado. Muitas vezes as mulheres, logo depois do almoço, além de ter feito a comida, tem outros afazeres na casa."

A primeira vez

Ele dá boas vindas a um carioca chamado Charlys, que é relativamente novato no movimento, e pede que fale de sua experiência.

"Parece até que você leu na minha testa que eu queria falar", diz Charlys, que tem por volta de 30 anos e conta sua primeira vez em um ambiente naturista.

Em tom de entusiasmo, ele reafirma a frequência de pessoas de todos os gêneros: "Tinha muita mulher, na proporção de duas para um, em cerca de 25 pessoas, e todo mundo foi bastante receptivo, eu fiquei bem à vontade. Nunca passei tanto tempo nu na minha vida", diz, rindo.

Três dias ileso

Antes de participar do evento, Charlys disse que viveu um momento de apreensão. "Meu maior receio era o constrangimento de ter uma ereção. Mas consegui me conectar com a natureza e passar três dias ileso", diz.

Quem não é naturista, tende a conjecturar se aquele não seria o único ambiente recreativo onde a ereção é desencorajada. Mas como evitá-la, por exemplo, quando o namorado adolescente nu beija sua namorada nua? (para citar um exemplo em que a ereção está em alta).

"A gente orienta os casais, tanto homo quanto heterossexuais, para que não tenham contato físico com os parceiros. Você é homem, sabe que se ficar beijando e abraçando sua mulher, você pode vir a ficar excitado."

Arroubos masculinos

Os tópicos aos quais se dão mais importância são medidas de contenção de arroubos masculinos. No primeiro, fala-se muito em ereção e sexo nas áreas públicas, comportamento cujo responsável parece ser sempre o homem (transar sozinho também não é permitido).

O segundo tópico versa sobre "Agressão física", atitude que requer punição rigorosa, por vezes até a expulsão da pessoa. Leonardo Spínola diz que não é comum acontecer: "Em em geral, é por excesso de bebida. A gente tenta conter os ânimos, mas, se houver insistência nesse comportamento, convidamos a se retirar."

Discriminação declarada

O terceiro, "Utilizar meio fraudulento para obter vantagem", também remete a um comportamento alegadamente masculino. Spínola cita a tentativa de falsificar a carteirinha da federação, com o intuito de entrar sozinho na praia de Tambaba, na Paraíba, onde só é permitido o ingresso de homens acompanhados.

As mulheres podem entrar sozinhas. "Mulher não precisa de carteirinha para nada. Para elas, as porteiras estão sempre abertas."

Por conta dessa discriminação, conta Spínola, a entrada da praia de Tambaba é frequentada por garotas de programa que se oferecem para acompanhar o visitante avulso. Muito obsequiosas, elas deixam o turista na areia e voltam para buscar outro. "Não tem como controlar isso", diz ele.

Tópicos unissex

Ainda no terceiro tópico, há um item, digamos, unissex. Usar de métodos antiéticos ao concorrer a um cargo na federação.

Quarto e quinto tópicos, idem: "Portar ou usar drogas ilegais"; "Causar dano à imagem do Naturismo". Dedica-se menos tempo à explanação dos dois. Nada comparado à ereção em área pública.

Problema seu

Como já se passaram duas horas, tempo estipulado para a duração da live, a reportagem informa que tem um compromisso e se retira na apresentação do item 2, "Comportamento Inadequado", no qual se falou de "propostas inconvenientes com conotação sexual" (com ou sem ereção).

Em tom de reprimenda, o juiz Alexandre dá um recado: "Você não precisa se infiltrar no naturismo para conquistar um homem, uma mulher. Se você não tem competência para conseguir alguém, desculpe, o problema é seu."

E haja harmonia com a natureza.

Paulo Sampaio