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Paulo Sampaio


Escola cobra 12 mil por mês e não dá aula on-line na quarentena, dizem pais

Vista aérea da escola - Foto: Divulgação
Vista aérea da escola Imagem: Foto: Divulgação
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

12/07/2020 04h00

Um grupo indignado de pais de alunos da escola americana Avenues São Paulo, que cobra cerca de R$ 12 mil de mensalidade, se queixa de que seus filhos não tiveram nem um dia de aula on-line durante a quarentena determinada pela pandemia de covid-19. "Foi a única escola desse nível que não ofereceu ensino à distância. Mandavam fazer pesquisas sobre temas genéricos, mas não havia acompanhamento em caso de dificuldade nem controle das atividades", diz a mãe de um garoto de 9 anos.

Nenhum dos entrevistados quis se identificar, inclusive os que estão satisfeitos com a escola, alegando que não gostariam de expor o filho, ou a própria vida pessoal.

A mais cara de SP

Instalada em uma construção de 40 mil metros quadrados na zona sul de São Paulo, a Avenues SP é um braço da matriz novaiorquina e chegou ao Brasil vendendo a ideia de uma "educação global transformadora, voltada para o futuro e focada no protagonismo do aluno".

Na ocasião em que foi inaugurada, em 2018, logo ficou conhecida como "a escola mais cara de São Paulo". Muitos foram atraídos por isso: "Tem pai que enxerga na Avenues a possibilidade de incrementar o networking (contatos profissionais lucrativos)", diz um dos insatisfeitos, que acaba de tirar de lá o filho de 13 anos.

2 + 2 = 4

Ele faz parte do grupo que se queixa de que a Avenues não promove nada que compense o período de 7hs em que os alunos passavam na escola — de 8h às 15h. "Simplesmente não há aula. Mandam os alunos pesquisarem, por exemplo, sobre a covid-19, o que eu até acho bom, mas isso dura no máximo uns 30 minutos; o resto do dia é livre. A direção diz que tem um 'projeto arrojado', que ali ninguém vai ter aulas nos moldes convencionais, mas 2 + 2 continuam sendo 4. Minha filha não evoluiu absolutamente nada em matemática. Eu ficava horrorizado quando ela me pedia ajuda", diz o pai de uma adolescente de 14 anos.

Ele decidiu levá-la de volta para a escola em que ela estudava antes. Diz que, para alcançar a antiga turma, a menina precisou tomar aulas particulares das "matérias convencionais": "Minha filha mais velha, que tinha ficado na outra escola e passou no vestibular para direito da GV [Fundação Getúlio Vargas] aos 16 anos, disse que a mais nova, se continuasse naquele ritmo, não teria condição de entrar em nenhuma faculdade. Eles (Avenues) sequer seguem o currículo estabelecido pelo MEC (Ministério da Educação). Eu me sinto lesado não só pelo atraso dela nas matérias básicas, mas também pelo que eu investi financeiramente."

No discount

A Avenues foi uma das primeiras escolas particulares de São Paulo a entrar em quarentena, no início de março, sob a alegação de que um aluno havia contraído o novo coronavírus. No início de abril, um grupo de pais — que os descontentes afirmam agregar mais de 150 — assinou um e-mail solicitando à direção um abatimento nas mensalidades. A mensagem de resposta informava que "a Avenues não planeja oferecer descontos ou reembolsos para este ano letivo. Sei que isso pode ser frustrante, portanto gostaria de explicar as razões para essa decisão". (* Leia a mensagem na íntegra, ao no final da reportagem).

Um dos pais inconformados afirma que "mesmo estando em um período de experiência em um país estrangeiro, eles são extremamente arrogantes". "Em vez de conversar amigavelmente, nos orientam a procurar outra escola para matricular o filho."

Caridade, não

A mãe que encaminhou à coluna a resposta da escola aos pais é uma das mais indignadas. Ela tem um filho de 8 anos na Avenues: "Eles afirmam que parte do gasto que não tiveram no período da quarentena está sendo convertido em alimentos e produtos de higiene e doado para a comunidade vizinha à escola. Pedi para abrirem as contas, mas imagine, nem ouviram. Agora, responde: quem os autorizou a fazer caridade com o dinheiro dos outros?"

"Eles argumentam que tiveram despesa com o zoom [serviço de conferência remota]", ironiza o pai de um adolescente de 15 anos. "Deve ter custado uma nota." Ele diz que o filho "desenvolveu muito a parte social". "Ele adorava ir para escola, porque só se falava em festas, em viajar para a Boa Vista, pra a Baronesa (megacondomínios frequentado por famílias ricas no interior de SP), desenvolveu muito a noção de status e não precisava se esforçar para fazer a lição, que era basicamente socializar. Não queria de jeito nenhum sair da escola, claro."

Emoção no Fasano

Pergunta-se por que, afinal, alguns pais mantiveram seus filhos na escola por mais de um ano, se estavam tão decepcionados. A mãe de um garoto de 10 anos explica: "A gente acaba pagando para ver. Se você vai a uma reunião de pais, fica encantado, quer acreditar nas intenções da escola, são tão maravilhosas. Só que, na prática, nada daquilo acontece."

Na semana passada, finalmente, ela tirou o filho da Avenues. Segundo diz, ficou a impressão de que foi enganada desde o início. "No jantar que a Avenues ofereceu no Fasano para apresentar a escola era tudo tão perfeito que eu chorei!"

Pais satisfeitos

Por sua vez, os pais satisfeitos afirmam que boa parte dos descontentes matriculou os filhos na Avenues "sem saber nada sobre a proposta de ensino da escola".

"Não é um lugar para quem procura o ensino convencional. Meu filho teve um desenvolvimento muito grande com pesquisas, aprendeu a buscar soluções para problemas, mas sempre acompanhado pelos professores. Na quarentena, ele passava horas em video calls", afirma a mãe de um adolescente de 14 anos.

Ela elogia a escola justamente por incentivar a proatividade do filho. "Eles ficam em círculo na sala de aula, e não tem essa diferenciação entre professor e aluno."

Desde que visitou a matriz americana, essa mãe diz que teve uma boa impressão da escola. "O clima na Avenues de Nova York é tão legal. As crianças chegam sujinhas, o que é normal. Aqui chega a criança, a babá, o motorista...Nada a ver com o conceito da escola."

Pela informação que ela teve, "não é verdade que a Avenues se recusou a conversar sobre abatimentos na mensalidade". "Eles negociaram one to one (um a um) e deram, sim, descontos a quem realmente estava com dificuldades. Eu concordo que não dêem a quem não enfrenta problemas financeiros."

Síndrome de vira-lata

Outra mãe contente, de uma menina de 12 anos, diz que colocou a filha na escola para tirá-la da zona de conforto. "Não tem sentido, nos dias de hoje, continuar submetendo o aluno a aulas convencionais, previsíveis, com provas e notas. Prefiro que minha filha tenha uma experiência humanística, motivadora, que a faça pensar de acordo com o tempo em que a gente vive. Acredito que isso vai dar a ela maturidade para decidir se prestar o vestibular é algo importante. E se prestar e não passar, entender que aquilo não é o fim do mundo."

Para ela, alguns pais erraram na escolha da escola. "A expectativa deles não condiz com o que a escola tem a oferecer. E eles não procuraram se informar. Você sabe como é a elite do Brasil. Eles pensam: 'Se é americano e custa caro, vale a pena'."

Nesse ponto, os pais satisfeitos e os insatisfeitos concordam. Usam o mesmo argumento, só que em direções opostas: "Os que mantêm o filho na escola sofrem de síndrome de vira-latas, acreditam no marketing do ensino revolucionário e tem a fantasia de que o filho, só por estudar ali, vai virar novaiorquino e levar a mesma vida que um nativo nos Estados Unidos", acha um dos queixosos.

Outro lado

Procurada, a escola respondeu à coluna que "cerca de 95% das famílias planejam continuar na Avenues no próximo ano letivo". "Quanto às famílias insatisfeitas, respeitamos a decisão delas de deixar a Avenues. Estamos oferecendo todo o apoio necessário para garantir transições tranquilas para outras escolas e desejamos muito sucesso na nova jornada".

Sobre a queixa a respeito da falta de aulas on-line, a escola diz: "Temos o compromisso de oferecer uma experiência de ensino exemplar em qualquer circunstância. Nos últimos meses, nossas equipes têm trabalhado incansavelmente para acompanhar de perto o desenvolvimento dos alunos e solicitar feedback das famílias, que em sua maioria tem sido positivo."

Às críticas de conteúdo, considerado "fraquíssimo" pelos descontentes, a escola argumenta: "Um dos diferenciais da educação Avenues é nosso currículo inovador, concebido por uma equipe interna de pesquisa e desenvolvimento localizada em Nova Iorque. O currículo Avenues é baseado em projetos e aposta no protagonismo dos alunos para oferecer uma educação transformadora, respeitando as diretrizes de educação locais válidas em cada um dos nossos câmpus, seja em São Paulo, Shenzhen ou Nova Iorque."

* Mensagem aos pais

Caras famílias da Avenues São Paulo,

Espero que você e sua família estejam bem. Recebemos algumas questões da nossa comunidade sobre o impacto financeiro da pandemia do coronavírus sobre a Avenues. Gostaria de compartilhar nosso posicionamento para que todas as famílias saibam desta importante informação.

A Avenues não planeja oferecer descontos ou reembolsos para este ano letivo. Sei que isso pode ser frustrante, portanto gostaria de explicar as razões para essa decisão. Antes disso, saiba que se você estiver enfrentando dificuldades financeiras que impossibilitem o pagamento da anuidade devido às condições econômicas atuais, estamos à sua disposição para conversar sobre opções de auxílio financeiro. Envie um e-mail para spfa@avenues.org.

A Avenues não tem intenção de obter vantagens financeiras com o fechamento do câmpus, e não temos ciência de qualquer benefício nesse sentido. Com base nas informações atuais e no que estamos fazendo, antecipamos um ganho financeiro nulo para o ano letivo de 2020-21.

Nossa maior despesa é com pessoas e, como já informamos, todos os professores e colaboradores continuam empregados, incluindo as equipes responsáveis por alimentação, manutenção e limpeza, motoristas e enfermeiras. Nossos professores e muitos de nossos colaboradores estão tendo jornadas de trabalho extensas. Nossos jardineiros continuam cuidando do terreno e os seguranças permanecem no câmpus.

Além disso, não teremos receitas de grande parte dos programas do After School e de nenhum programa do Global Journeys, já que todos foram cancelados, mas continuamos comprometidos com a manutenção do emprego dos colaboradores e professores responsáveis por esses programas.

Embora possamos estar usando um pouco menos de água ou energia no câmpus e os custos com alimentação tenham diminuído, essas economias mínimas são compensadas pelos custos adicionais incorridos para oferecer um programa de ensino a distância da mais alta qualidade. Isso inclui o upgrade das contas do Zoom de professores e colaboradores para oferecer uma experiência interativa ainda melhor para nossos alunos, dentro de um ambiente ainda mais seguro. Adicionamos e ampliamos outros recursos e ferramentas educacionais digitais para oferecer uma variedade ainda maior e atender às necessidades individuais dos alunos.

Por fim, sermos bons cidadãos e compartilharmos nossa prosperidade faz parte da nossa missão. A comunidade Avenues São Paulo está ajudando os mais necessitados durante este período difícil. Vocês devem saber que estamos entregando alimentos e produtos de higiene às mais de 700 famílias que vivem na comunidade do Jardim Panorama, assim como a alguns alunos e colaboradores. Acreditamos que isso é o correto a ser feito.

Sei que algumas escolas em São Paulo planejam algum tipo de reembolso referente a uma parte do ano escolar. Para tal, entendemos que elas usarão seus fundos de doações ou parte do valor considerável pago pelas famílias ao ingressar na escola. Nós não organizamos campanhas de fundos, não esperamos que alunos paguem para participar de equipes esportivas, não exigimos compras de equipamentos tecnológicos nem recursos extra para excursões ou eventos especiais. No entanto, oferecemos assistência financeira em caso de necessidade comprovada. Esperamos um aumento nessas solicitações para que seja possível receber de volta todas as famílias Avenues e permitir que seus filhos continuem tendo acesso à melhor educação no Brasil.

Provavelmente, uma das principais razões pelas quais você escolheu a Avenues é o fato de sermos concebidos para oferecer uma educação inovadora e de qualidade, com um valor extraordinário. Todas as nossas experiências de aprendizagem, incluindo o ensino a distância, são pensadas para transformar nossos alunos. Sabemos que nosso programa é o melhor disponível e temos a sorte de dispor de recursos globais, tecnologia de ponta e uma cultura de inovação para manter um ensino exemplar, seja presencialmente, a distância ou no exterior. Sei que alguns alunos estão enfrentando mais dificuldades para se adaptar ao ensino a distância. Estamos entrando em contato com essas famílias para auxiliá-las. Também oferecemos suporte nos nossos eventos Ask the ADH e Tuesday Talks que estão voltando em formato virtual esta semana.

Lamento que este semestre tenha sido interrompido pelo coronavírus. Entendemos os desafios gerados pela situação atual e somos gratos pela flexibilidade de todos neste momento. Assim como todos os nossos alunos e famílias, nosso desejo agora é retornar ao câmpus assim que possível.

Muito obrigado por sua compreensão e seu apoio.

Abraços,

Andy Williams
Head of School
Avenues São Paulo

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