É preciso ensinar a lei desde a 5ª série antes de reduzir maioridade penal

Djalma Oliveira Rios, o Kaskão

Em depoimento a Rodrigo Bertolotto, do UOL

Os políticos querem prender a molecada, certo? Então, pra isso tem que ensinar os princípios básicos do direito na escola desde a 5ª série. E tinha ainda que dar dez anos de prazo para entrar em vigor essa redução da maioridade penal, para dar tempo para os jovens aprenderem seus deveres e direitos.

Eu falo isso com conhecimento de causa, porque sou ex-interno de Febem e ex- detento, e hoje sou bacharel em direito. Aprendi na prática e depois na teoria como funcionam as leis.

Comecei no crime aos 15 anos, colocando chocolate ou bolacha  na cintura nos supermercados para comer no campinho antes do futebol. Depois, quando comecei trabalhar de office boy, eu ia na hora do almoço para pagar os serviços no banco.  Enquanto ficava na fila, percebi  que os guardas se revezavam para comer e só ficava um nessa hora. Meus amigos também se ligaram na mesma fita. 

Nosso point era o fliperama que ficava naquela época na esquina da avenida Paulista com a Brigadeiro Luis Antonio. A gente fazia os trampos e ficava lá matando hora durante a tarde, cozinhando o galo. Eu conhecia outros office boys que tinha a mesma visão. Ali, a gente discutia os planos.  A gente montou nosso bando de revolucionários. No Capão Redondo, já tinha uns assaltantes de banco, e eu fica só admirando: "Caramba, o bagulho é mil grau".

Naquele tempo, o infrator era visto como criança. Bastava que o responsável fosse e assinasse um termo na Febem, e o moleque era liberado. A primeira vez que fui detido, meu pai foi lá e eu saí em uma semana. Foi assalto à mão armada, estava em grupo, mas só eu fui preso. Vieram me buscar em casa porque eu comecei a andar de moto nova no bairro. Você mesmo se denuncia.

Das outras sete vezes que me pegaram quando eu era menor de idade, eu fugi. Era muito fácil fugir da Febem do Tatuapé, principalmente na hora do futebol ou de assistir TV. No campinho, a gente fazia um "cavalo doido" e dava pinote até o muro. No cinema, tinha uma janela que dava para dois moleques saírem ao mesmo tempo.

Na minha época, banco não tinha porta giratória, era tudo escancarado. A gente entrava no banco, dominava o guarda e roubava. Se a polícia aparecia, era só fazer um refém e ficar uma semana na Febem antes da próxima fuga.

No total, foram oito passagens pela Febem por roubo a banco. Quando fiz 18 anos, já era monitorado. Foi só praticar o primeiro B.O. e fiquei oito anos preso. Depois de solto, eu trampei de motoboy até minhas músicas emplacarem. 

O sistema carcerário me ressocializou? Não. O sistema não se importa com isso. A reinserção na sociedade é pessoal. Se não fosse meu dom para música, eu não me recuperaria. Tanto é que eu pude fazer duas faculdades: direito e teologia.

Hoje em dia, a molecada acha bonito pagar de bandido. Eu tinha vergonha. Quando apareci no programa do Gil Gomes sendo preso e isso virou escândalo na escola em que estudava. 
Tem um monte de político cheio de processo nas costas que quer prender a molecada. Por que será? Será que a lei nova vai alcançar os filhos de políticos? Duvido.

Tem leis mais importantes para aprovar. No lugar de colocar propaganda eleitoral gratuita deviam ensinar as leis no horário obrigatório de TV. Eles gastam milhões para se candidatar, usam a TV de graça e não divulgam os direitos e deveres do cidadão.

Nesse país descambado, o moleque da favela vai e fica três anos preso. Já o filho do rico atropela, mata e é solto, ainda louco de balinha. Sai pilotando o Camaro dele de dentro da delegacia quando fala de quem é filho.

Se a Justiça funcionasse, em Brasília iam ficar só as cadeiras. Mas os políticos são ligeiros: eles adoram colocar a culpa nos outros. Dessa vez, é a molecada de 16 a 18 anos que eles querem culpar. 

Aguardem: não demora eles criam uma lei para matar quem ganha abaixo de dois salários mínimos. Ou seja, nós do gueto. 

 
Kaskão, 43, é o líder do Trilha Sonora do Gueto, grupo de rap que existe desde 1999.

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