Violência em São Paulo

"Quem fez isso é um monstro", diz pai de menina achada morta em terreno da zona leste de SP

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

  • Luís Adorno/UOL

    Terreno onde os corpos de duas meninas foram encontrados na zona leste de SP

    Terreno onde os corpos de duas meninas foram encontrados na zona leste de SP

"Ninguém viu ninguém pegando as meninas. Quem fez isso é um monstro e a gente quer saber quem é", desabafou o pai de Mel, o motorista Alan Oliveira Porto, à reportagem do UOL. Adriely Mel Porto, a Mel, e Beatriz Moreira dos Santos, a Bia, ambas de três anos, desapareceram na favela Jardim Lapenna, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, 18 dias atrás, enquanto brincavam em uma viela.

Os corpos de ambas foram encontrados por volta das 17h desta quinta-feira (12) dentro de um carro, um Fiat Fiorino branco, em um terreno, já em avançado estado de decomposição. Porto passou a madrugada no DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa), da Polícia Civil, que investiga o caso. "Os policiais me disseram que o dono do terreno em que foi encontrado o carro foi preso semana passada, e que a Fiorino é produto de roubo. São os únicos retornos que tive", afirmou, extremamente abalado.

Os pais de Mel e a mãe da Bia foram ao terreno assim que souberam que os corpos tinham sido localizados. "Desde que as duas [crianças] sumiram, eles estavam desesperados, angustiados, espalharam cartazes por todos os cantos procurando as meninas. Agora, toda a comunidade está triste e revoltada. Queremos Justiça", diz a diarista Maria do Carmo Ramos, 57.

Arquivo pessoal
Mel (esq.) e Bia (dir.) foram encontradas mortas em um terreno da zona leste de SP
O caso tinha sido registrado na noite de ontem no 63º DP (Distrito Policial), na Vila Jacuí, zona leste, pelos familiares de Mel. Ainda na noite de ontem, a investigação foi repassada ao DHPP. A delegacia do bairro e a especializada fazem investigações paralelas para tentar esclarecer o caso.

O terreno onde as meninas foram encontradas fica a cerca de 150 metros da casa da família de Bia. Segundo um líder comunitário, que pede para não ser identificado, a mãe de Bia também estava no DHPP. "Ela voltou para a comunidade na madrugada e há pouco [por volta das 10h] policiais civis buscaram ela e a levaram para lá de novo", disse.

De acordo com o pai, Mel, a caçula da família, de quatro irmãos, estava com a amiga, Bia, próximo de onde a menina vivia com a mãe naquela tarde de domingo, dia 24 de setembro. O pai de Bia foi preso em novembro de 2015, em flagrante, por tráfico de drogas. As duas famílias moram próximas, a cerca de 100 metros de distância.

"Esse caso está muito estranho. Se alguém de fora daqui tivesse entrado e saído, alguém teria reparado que tinha alguém diferente. A gente até torce para a polícia achar. E quem fez isso tem que torcer também. Porque se a gente achar, vai ficar ruim pra ele. Tá todo mundo com muita raiva", disse o líder.

"Cheiro forte"

A manicure baiana Joseane Alves dos Santos, 26, mora em uma casa de alvenaria localizada no meio da favela, há oito dias com seu filho, de 5 anos. Do dia em que se mudou até esta quinta, passou a sentir, cada vez mais forte, um odor vindo de um terreno que faz divisa com a parte de trás da sua casa.

Arquivo pessoal
12.out.2017 - PMs isolam área onde moradores encontraram corpos de meninas em SP

"O cheiro estava muito forte. Cada vez mais forte. Parecia que tinha um monte de rato morto num lugar só. Eu e outros vizinhos reclamamos para as lideranças da comunidade, porque eu já estava até pensando em sair daqui. Era insuportável", contou a manicure ao UOL.

Os líderes comunitários, então, tiraram um portão de ferro que guardava, dentro do terreno, pequeno, um Fiat Fiorino branco com os corpos de duas meninas.

Nesta quinta-feira, Dia das Crianças, as lideranças comunitárias haviam espalhado balões brancos e amarelos para receber as crianças que moram na favela. Anualmente, no espaço em frente ao terreno em que estava a Fiorino branca, brinquedos são distribuídos na data.

"Quando eu cheguei do trabalho, vi um monte de gente aglomerada em frente ao terreno e falei para o meu filho pegar o presente dele e sair, até por causa do cheiro", disse Joseane. No entanto, ao perceber a expressão de tensão nos rostos dos vizinhos, notou que havia algo de errado. "Foi aí que me falaram que tinham achado a Mel e a Bia", afirmou.

Hipóteses da polícia: vingança, loucura ou venda de crianças

A Polícia Civil montou uma força tarefa para tentar esclarecer o crime, com frentes no DHPP e no 63º DP. De acordo com o delegado Ronaldo Rocha, da delegacia da Vila Jacuí, as três frentes de investigação estão baseadas em uma vingança, em uma loucura de um criminoso ou na venda das meninas.

"Não iam sequestrar as crianças para querer resgate, porque é uma comunidade carente. Isso está descartado", afirmou Rocha ao UOL. "As investigações são preliminares, mas temos três hipóteses desenhadas e estamos apurando qual é a verdadeira", disse.

Rocha disse que foi quatro vezes até a favela, após a denúncia de que as duas meninas haviam desaparecido. "Ontem, quando registrei o caso, imediatamente liguei para a delegada do DHPP de desaparecidos. Conversamos e acordamos fazer uma investigação em paralelo: melhor duas, porque uma equipe pode conseguir o que outra pode ter dificuldade", disse.

Moradores protestam por justiça

Uma das hipóteses que não é descartada pelos policiais da Vila Jacuí é uma vingança ao pai de Bia, preso por tráfico. "No entanto, não faz muito sentido terem pegado a outra criança, que não tinha nada a ver com a história", contou. "Outra possibilidade é a de um louco, um demônio, ter pego essas crianças e cometido essa barbaridade", complementou.

A terceira vertente é de que as crianças podem ter sido vendidas. "Na comunidade, o que mais tem é criança correndo pelas ruas e vielas. As conversas que tive com um familiar de Mel foram esquisitas. Ele ficou muito nervoso e contradisse muita coisa do que foi dita por várias pessoas, da comunidade e da própria família", disse Rocha.

O delegado acredita que, partindo dessa hipótese, as crianças possam ter sido vendidas, por meio do tráfico de pessoas. "Como a gente [polícia] estava lá direto, a pessoa que pegou pode ter decidido matar as meninas, porque elas poderiam contar algo", disse.

Procurada, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) informou que um inquérito foi instaurado. "Os corpos, já em estado avançado de decomposição, foram encaminhados ao IML central para a identificação por meio de exame de DNA. O carro, uma Fiorino roubada, foi apreendido e periciado. A investigação segue em andamento", afirmou a pasta.

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