Pesquisadora da UFBA é ameaçada de morte após entrevista sobre gênero: "Sabemos onde te pegar"

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Divulgação/UFBA

    Entrada da Universidade Federal da Bahia, onde trabalha pesquisadora ameaçada

    Entrada da Universidade Federal da Bahia, onde trabalha pesquisadora ameaçada

Uma pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) passou a receber ameaças de morte em seu perfil no Facebook depois de dar uma entrevista sobre identidade de gênero há duas semanas. A procuradoria da instituição registrou um boletim de ocorrência e acionou a Polícia Federal para identificar os culpados pelos ataques virtuais.

Em apoio a ela, o reitor também publicou uma moção de repúdio na página oficial da faculdade, na qual ele chama de "iniciativas obscurantistas" que estão "repercutindo de forma drástica na liberdade de expressão, no livre exercício profissional e na autonomia universitária".

Segundo conta Maria Hilda Paraíso, diretora da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da UFBA, da qual a docente faz parte, eles enviavam a ela mensagens como "eu sei onde você mora, onde trabalha, sabemos onde te pegar". "Além de diversos xingamentos e palavras de baixo calão", disse ao UOL.

De acordo com Paraíso, as ofensas duraram toda a semana passada. "Então começou a circular entre os alunos que um grupo tentaria impedir que ela desse aula na faculdade na última segunda-feira [21]", conta a diretora. "Nós tivemos de acionar a segurança da universidade."

A instituição aumentou o número de seguranças no prédio e a fiscalização de quem passava. "Eles impediram a entrada de pessoas estranhas à universidade, que não fossem alunos, professores ou pesquisadores", conta Paraíso.

De acordo com a diretora, três pessoas foram barradas sob o pretexto de serem jornalistas que haviam combinado uma entrevista com a docente.

"Mas ficou aquele clima... Então decidimos fazer uma reunião ontem [dia 22] entre os membros da nossa faculdade para debater como se posicionar contra esta postura impositiva", afirma Paraíso. Segundo ela, mais uma vez, surgiram rumores de que um grupo de alunos e não alunos tentaria inviabilizar a assembleia. "Mas havia tanta gente e tanto segurança que não houve problemas."

A professora registrou um boletim de ocorrência contra as pessoas que a ameaçaram junto à procuradoria da universidade. A instituição acionou a PF no início desta semana para auxiliar na identificação dos suspeitos.

No dia 13 de novembro, o reitor da universidade, João Carlos Salles, lançou uma moção de repúdio "a tentativas de cerceamento a pesquisas do NEIM (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher)", grupo de pesquisa sobre mulheres de que a docente faz parte. 

"O clima de intolerância que se estabeleceu neste país vem repercutindo de forma drástica na liberdade de expressão, no livre exercício profissional e na autonomia universitária para tratar de temas relevantes concernentes a determinados segmentos sociais", diz a nota, que também cita as agressões sofridas pela filósofa Judith Butler na sua mais recente vinda ao Brasil e a episódios de "cancelamento de exposições e censura a peça de teatro".

"Nós nos posicionamos, portanto, contrários às investidas reacionárias que buscam calar o livre debate de ideias e silenciar todo um campo de estudos legitimamente construído e que é fundamental para que possamos ter uma sociedade menos violenta e desigual", conclui Salles.

Paulo Lopes/Futura Press/Estadão Conteúdo
Manifestantes contra e a favor da filósofa americana Judith Butler se reúnem em frente ao Sesc Pompeia

"Incomodamos bastante", diz diretora

De acordo com Paraíso, não é a primeira vez que manifestações de intolerância como essa ocorrem na universidade.

Ela conta que, há cerca de um mês, uma estudante quase foi impedida de apresentar sua dissertação de mestrado no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências (IHAC) por debater identidade de gênero. "Tiveram de chamar a segurança, não queriam que a banca examinadora entrasse na sala", conta a diretora.

Além disso, segundo ela, há uma série de docentes e pesquisadores que vêm sofrendo pressões não físicas, via redes sociais ou pessoalmente, por causa de seus temas.

"Há um movimento nacional de intolerância absoluta a um conjunto de assuntos que eles não consideram politicamente corretos", afirma Paraíso. "Eles querem nos impedir de discutir temas porque dizem que são contra a família, contra a religião, contra os costumes. Mas somos uma faculdade de filosofia, então incomodamos bastante."

"A autonomia de cátedra está ameaçada", diz a diretora. "Há uma tentativa de impor um discurso monolítico, e a nossa luta é para que se respeite a diversidade e a liberdade de expressão."

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