Chuvas

Cinco anos após tragédia, chuva, lembranças e medo no Morro do Bumba, no RJ

Gustavo Maia

Do UOL, no Rio de Janeiro

Chovia havia algumas horas na manhã de terça-feira (7). Ao observar o céu nublado da varanda de casa, no Morro do Bumba, em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, a dona de casa Laís Jussara Barreto, 35, comentou: "estava assim mesmo no dia que caiu tudo".

Laís se referia aos acontecimentos de 7 de abril de 2010, exatamente cinco anos antes, quando a comunidade viveu o que ela descreveu como cenas de "filme de terror". No aniversário da tragédia, a dona de casa e sua família reviveram o temor que reaparece sempre que chove, desde que um deslizamento no morro matou 48 pessoas e deixou milhares de desabrigados.

Assim como a família de Laís, cerca de outras 30 continuam a morar no Bumba, apesar de a Prefeitura de Niterói ter interditado todas as casas do local, por conta do risco de novos deslizamentos. Os moradores remanescentes ouvidos pela reportagem do UOL são unânimes ao explicar por que, apesar do medo de uma repetição do desastre, decidiram permanecer no local.

"Com os R$ 400 [do aluguel social] que eles dão para gente, não tem como pagar um aluguel. Os preços cresceram muito desde que aconteceu aquela desgraça", sintetiza a dona de casa. Atualmente, o valor é pago pela Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos a 2.300 famílias. "Estamos esperando uma atitude deles para resolver o que eles vão fazer por todos nós", afirma Laís.

A maioria dos moradores afetados pelo deslizamento de cinco anos atrás ainda espera as moradias prometidas na época pelas autoridades. Até o momento, 240 famílias ganharam apartamentos em conjuntos habitacionais.

Enquanto isso, o marido, Venícius Silva, que é porteiro, conta que fica muito apreensivo quando está chovendo. "Fico ligando toda hora do trabalho para a minha mulher", diz. A filha mais velha de Laís, Larissa, 18, vive com o marido e a filha de quatro anos em outra casa, mais próxima do ponto onde houve o maior deslizamento de 2010, no alto do morro. O imóvel pertence à sogra dela, que foi morar em outro lugar.

"Quando chove, a gente vem dormir aqui na casa da minha mãe", conta Larissa, que só conseguiu pegar no sono depois das 4h na madrugada de terça. "Quando a gente é pego de surpresa pela chuva, em casa, não dá pra dormir e tem que ficar atento para sair correndo de casa", diz Laís, que mora com os outros dois filhos, de 13 e sete anos.

A reportagem do UOL solicitou, na segunda-feira (6) pela manhã, uma entrevista com o prefeito de Niterói ou com o secretário municipal de Defesa Civil, mas teve o pedido ignorado durante dois dias pela assessoria de imprensa da prefeitura, que enviou apenas uma nota: "Infelizmente, há famílias que insistem em permanecer no local, contrariando as orientações da Defesa Civil".

Segundo o texto, diversos órgãos municipais atuam na demolição de casas nas áreas de risco e fornecem apoio social para o reassentamento das famílias.

Sem alternativa ao risco

Losângela Carvalho, 53, não morava na comunidade em 2010 e só soube do deslizamento no Morro do Bumba pela televisão. Enquanto assistia às imagens dos resgates de dezenas de corpos no meio da lama, ela não tinha como imaginar que, anos depois, também seria afetada pela tragédia.

Taís Vilela/UOL
A dona de casa Losângela Carvalho, 53, vive em uma casa interditada no Morro do Bumba

Três anos atrás, conta a dona de casa, o ex-marido estava prestes a perder o emprego. "Como a gente morava de aluguel em São Gonçalo [município vizinho], ele ficou com medo de não ter como pagar e a gente ficar na rua", disse Losângela, que não pode trabalhar por ter que cuidar de uma filha de 31 anos portadora de esquizofrenia.

"Um amigo dele que tinha essa casa ia sair daqui e estava vendendo por R$ 3.000. Surgiu essa oportunidade e ele comprou. A gente só descobriu que estava interditada quando já estávamos morando aqui", relata. Avisada pela prefeitura sobre os riscos do desabamento da encosta situada atrás de sua casa e da necessidade de sair do único bem, ela diz não saber o que vai fazer. "Não tenho medo. Entrego na mão de Deus", afirma. Por ter chegado depois à comunidade, ela não recebe aluguel social.

A poucos metros de onde hoje fica o grande vale criado pelo deslizamento, o mecânico Nilton Santos, 40, mora com o pai, que é cadeirante, a mulher e três filhos. Nascido e criado no Bumba, na época da tragédia ele morava em Cabo Frio, município da Região dos Lagos. "Assim que eu soube, vim buscar meu pai aqui no Bumba e levei ele para lá", contou.

Decidiram voltar há cerca de três anos, por falta de condições de continuar pagando aluguel. "As pessoas estão retornando para cá porque não têm para onde ir, por falta de opção".

O presidente da Associação de Vítimas do Bumba, Francisco de Souza, resume as reclamações dos moradores: "Desde 2010, os aluguéis em Niterói aumentaram 50%, e o valor do aluguel social não foi reajustado. Com R$ 400, a pessoa só pode morar no morro. Aí a pessoa sai de uma área de risco para outra. Ficam entregues a nossa própria sorte".

Sirenes inaudíveis

Instalado pela Prefeitura de Niterói em 25 comunidades com áreas de risco de deslizamentos de terra, no ano passado, o sistema de alerta de sirenes da Defesa Civil não é ouvido por parte dos moradores do Bumba. "Lá de baixo eu até já ouvi, mas daqui de cima, nunca", conta Laís. 

Outra reclamação é que a sirene seria "aleatória", podendo ser disparada tanto em dias de chuvas quanto em dias de sol.

De acordo com a Defesa Civil, as sirenes são testadas nas comunidades todo dia 10 de cada mês, às 10h, exceto em dias em que ocorram chuvas, para evitar confusão. Diariamente, as sirenes também são testadas pela Defesa Civil sem emissão de som. "No último dia 7 de março, a sirene foi acionada na comunidade do Bumba e a evacuação ocorreu sem problemas e não houve reclamações", afirmou a prefeitura, também em nota.

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