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Líder em mortes no país, Caucaia (CE) tem refugiados da guerra de facções

Segunda cidade mais populosa do Ceará, Caucaia teve o maior índice de mortes violentas do país em 2020 - Arte UOL
Segunda cidade mais populosa do Ceará, Caucaia teve o maior índice de mortes violentas do país em 2020 Imagem: Arte UOL

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

17/07/2021 04h00Atualizada em 17/07/2021 08h06

Desde o ano passado, Paulo (nome fictício) precisou deixar a casa própria que morava no bairro Itambé para alugar uma residência em outro bairro de Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza.

"Aqui a gente tem muitos bairros fantasmas. Deixei minha casa, avaliada em R$ 50 mil, para alugar uma outra em um bairro mais tranquilo. Na minha rua, todos saíram, expulsos por facção criminosa", conta Paulo.

Segunda cidade mais populosa do Ceará, com 365 mil habitantes, Caucaia teve o maior índice de mortes violentas do país em 2020 segundo o Anuário Brasileiro da Segurança Pública, e vive uma guerra de facções que deixou ruas fantasmas e levou dezenas de famílias a se refugiarem da disputa sangrenta do tráfico de drogas.

Ao todo, 360 pessoas foram assassinadas na cidade em 2020, uma taxa de 98,6 mortes violentas para cada 100 mil moradores (quatro vezes o índice nacional de 23,6 por 100 mil). Caucaia supera, também, a taxa de qualquer país do mundo —em 2018, ano com dados mais recentes, Honduras registrava taxa de 55 por 100 mil e era o mais violento.

municípios com mais mortes por 100 mil habitantes -  -

Paulo conta que quase todos os moradores da cidade tem histórias trágicas para contar. "Eu saí de lá também porque mataram meu cunhado, um trabalhador que saía de casa às 6h, que não tinha envolvimento com nada. Três meses depois, um primo de 19 anos morreu em uma festa, uma bala sobrou para ele. Não tinha também envolvimento com nada", diz.

Rua fantasma no bairro de Taboãozinho, em Caucaia   - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Rua fantasma no bairro de Taboãozinho, em Caucaia
Imagem: Arquivo pessoal

A expulsão de moradores de casa é confirmada pela Polícia Militar, que afirma estar atuando neste ano para devolver os "refugiados" a suas casas.

"Nós agora estamos fazendo ocupação onde está tendo ameaça. Desde fevereiro a gente nota que, com essas ocupações nos bairros, como de Parque Soledade e do Tabapuazinho, as famílias estão voltando. Quando se faz o policiamento comunitário, as famílias voltam", afirma o tenente-coronel Hideraldo Bellini, comandante do 12º Batalhão da PM.

Ele ressalta o tamanho do município. "Caucaia tem três vezes e meio o tamanho de Fortaleza; tem 40 km do litoral; 60 km de sertão; tem 40 km de serra. A cidade tem limite com seis municípios", diz.

O UOL solicitou entrevista com o delegado da cidade, mas a assessoria de imprensa da Polícia Civil não respondeu ao pedido.

Mapa de Caucaia - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Interesse na cidade fez facções crescerem

O interesse desses grupos por Caucaia tem explicação. A cidade é passagem da rota que vem Amazônia, que usa portos do Nordeste para exportar cocaína que entra ilegalmente pelo Amazonas.

"Caucaia é rota para o porto de Pecém. A cidade tem também um polo turístico grande, o comércio de drogas é disputado de forma muito acentuada. Quem controla a rota de venda controla também a rota do tráfico", explica Jamieson Simões, pesquisador de dinâmicas criminais do programa de pós-graduação em sociologia da UFC (Universidade Federal do Ceará). "A cidade é colada a Fortaleza. A luta é por controle desse território", afirma.

A disputa no ano passado era liderada por duas facções nascidas no estado: a GDE (Guardiões do Estado), nascida na vizinha Fortaleza; e o Comando da Laje, que é um braço do CV (Comando Vermelho) e que surgiu na própria Caucaia.

O nascimento dessa facção ocorreu entre 2019 e 2020. Segundo Jamieson Simões, ela atua no recrutamento de crianças, que passam a ajudar no tráfico antes mesmo de completar 12 anos.

"Aos 10, 11 anos, as crianças se tornam um tipo ideal a ser cooptado por criminosos porque passam incólumes por alguns territórios, conseguem estar nos lugares sem levantar suspeita. As facções buscam as crianças para ter informação, uma proteção, para serem avisadas de alguma ameaça", explica.

Só que essa guerra de facções, diz o pesquisador, acaba deixando de lado essas crianças quando viram adolescentes.

Quando chega aos 12 anos, o garoto já pode ser um matador. Não é um método novo: [as facções] pegam adolescentes para cometer os atos infracionais mais graves, e a pena de responsabilização é menor, de até três anos. Mas muitas vezes não chegam nem a isso porque os adolescentes também são facilmente eliminados. Ou seja, há uma mão de obra para homicídio, mas completamente descartável
Jamieson Simões, pesquisador da UFC

O assassinato de jovens até 19 anos é uma realidade na cidade. O UOL buscou a lista nominal de mortos em Caucaia em 2020, e contou ao menos 58 assassinados —muitos casos não têm a idade informada. Pelo menos oito mortes foram de jovens entre 13 a 15 anos.

Segundo Jamieson, a cidade também padece de problemas sociais que alimentam a criminalidade.

"Há um controle muito pequeno de atividade das guardas municipais, de policiais militares. Concomitantemente, há um braço da prefeitura e do estado muito curto, que não alcança as regiões mais pobres de Caucaia, que é uma área turística. Ainda há os territórios indígenas, que já contam com presença de facções também. As ações em prevenção, de assistência, o transporte público não funcionam bem. Tem esses problemas e um bolsão de pobreza ao lado de um bolsão de riqueza", afirma.

Cúpula da segurança pública do CE visitou Caucaia em junho  - SSPDS-CE/Divulgação - SSPDS-CE/Divulgação
Cúpula da segurança pública do CE visitou Caucaia em junho
Imagem: SSPDS-CE/Divulgação

Racha em 2021

Neste ano, a disputa de facções ganhou novo contorno. Em fevereiro, após a prisão do líder do CV Max Miliano Machado, conhecido como "Pio", houve cisão no grupo local, e a guerra se acentuou ainda mais.

"Ele foi preso em Belém do Pará com duas toneladas de cocaína, e o CV abriu uma dissidência. As pessoas que davam apoio no aqui no estado e que eram da Caucaia se dividiram o comando. Cada grupo já tinha toda a rotina um do outro, e eles estão se matando", afirma um policial do setor de inteligência, que pediu anonimato.

Nesse contexto, o Comando da Laje rachou com o Comando Vermelho.

Eles agora querem ser chamados de 'massa', para dizer que são neutros --mas que não tem nada de neutro
Policial do setor de inteligência

O policial afirma que o CV tinha uma base em Caucaia importante para a consolidação da rota de drogas que vêm da Amazônia. O grupo ruiu quando um dos líderes, Alban Darlan Batista Guerra, foi morto em um imóvel no bairro Gardênia Azul, na zona oeste do Rio de Janeiro, em julho de 2020.

Com isso, a liderança do Comando da Laje passou para Francisco Cilas de Moura Araújo, conhecido como "Mago", que está detido em um presídio de Itaitinga (CE).

"O GDE hoje está parado. Quem está se matando hoje é o CV e essa dissidência que era o comando e que hoje se diz neutra —coisa que o CV não aceita", afirma o policial.

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