Diego Herculano/AFP

Violência no Rio

Cartão-postal do Rio, Lagoa tem onda de assaltos e adolescentes com facas

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

Nas últimas semanas, adolescentes armados com facas vêm protagonizando uma onda de assaltos a ciclistas e pedestres na pista de lazer que circunda a Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos principais cartões-postais do Rio de Janeiro. A rotina de violência chamou ainda mais a atenção depois que um jovem de 14 anos, atleta de remo do Flamengo, foi esfaqueado e teve sua bicicleta roubada. O caso ocorreu no último sábado (25). Há registros de pelo menos outros dois casos na semana anterior.

Há quatro dias, segundo a Polícia Militar, o patrulhamento foi reforçado com rondas diárias de carros da PM, policiais a pé, veículos elétricos, motos e policiais militares em bicicletas. Desde domingo (26), cinco suspeitos foram apreendidos pela polícia na Lagoa e em bairros vizinhos. Dois deles portavam facas e, levados à delegacia, foram reconhecidos posteriormente pelo atleta de remo do Flamengo.

Na terça-feira (28), a reportagem do UOL esteve no bairro da zona sul carioca e constatou que o clima de insegurança na Lagoa está alterando a rotina de quem frequenta o local. É o caso da arquiteta Gisele Carvalho, 55, que passou a alugar bicicletas em vez de utilizar o próprio veículo. "A minha bicicleta eu deixo na garagem de casa, pois não dá para confiar. É uma sensação muito grande de intranquilidade", afirmou ela.

"Eu chego aqui, pago R$ 10 para alugar uma bicicleta e faço meu exercício todos os dias. Prefiro gastar esse dinheiro do que pedalar com medo. (...) Tenho procurado não trazer o celular nem outros pertences", disse a arquiteta. "Trago só uma pequena quantia em dinheiro e os documentos. É o mínimo que a gente faz para se sentir um pouco mais segura."

O comerciante Ricardo Motta, que trabalha diariamente na Lagoa alugando triciclos no Parque dos Patins, afirmou que os assaltos sempre ocorreram na região, mas que há "altos e baixos". "Tem momentos em que os assaltos acontecem quase que diariamente, como agora, pelo que a gente ouve dos clientes. Mas há violência aqui como em todo lugar na cidade. Acredito até que, lá fora, acontece mais do que aqui. Mas, por ser a Lagoa, um lugar nobre, a gente sempre espera que a segurança aqui seja maior", declarou ele.

A aposentada Nilza Moreno, 68, que diz frequentar a Lagoa há mais de 40 anos, afirmou já ter sofrido uma tentativa de assalto quando realizava uma caminhada matinal. "Como eu estava sem carteira e sem celular, ele [o criminoso] tentou levar os óculos que eu estava usando. A vontade que tive foi de empurrá-los e jogá-los na Lagoa. Como eu esbocei reagir, ele se assustou e acabou correndo", relatou.

A idosa contou ainda que sua filha desistiu de pedalar pela Lagoa depois de ter sido roubada duas vezes. "Ela ficou traumatizada com essa situação. Foram duas bicicletas que ela perdeu", afirmou. Amigo de Nilza, o engenheiro Joaquim Duarte, dono de uma oficina de bicicletas, disse que as reclamações de clientes são constantes. "Toda semana, pelo menos um cliente reclama de ter sofrido uma tentativa de assalto. Muitas vezes, o ladrão danifica a bicicleta, mas não consegue roubá-la", contou.

Moradora da Lagoa, a pedagoga Mariana Borioni, 53, afirmou que os trechos mais perigosos estão situados nos arredores do Corte do Cantagalo. "Eles roubam e atravessam a pista. É uma área que tem muitas rotas de fuga", explicou ela, que disse frequentar o Parque dos Patins todos os dias, sempre pela manhã. "Aqui eu conheço todo mundo, até mesmo o pessoal que dorme na rua. A gente sabe quem é quem. Paz, você nunca vai ter", afirmou. "Eu fico com medo do que vem pela frente."

Mensagens de alerta

Na semana passada, moradores da Lagoa afixaram mensagens ao longo da ciclovia, nos arredores do Parque dos Patins, para alertar sobre o risco de roubos e outros atos de violência na região: "O horário é por volta das 6h e 7h. Dois indivíduos abordam o ciclista, um deles portando ao menos uma faca, e levam a bicicleta, celular e demais pertences."

Os cartazes citavam o assalto sofrido pelo francês Victor Didier, 19, morador da Gávea, que pedalava pelo local quando foi atacado por ladrões nas proximidades do Jardim de Alah, no dia 19 de abril. O pai da vítima, Christophe Didier, afirmou que Victor foi golpeado com uma faca com "lâmina de mais de 30 centímetros", que atingiu os dois pulmões do jovem.

Marcelo Piu/Agência O Globo
Mensagem colada em uma lixeira cita casos recentes de roubo a ciclistas na Lagoa

Patrulhamento

Na terça-feira (28), a reportagem do UOL percorreu os 7,5 km ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas e encontrou quatro carros da PM estacionados ao longo da pista de lazer e ciclovia, além de policiais em bicicletas e quadriciclos motorizados. O patrulhamento foi reforçado depois dos últimos casos de assalto na região, de acordo com a Polícia Militar. As rondas são feitas a partir das 6h.

"O policiamento é distribuído na área da unidade conforme o registro das ocorrências, por isso é importante que a vítima registre a ocorrência na delegacia, pois é por meio destes números que se pode planejar o policiamento e prestar um melhor serviço para a população", informou a PM, em nota. O UOL solicitou uma entrevista com o comandante do 23º BPM (Leblon), tenente-coronel Jorge Ferraz, porém não houve retorno.

Segundo os dados mais recentes do ISP (Instituto de Segurança Pública), entre janeiro e março deste ano, foram registrados 208 casos de roubo a transeunte na 14ª Delegacia de Polícia, responsável pelas ocorrências nos bairros do Leblon, de Ipanema e da Lagoa. No geral, são mais de 400 roubos e mais de 2.000 furtos registrados na 14ª DP em apenas três meses. O órgão ainda não disponibilizou os dados deste mês.

Em relação ao acumulado do mesmo trimestre no ano passado, houve uma queda absoluta de 58 casos de roubo a transeunte. Já o indicador de roubo a celular foi calculado, entre janeiro e março de 2015, em 54 ocorrências, uma a menos do que no mesmo período do ano passado.

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