Aumento de R$ 0,20 na passagem obriga paulistanos de baixa renda a pular refeições

Gil Alessi

Do UOL, em São Paulo

  • Gil Alessi/UOL

    O gari Célio Ferreira, 35, que deixa de se alimentar e comprar água para pagar a nova tarifa dos transportes

    O gari Célio Ferreira, 35, que deixa de se alimentar e comprar água para pagar a nova tarifa dos transportes

O reajuste de R$ 0,20 no preço da tarifa dos transportes públicos na cidade de São Paulo pode parecer pequeno para alguns, mas obrigou paulistanos de baixa renda a deixar de fazer refeições e a arranjar "bicos" para conseguir pagar o novo valor das passagens.

O trabalhador que recebe um salário mínimo do Estado de São Paulo (um pouco mais alto do que o nacional: R$ 678) --R$ 755-- e utiliza um ônibus e um metrô para ir e um ônibus e um metrô para retornar do trabalho terá gasto, ao final do mês, R$ 200, mais de 26% do total de sua renda.

"Além de trabalhar como cuidadora 26 dias por mês, ainda chego em casa e preciso fazer bordados e crochê em panos de prato para complementar a renda", afirmou Humbertina Lima da Silva, 47, nesta quarta-feira (12), na praça da Sé, região central da capital, onde ontem ocorreu um enfrentamento entre a polícia e manifestantes que pediam a redução das tarifas.

Humbertina, que ganha pouco menos de mil reais por mês e mora em Mogi das Cruzes (a 57 km da capital), estima em R$ 50 o valor adicional gasto com transportes após o aumento da passagem. "Por isso os protestos pela redução são importantes", diz.

El País: Brasil se levanta em protesto contra aumento nos preços do transporte

Os preços dos transportes públicos no Brasil são muito altos em relação ao salário mínimo dos trabalhadores.

(...) No entanto, a classe média, pouco acostumada no país a manifestações de protesto nas ruas, está aplaudindo as autoridades, que pediram mão dura à polícia contra as mobilizações, que estão paralisando o tráfego em cidades já normalmente supercongestionadas. As manifestações criam um alarme especial. Nem sequer diante dos grandes escândalos de corrupção política as pessoas saíram tanto às ruas. Uma vez mais, também aqui, se torna realidade a famosa frase atribuída a Bill Clinton: "é a economia, estúpido!"

A estudante e auxiliar administrativa Caldineya Oliveira Santos, 23, afirma que deixou de se alimentar entre o almoço e a hora em que chega em casa da faculdade. "Almoço no trabalho, por volta do meio-dia, e depois só como lá pelas 23h. Meu salário de R$ 900 não permite que eu pague R$ 3,20 no transporte e me alimente direito", diz.

Para o gari Célio Ferreira, 35, o novo preço prejudica muito quem tem um orçamento limitado. "Deixo de comprar alimentos ou às vezes até mesmo uma garrafa de água", afirmou. Segundo ele, que recebe R$ 800 por mês, o preço justo para o transporte público seria "no máximo R$ 1,50".

Após o reajuste na passagem, Célio disse que passou a gastar R$ 26 a mais por mês, levando em conta os deslocamentos no final de semana. 

A assessoria de imprensa da empresa Inova Gestão de Serviços Urbanos, na qual Célio trabalha, informou que o ele recebe vale-transporte, "no valor superior aos 6% do salário, previsto por lei", e que o benefício "atende à demanda de transporte que ele usa mensalmente para ir e voltar da Inova".

O office-boy Rodrigo Oliveira, 19, reclama que continua recebendo o vale transporte no valor de R$ 3. "Os outros R$ 0,20 eu tiro do meu bolso. Vira e mexe deixo de comer um lanche na rua, porque para quem ganha R$ 700 por mês, como eu, o aumento pesa no orçamento."

Os novos gastos foram calculados pelos próprios personagens da reportagem.

Presos no protesto

Ao menos 20 pessoas foram presas durante o protesto de ontem na avenida Paulista e na rua da Consolação. Até a manhã desta quarta-feira (12), 13 manifestantes continuavam presos acusados de crime de dano, lesão corporal, desacato à autoridade e formação de quadrilha, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado.

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