Cresce número de quem se diz 'preto' e 'pardo'; grupo chega a 53% no país

Paula Bianchi e Taís Vilela

Do UOL, no Rio

  • Fabio Teixeira/UOL

    A atriz Jana Guinond, 43, conta que passou por um longo processo de aceitação até começar a responder preto à pesquisa. "Me tornei negra, foi um processo", diz

    A atriz Jana Guinond, 43, conta que passou por um longo processo de aceitação até começar a responder preto à pesquisa. "Me tornei negra, foi um processo", diz

Em dez anos, a população autodeclarada preta no país cresceu 2,1 pontos percentuais, passando de 5,9% do total de brasileiros em 2004 para 8% em 2013, segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios) 2013. O material foi divulgado na quinta-feira (18) e corrigido no dia seguinte após reconhecimento de erro do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os dados divulgados originalmente apontavam crescimento de 2,2 pontos percentuais.

Além dos pretos, cresceu também o número de pessoas autodeclaradas pardas. Juntos, os conceitos de pardo e preto formam a população negra do país, que passou de 48,1% em 2004 para 53% em 2013.

O uso do termo "preto" costuma ser criticado nas redes sociais como supostamente preconceituoso, mas é a terminologia oficial da pesquisa do IBGE. O grupo mais genérico de "negros" reúne as cores específicas, "preta" e "parda", explica o IBGE.

Maria Lúcia Vieira, gerente da pesquisa, vê a mudança na forma como os brasileiros enxergam o ser preto no Brasil como uma das principais hipóteses para o crescimento do número de pessoas que se autodeclaram pretas no país.

"Isso tem muita relação com as políticas de autoafirmação. As pessoas podem ter uma consciência maior da sua cor. Também há a possibilidade da questão das cotas [estudantis] influenciar essa decisão", afirma.

Para se ter uma ideia, a diferença entre os autodeclarados pretos em 2004 e em 2013 é de 5,2 milhões de pessoas. Isso equivale a cerca de duas vezes a população de Salvador

A atriz Jana Guinond, 43, conta que passou por um longo processo de aceitação até começar a responder preto à pesquisa. "Me tornei negra, foi um processo", diz.

"Eu sempre usava variações do termo mulata. Hoje, pelo amor de Deus, não me chamem de mulata! Isso era fruto de o que eu aprendia como sendo o negro na escola e nas ruas. E o que eu aprendia é que ser negro era muito ruim."

A pesquisadora aponta ainda a miscigenação da população como outra hipótese que pode explicar o crescimento da população parda no país. O crescimento da população preta foi mais acentuado nas regiões Norte e Nordeste do país, chegando a um aumento de 3,3 e 3,2 pontos percentuais, respectivamento –de 4,1% em 2004 para 7,4% 2013 e de 6,4% para 9,6%.

Ao mesmo tempo, a região Sudeste foi a que mais perdeu "brancos". Nos últimos dez anos, o percentual da população autodeclarada branca, que era de 61,2% em 2004, caiu 6,9 pontos percentuais, chegando a 54,3% em 2013, enquanto o número de pardos subiu 5,3 pontos percentuais (representando 36,4% da população) e o de pretos, 1,6 pontos percentuais (8,6%).

No Sul, o movimento se repetiu, porém de forma menos acentuada. A população autodeclarada branca diminuiu 6,4 pontos percentuais, passando de 82,8% do total em 2004 para 76,4% em 2013. Ao mesmo tempo, a população parda teve um aumento de 5,6 pontos percentuais, chegando a 18,9%.

O Centro-Oeste teve a menor variação. Em dez anos a população autodeclarada preta cresceu 1,9 ponto percentual e a parda 2,7 pontos percentuais.

Por ser uma pesquisa por amostra, as variáveis divulgadas pela Pnad estão dentro de um intervalo numérico, que é o chamado "erro amostral". Segundo o IBGE, não há uma margem de erro específica para toda a amostra. Para a Pnad 2013, foram ouvidas 362.555 pessoas em 148.697 domicílios pelo país.

Entenda a classificação de pretos e negros dada pelo IBGE

Para formar a classificação de negros, é comum que seja somada a população preta à população parda para a formação de um grupo.

Portanto, usar o termo preto não é equivalente a usar a categoria negro, que pode incluir os pardos. No primeiro censo realizado no Brasil, em 1872, a classificação aparecia em "quatro opções de resposta: branco, preto, pardo e caboclo".

A partir do censo de 1991, com a inclusão da categoria indígena, que a classificação passa a ser de "cor ou raça" e define cinco categorias: branco, pardo, preto, amarelo e indígena.

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