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Palestra de mulheres negras sobre preconceito é alvo de ataques racistas

Palestrantes foram interrompidas e um vídeo de gorilas dançando foi exibido durante o evento - Arquivo pessoal
Palestrantes foram interrompidas e um vídeo de gorilas dançando foi exibido durante o evento Imagem: Arquivo pessoal

Sara Baptista

Do UOL, em São Paulo

04/12/2021 21h42Atualizada em 05/12/2021 09h06

Três mulheres negras que falavam em uma palestra virtual sobre preconceito racial foram alvo de ataques racistas. O evento foi invadido por perfis não identificados que compartilharam um vídeo de gorilas dançando.

"Por mais que a gente passe por essas coisas todos os dias, quando é uma coisa nova sempre choca", disse Letícia Pinho, estudante de jornalismo na Unesp e mediadora da mesa.

Além de Letícia, a historiadora e mestranda em mídia e tecnologia Laryssa Gomes e a professora doutora da Faculdade de Ciências da Unesp Andresa de Souza Ugaya eram as convidadas.

A palestra foi organizada pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), pela Secretaria Municipal de Bem-Estar Social de Bauru, pela Secretaria de Saúde de Bauru e pelo Conselho Municipal de Políticas Públicas para a Mulher. O evento fazia parte de uma semana dedicada a conscientização sobre a não violência contra a mulher.

O evento virtual começou às 14h no dia 26 de novembro. Logo nos primeiros minutos, quando cerca de 15 pessoas acompanhavam a transmissão, três perfis, que foram identificados pelas palestrantes como falsos, entraram na sala da videoconferência e um deles, com nome de "Maria Clara", começou a compartilhar a própria tela e mostrar um vídeo de três gorilas dançando.

"Para mim foi muito simbólico ser uma mesa com três mulheres e ser três gorilas dançando no vídeo", disse Letícia ao UOL.

A mediadora conta que na hora ficou sem reação. Andressa pediu para que a pessoa se retirasse, o que acabou acontecendo depois de alguns minutos.

Laryssa Gomes também disse que ficou sem saber o que fazer: "essas tensões raciais são muito dolorosas e nos desumanizam", disse. "Essa foi mais uma vez uma tentativa de silenciamento, estamos vivendo em um cenário em que temas progressistas estão sendo demonizados e atacados", completou.

Palestra de mulheres negras é alvo de ataques racistas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Palestra de mulheres negras é alvo de ataques racistas
Imagem: Arquivo pessoal

Após o incidente, o tema da palestra até se adaptou: "A gente tinha se organizado para falar sobre racismos cotidianos, mas na hora, a gente acabou até mudando o foco, porque ficou todo mundo meio chocado", afirma Letícia.

Mais de uma hora depois, já no final do evento, os mesmo perfis voltaram a entrar na sala e, novamente, o perfil Maria Clara compartilhou a tela. Desta vez, foi compartilhada uma imagem e o hino do Flamengo. Para as palestrantes, esta foi uma referência ao urubu, mascote do time, em outra ação racista.

"Não nos silenciamos, mesmo que para mim o trauma do racismo se expresse na linguagem como forma de me silenciar, eu consegui dar a palestra e problematizar o assunto", refletiu Laryssa."A gente sofre isso o tempo todo e nem sempre as pessoas dão atenção. Só quando você presencia é que você percebe quão grave é. Foi uma forma delas [as pessoas que estavam presentes] verem o que a gente passa", avaliou Letícia.

O evento era gratuito e aberto ao público e o link para a sala de reuniões virtual foi divulgado junto com o anúncio da palestra.

As palestrantes realizaram um boletim de ocorrência eletrônico, ao qual o UOL teve acesso, que foi encaminhado para a delegacia da área. Elas ainda não receberam nenhum retorno sobre o caso e Laryssa afirmou que vão procurar o Ministério Público para fazer uma nova denúncia.

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