Comerciante desaparece após abordagem policial, dizem moradores do Moinho

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução

    O comerciante Daniel Batista Lopes

    O comerciante Daniel Batista Lopes

Um comerciante de 35 anos está desaparecido desde a última terça-feira (11) depois de ter sofrido abordagem policial e ameaças de morte, segundo relato de moradores da favela do Moinho, na região central de São Paulo.

Daniel Batista Lopes é dono de um bar na favela. Duas testemunhas relataram à Polícia Civil que, por volta do meio-dia de terça-feira, cinco PMs integrantes da Força Tática (reservada a operações especiais) abordaram ele, um funcionário do bar e um amigo na entrada da favela quando voltavam com bebidas para abastecer o comércio. Um enteado de Lopes, de 6 anos, também estava com o grupo.

Segundo moradores ouvidos pelo UOL, os policiais insistiram em saber se os moradores do Moinho sabiam algo sobre o movimento do tráfico de drogas dentro da favela. Ao saber que Lopes já havia cumprido pena por homicídio, os PMs o teriam ameaçado de morte. A abordagem se estendeu por quatro horas, de acordo com relatos.

Após a abordagem, Lopes deixou o enteado em casa, junto de seus três filhos, foi até Osasco, na Grande São Paulo e voltou ao Moinho para trabalhar. Por volta das 19h30 deixou o bar para ir até sua casa, distante cerca de 300 metros, e não foi mais visto.

"Como uma pessoa some, assim, do nada? E justamente horas depois de ter sido ameaçado de morte?", questiona um familiar do comerciante, que pediu para não ser identificado com receio de sofrer represália.

A família afirmou que sua última visualização no aplicativo de mensagens WhatsApp foi às 19h57 de terça-feira. Desde então, as ligações para o telefone celular de Lopes vão diretamente para a caixa postal. "Eu até brigava com ele, porque ele não largava o celular nem para dirigir. Deixava no banco e em todo farol ficava mexendo. Eu falava: 'Qualquer hora, você vai bater o carro ou tomar multa pra aprender'", disse outro parente.

Luis Adorno/UOL
O bar de Lopes, com as portas fechadas desde seu desaparecimento

"Se não [tiverem arma], vão morrer"

A rua estava cheia na hora em que a Tucson preta de um pastor amigo do comerciante parou na frente da favela para desembarcar os produtos comprados para o bar. O carro estava com documentações em dia. "Apertaram os braços dos três e ameaçaram de morte", disse um morador ao UOL.

"Se tiver arma, pode trocar [tiro]. Se não, vão morrer igual seu amigo morreu", teria dito um dos policiais para Lopes, ainda de acordo com relatos. Segundo moradores, que devem ser ouvidos pela Polícia Civil e pela Corregedoria da PM, os policiais fizeram menção clara de matar moradores do Moinho após a morte de um jovem em suposta resistência no último mês. "A sorte de vocês é que a rua está cheia e está cheio de câmera. Mas a gente vai buscar vocês aí dentro, sem farda, à noite. E aí a gente vai ver quem é quem", teria ameaçado um dos PMs.

Quem testemunhou a cena relata que os PMs fotografaram os RGs dos três homens antes de liberá-los junto da criança.

Moradores investigam por conta própria

Desde o sumiço de Lopes, cerca de 10 moradores, incluindo amigos e familiares, passaram a investigar o desaparecimento em paralelo ao trabalho da Polícia Civil e da Corregedoria da PM.

Cartazes com a foto do comerciante, telefones, nome e data do desaparecimento estão sendo compartilhados entre os moradores, para serem divulgados.

"A gente não quer nem pensar no pior, né? Sabe que é difícil, que tudo está jogando contra, mas a gente ainda acredita. A esperança é a última que morre", diz ao UOL um dos homens abordados pelos policiais. Ele pede para não ser identificado e para a reportagem não ceder detalhes do que ele ouviu. A Corregedoria e a Polícia Civil já sabem quem ele é, e, por isso, sente-se um pouco mais seguro.

Um dos familiares de Lopes afirma que vai buscar o comerciante "até o fim". "Eu não vou desistir de achar. Ele tem que aparecer. E não sinto que ele morreu! Ele está vivo! Eu sei disso, dentro de mim!", afirmou.

Em frente ao bar de Lopes, com as portas fechadas, moradores fazem uma espécie de vigília. "Não tem um aqui que não gostava dele. Querido por todos. Inocente. Desaparecido. Estamos revoltados", diz um morador.

Outro lado

Procurada pelo UOL desde a manhã desta sexta-feira, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) de São Paulo se manifestou no início da noite, por meio de nota, e informou que o desaparecimento de Daniel Batista Lopes está sendo investigado. Leia abaixo a íntegra do texto da Secretaria:

"A Polícia Civil informa que o desaparecimento do comerciante Daniel Batista Lopes segue em investigação pela 4º Delegacia de Polícia de Investigação sobre Pessoas Desaparecidas. O irmão de Daniel informou à polícia que o irmão foi abordado por policiais militares na última terça-feira (11) e liberado no mesmo local da abordagem. Outro homem também foi averiguado no dia. Após liberação, o comerciante teria voltado ao seu bar, localizado na Favela do Moinho e, no mesmo dia, saiu a pé sem dar detalhes para onde iria. A família não obteve mais informações sobre seu paradeiro desde então. Pesquisas foram realizadas em bancos de dados da Polícia Civil e do IML".

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