"Eu perdoei, mas ele tem que pagar na Justiça", diz pai de garota assassinada

Rayder Bragon

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

  • Arquivo pessoal

    Isabella Perdigão Martins Ferreira, estudante de economia da PUC-MG que morreu assassinada a facadas

    Isabella Perdigão Martins Ferreira, estudante de economia da PUC-MG que morreu assassinada a facadas

"Eu sou capaz de olhar nos olhos dele e dizer: 'Eu te perdoo'. Mas ele tem que pagar pelo que fez."

A declaração foi feita pelo psicólogo Paulo César Martins Ferreira, 59, depois da perda da filha de 21 anos, assassinada a facadas, em Belo Horizonte. Isabella Perdigão Martins Ferreira cursava o sexto período de economia na PUC-MG (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais). O acusado do crime é Ezequiel Miranda da Silva, 41, morador de um prédio vizinho ao da família da jovem. 

O crime ocorreu no dia 29 de abril, no bairro Coração Eucarístico, região noroeste da capital mineira. Silva foi preso em flagrante pela Polícia Militar, após ter atacado a jovem e o pai na garagem do edifício onde moravam. 

"O perdão não livra a pessoa da responsabilidade dos atos que cometeu. Isso é bíblico. Os atos têm que ser pagos. Mas o perdão existe para que a pessoa tenha consciência de que, do ponto de vista do amor, do ponto de vista espiritual, ela foi perdoada por nós", disse.

Em entrevista ao UOL, Ferreira e sua mulher, a dona de casa Maria Angélica Perdigão Martins da Silva, 53, relataram os momentos de terror pelos quais todos os integrantes da família passaram e como estão tentando reestruturar a vida. Atualmente a família está abrigada em outro local por medida de segurança. 

O pai de Isabella busca força e explicação na religião. "Não importa o que aconteça, a gente tem a certeza de que Deus é poderoso e nada acontece sem que Ele queira. A morte é um detalhe. O que dói não é a morte, o que dói é a saudade. Ele matou uma árvore, mas a semente dessa árvore caiu na terra e frutificou. Sabemos que a Isabella está bem e em um lugar bom e que vamos nos encontrar com ela algum dia."

"Agradecemos a Deus, tivemos uma moça maravilhosa. Pudemos vê-la crescer, estudar e trabalhar. Ela nos deu muita alegria", complementou a mãe.

Apesar da dor de perder uma filha, os dois externaram um sentimento de perdão em relação ao agressor.

"No meio dessa catástrofe, dessa coisa horrível e brutal, surgiu uma semente de paz. Eu peço a Deus pela família desse homem, que Ele tenha misericórdia dele e dos familiares. Eu não gostaria de estar no lugar da família dele", afirmou Maria Angélica.

O que dói não é a morte, o que dói é a saudade

Paulo César Martins Ferreira, pai de jovem assassinada

O psicólogo disse o que faz com que siga em frente: "Eu morri com ela, mas tive que renascer porque eu tenho mulher e mais dois filhos e um mundo que está olhando para nós, que precisa de uma palavra de fé e esperança".

Rayder Bragon/UOL
A dona de casa Maria Angélica Perdigão Martins da Silva, 53, e o psicólogo Paulo César Martins Ferreira, 59
Momentos de terror

O crime aconteceu pela manhã, quando Isabella, que estava sentada do lado do passageiro no carro da família, recebeu ao menos três facadas no peito desferidas por Ezequiel Miranda da Silva. Ela aguardava o pai descer com chaves esquecidas no apartamento. Conforme relato dos pais, ele entrou na garagem do prédio aproveitando-se da abertura parcial do portão que dava acesso à rua.

"Eu escutei muitos gritos. Desci correndo as escadas e, quando chego à garagem, eu vejo a cena de minha mulher com as mãos levantadas e a minha filha já fora do carro com uma faca cravada no peito', diz Ferreira.

O homem afirmou ter entrado em luta corporal com o acusado, que também o esfaqueou. "Levei quatro facadas. Mesmo sem força para carregar minha filha, eu a arrastei para a calçada, na rua, e pedi ajuda. Um taxista me auxiliou. Eu vi que estava jorrando sangue do peito dela. Tentei tapar com os dedos, mas o sangue não parava", disse.

Segundo o pai, a filha chegou morta a uma unidade de pronto-atendimento. "Os médicos me disseram que ela morreu por hemorragia."

Enquanto Ferreira tentava salvar a filha, a mãe de Isabella disse ter voltado correndo para o apartamento em busca de socorro. Ela contou ter sido seguida pelo criminoso. O filho mais novo do casal, de 6 anos, que é autista, estava no banco de trás do carro e presenciou tudo, mas não se feriu.

"Minha outra filha, de 25 anos, tinha começado a descer as escadas e perguntava o que estava acontecendo. Nesse momento, ele parou de esfaquear o Paulo e começou a ir na nossa direção. Corri, fechei a porta de vidro da garagem e falei para ela que tínhamos que nos esconder no apartamento", contou Maria Angélica.

Em seguida, conta ela, o suspeito arrebentou a porta e seguiu para o imóvel. Após arrombar também a porta do apartamento, começou a procurar pelas duas mulheres.

"Eu me escondi no banheiro, e minha filha, que não estava entendendo direito o que ocorria, escondeu-se no outro banheiro. Quando ele entrou, ouvi a respiração forte dele, como se fosse um animal", disse a dona de casa.

Maria Angélica contou que ela e a filha tentavam acionar a polícia pelo telefone sem fio e pelo celular.

"Ele começou a quebrar tudo o que via pela frente. Ele tentava quebrar principalmente aparelhos eletrônicos, como se quisesse interromper qualquer possibilidade de a gente se comunicar com alguém", descreveu.

Em seguida, a dona de casa disse que ele conseguiu destruir a porta do recinto onde ela tinha se refugiado.

"Ele pegou a faca para socar na minha cabeça. Nesse momento, eu gritei: 'Senhor te repreenda. Sangue de Jesus tem poder'. Ele parou e deixou a faca cair no chão. Eu disse que ele já tinha acabado com a minha família, com a nossa história. Ele apenas respondeu que estava cansado de ser humilhado pelas pessoas." 

A mulher contou ter visto o suspeito tentando atear fogo a um sofá e, nesse momento, saiu em disparada do apartamento. O suspeito somente parou com o vandalismo após a chegada de policiais, acompanhados da cunhada dela, que é militar e fora acionada por ela. Ele não conseguiu chegar aonde estava a filha mais velha do casal.

"Quando a polícia entrou, ele simplesmente levantou as mãos e disse: 'Eu me rendo'", afirmou. Eles disseram estar com medo do suspeito caso ele venha a ser solto. 

A assessoria da Polícia Civil de Minas Gerais informou que o inquérito sobre o caso foi encerrado, sendo que o acusado foi denunciado pelos crimes de homicídio qualificado por motivo fútil, com recurso que dificultou a defesa da vítima, homicídio tentado, além de incêndio e dano.

Ainda de acordo com o setor, o delegado responsável pelo caso disse que o acusado se reservou o direito de somente falar em juízo. A reportagem do UOL não conseguiu localizar advogados que o representassem. Ele ainda está preso em Belo Horizonte.

Paixão platônica? Crime premeditado?

Depois de ser preso, Silva foi descrito pelos policiais como portador de transtorno mental e que supostamente teria desenvolvido uma paixão platônica pela estudante. No entanto, o casal disse não acreditar nessa versão.

"Esse foi o comentário que a gente ouviu, que ele desejava a Isabella, mas não sabemos na realidade se isso é verdadeiro. Por outro lado, não acreditamos que ele tenha problemas mentais. Ele premeditou esse crime", disse Ferreira.

Conforme o casal, a família passou a perceber que o acusado os vigiava desde o ano passado. 

"Desde setembro de 2016, a gente percebeu que ele vigiava o nosso apartamento da janela do apartamento dele. A gente passou a fechar as cortinas. Teve um dia em que olhei pela fresta da cortina e o flagrei olhando fixamente para a nossa janela. E já o vi fazendo gestos obscenos para nós", disse Ferreira.

Já sua mulher informou ter notado o homem os observando atentamente nesse período, mas ele não dizia nada. Eles afirmaram ainda que a filha não havia relatado nenhum contato ou assédio que porventura pudesse ter sido feito pelo acusado. "A presença dele nos incomodava, ele nos constrangia e dava medo", revelou ela.

Por outro lado, os dois afirmaram ter recebido centenas de mensagens de apoio, por meio de redes sociais, de várias partes do Brasil e do exterior.

"Eu acho que é por causa da tranquilidade que a gente está passando. E essa tranquilidade está mexendo com as pessoas. É um povo tão sofrido que, nessas horas, começa a perder as esperanças, começa a questionar Deus, questionar a Justiça", diz Ferreira.

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