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A nutrição está desatualizada, diz carnívora que come bife no café da manhã

Ontem, no café da manhã - Foto: Arquivo Pessoal
Ontem, no café da manhã Imagem: Foto: Arquivo Pessoal
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

27/09/2020 14h01

Desde 2018, quando passou a divulgar nas redes sociais uma dieta que deu certo para ela, a advogada e estudante de nutrição Jade Soller calcula ter comido uma tonelada de carne. Em média, 1 kg por dia. "Se vou a um festival ou churrascaria, passa disso", afirma.

O café da manhã de Jade é bife. Lucas, seu namorado, e Wilfred, o cachorro, seguem a mesma rotina alimentar. "Todos aqui em casa são carnívoros", conta.

Sem precedentes

O ineditismo da dieta é indiscutível, já que não se pode compará-la a nenhuma das que se conhecem à base de proteínas. As mais famosas, a "Atkins" e a "South Beach", admitem folhas e legumes, e, eventualmente, abrem exceção para uma quantidade pequena de pão integral. Jade Soller come exclusivamente carne. "Tenho intolerância a ovo e leite, e as fibras me dão gases."

A prosaica informação parece contrastar com a incrível volúpia com que Jade devora ininterruptamente respeitáveis nacos e lascas de carne. Ela convidou a reportagem para assistir pessoalmente a sua performance em uma churrascaria rodízio. "Está preparado para passar a tarde na mesa?", perguntou, divertida. Respondi afirmativamente, com um sorriso amarelo.

Ingestão ininterrupta de nacos e lascas no rodízio de carnes - Paulo Sampaio/UOL - Paulo Sampaio/UOL
Ingestão ininterrupta de nacos e lascas no rodízio de carnes
Imagem: Paulo Sampaio/UOL

Salve, Denílson!

O carpaccio da entrada desaparece em minutos. Na sequência, com a mesma educada sofreguidão, ela aceita os mais variados cortes que Denílson, o garçom, coloca em seu prato. Panceta pururuca, Denver steak, fraldinha, picanha, costela premium, costela de cordeiro chilena, ancho, picanha nobre...

Naquela quarta-feira, com certeza, ela ingeriu bem mais de 1kg.

Sobremesa, chorizo naturalmente adocicado - Paulo Sampaio/UOL - Paulo Sampaio/UOL
Sobremesa, chorizo naturalmente adocicado
Imagem: Paulo Sampaio/UOL

Natal de 2016

Ao contrário do que se pode imaginar, Jade não está acima do peso. Nunca esteve. Aos 33 anos, ela se mantém nos 52 kg, em 1,60m de altura. Seguida por mais de 50 mil pessoas no Instagram, ela exibiu na rede exames que comprovam que suas taxas de colesterol e triglicérides permanecem normais.

De constituição magra, Jade explica que sua briga nunca foi contra a balança, e sim contra um inimigo há até pouco tempo desconhecido. Segundo conta, nenhum médico conseguiu decifrar uma aguda e persistente dor abdominal que começou no Natal de 2016 e foi até o fim de 2017. "Fiquei incapacitada por um ano, dormia com bolsa de água quente na barriga todos os dias. Às vezes, a dor vinha no metrô, eu sentava no chão e chorava."

Doutora de si

Para tentar aplacar a dor, ela consultou "inúmeros especialistas". Clínico geral, endocrinologista, nefrologista, ortopedista. "Um me jogava para o outro. O último me encaminhou para um psiquiatra, dizendo que a dor poderia estar ligada a algum distúrbio emocional. Eu disse: 'Psiquiatra? Vocês foram longe demais.' E comecei a pesquisar por conta própria."

Na ocasião, passou a fazer restrições na alimentação, ora de proteína, ora de carboidrato, frutas e legumes, e então constatou que só ficava bem quando comia apenas carne. "Foi aí que descobri que havia pessoas que já seguiam a dieta carnívora."

Um quilo de picanha - Foto: Jade Soller - Foto: Jade Soller
Um quilo de picanha
Imagem: Foto: Jade Soller

Remédio genérico

Diz ela que, a partir de então, se livrou de incontáveis sintomas e doenças que a acometiam misteriosamente. Entre eles, infecções urinárias, candidíases de repetição, rinites, alergias de pele, sangramentos na gengiva, aftas, dores de cabeça excruciantes e uma irredutível acne conglobata, que produzia pústulas e caroços duros em seu rosto.

"Eu tentei ser saudável. Não consumia fritura nem açúcar, comia pouca gordura, não tomava refrigerante nem bebida alcoólica, mas ficava cada vez mais doente", afirma.

Conflito de interesses

A recomposição orgânica de Jade Soller teve reflexos em toda a sua vida.

Depois de dez anos dando expediente em escritórios de direito trabalhista, ela deixou a carreira porque considerou que havia um "conflito de interesses". "Eu advogava para a indústria de alimentos e a farmacêutica, e, ao mesmo tempo, passei a publicar na minha página os malefícios que os alimentos processados podem trazer para a saúde e o quanto os fabricantes de medicamentos lucram com isso."

Bife de soja!?

Apesar da firme decisão de mudar a área de atuação profissional, Jade afirma que a faculdade de nutrição não é algo que ela reconheça.

"As escolas de nutrição estão desatualizadas, atrasadas. Logo no primeiro semestre, os professores do meu curso já condenavam a carne. Falavam dela como a vilã que aumenta a taxa de colesterol e o risco de doenças cardíacas", diz. "Em uma aula de culinária, a professora avisou que a gente faria bife. Eu cheguei lá, era bife de soja. Por que não a carne?"

Dando carne a Wilfred: "Os cachorros alimentados com ração estão desconectados de sua realidade. Por natureza, eles são carnívoros oportunistas" - Foto: Arquivo Pessoal - Foto: Arquivo Pessoal
Dando carne a Wilfred: "Os cachorros alimentados com ração estão desconectados de sua realidade. Por natureza, eles são carnívoros oportunistas"
Imagem: Foto: Arquivo Pessoal

Só pelo diploma

Única aluna assumidamente carnívora na sala de aula, Jade afirma que só frequenta a faculdade porque precisa do diploma.

"Aquilo não serve para mim. Sou obrigada a estudar dois conteúdos, o da faculdade, e o que me interessa. É trabalhoso", lamenta. Enquanto não finaliza o curso, ela oferece "mentoria on-line", a valores que vão de R$ 200 a R$ 500.

Erro médico

Fortalecida por suas recentes certezas, Jade Soller tampouco poupa as escolas de medicina. "Os estudantes são vítimas de um ensino deficiente e ultrapassado. Na faculdade, pouco se fala sobre nutrição. Formam-se ali profissionais que aprendem a medicar e a sugerir tratamentos, mas não abordam a dieta como sendo a base dos problemas."

Fundadora do "Movimento Carnivorismo Brasil", Jade anuncia na página sua intenção de "conscientizar a respeito da importância dos alimentos de origem animal, sanando mitos relacionados à proteína, gordura animal e saúde, garantindo informações baseadas na boa ciência". Ela escreveu também dois livros, "Dieta Carnívora" e "Receitas Carnívoras", que venderam 3 mil exemplares.

Saciedade sem culpa

Na euforia de suas descobertas, Jade faz afirmações inquietantes. Diz, por exemplo, que os animais abatidos em frigoríficos iam morrer de todo jeito. "Se estivessem na natureza, eles também morreriam. Pelo menos, eu os estou consumindo."

Alego que nós, seres humanos, também vamos morrer um dia, e nem por isso achamos razoável que nos matem. Jade: "Mas nós somos animais que comem animais. Vamos fazer o quê?"

Em outro momento, ela lança mão de uma extravagante comparação entre o homem e os animais. "A dieta sem carne é uma invenção humana. Desde os nossos primórdios, pode observar, sempre fomos grandes comedores de carne. Então, o que a gente faz quando mistura alimentos em um prato é atentar contra a nossa natureza. É só pegar um animal, por exemplo, o leão. Você vai ver que ele não está confuso sobre o que comer. Sabe muito bem que não é grama."

Até estrogonofe

Jade admite que, para abrir mão até de um mero estrogonofe, precisou evocar uma disciplina imperturbável. Ela reconhece que é sistemática por natureza, e por vezes parece partir do princípio generalizante de que todo ser humano estaria disposto a adotar uma rotina sem grandes surpresas gastronômicas.

"A dieta da carne é prática. A gente não tem de estar comendo o tempo todo, preparando comida o tempo todo, cortando vegetais, indo a feira, fazendo o arroz, o feijão, a salada. Você coloca alguns bifes em uma churrasqueira elétrica, ou na fritadeira, e pronto, sobra tempo para fazer muitas outras coisas na vida."

Adeus, meu doce

Ocorre que há pessoas que adoram perder tempo na cozinha. Jade diz que não é seu caso, mas concorda. E aproveita para citar seu livro de receitas. "Escrevi em parceria com um médico que ama inventar novidades. Tem torta feita de farinha de frango, pão de queijo carnívoro, salgadinhos, tudo o que você puder imaginar."

Em um momento particularmente dilacerante de seu discurso, Jade garante que "a vontade de comer doce desaparece". "Depois de um tempo de dieta, passa a ser irrelevante, você não lembra, não tem vontade."

Outro lado

A coluna ouviu um médico e uma nutricionista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, a respeito das teorias de Jade.

O endocrinologista Marcio Mancini afirma que "o ser humano não é carnívoro (como o leão), e sim 'onívoro' (come de tudo)". "O homem primitivo era caçador e coletor de frutas, raízes, até larvas. Se for para imitá-lo, a gente vai começar a comer inseto."

Mancini lembra que a dieta recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) tem 50% de carboidrato, 30% de gordura, e o resto de proteína. "O problema da dieta dessa pessoa (Jade) é que só ela faz. Não existe um estudo que comprove sua eficácia."

Régua universal

A nutricionista Clarissa Fujiwara alerta para a o perigo de generalizar as preferências: "Quando se fala em 'melhor dieta', é importante perguntar 'para quem?'. Não existe uma régua universal que valha para todas as pessoas."

Segundo Clarissa, "é preciso observar o impacto dessa dieta, por exemplo, em crianças e gestantes". "Como isso vai afetar o desenvolvimento delas? E os indivíduos com doença renal crônica, que necessitam de uma alimentação hipoproteica, como reagirão?"

A respeito das considerações de Jade sobre a desatualização dos cursos de nutrição, Clarissa lembra que "o conhecimento é dinâmico". "Os estudos e pesquisas não cessam, e são objeto permanente de importantes publicações acadêmicas."

Em tempo

O extremismo de Jade Soller não se restringe à dieta de carnes. Recentemente, ela efetuou outra guinada radical em seu comportamento. "Não uso mais xampu nem sabonete no banho. Só água."

Ela explica que preserva inclusive as partes íntimas. "O produto químico impede a produção de sebo naquela área, e provoca ressecamento", diz.

O máximo a que Jade se permite é passar banha natural nos cabelos, para hidratá-los.

Mas isso já é assunto para outro capítulo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL