Cuba

Fim da era Castro: cubanos querem economia melhor, mas não acreditam em mudança política

Do UOL, em São Paulo

Todos os cubanos estão atentos à transição que está em curso em Cuba. Nesta semana, pela primeira vez em seis décadas, um nome de fora da família Castro deverá assumir a presidência do país. 

No dia 19 de abril, depois de 48 anos de controle por parte de Fidel Castro (falecido em 2016), seu irmão Raúl, que iniciou uma tímida abertura econômica, deixará a presidência. Essa é uma transmissão de poder histórica que alimenta debates na ilha caribenha e fora dela, resultado de um período de oito anos de profundas mudanças no país.

Raúl Castro, 86, deixará o cargo que ocupa desde 2006 após decidir que políticos cubanos só podem ficar no governo por dois mandatos consecutivos de cinco anos. Seu irmão, Fidel, falecido em 25 de novembro de 2016, foi reeleito consecutivamente e ocupou a Presidência durante seis períodos.

O novo presidente deve ser Miguel Díaz-Cane, atual primeiro vice-presidente de Cuba. O político de 57 anos é engenheiro eletrônico e ficou conhecido no país após se tornar Ministro da Educação Superior em 2009. 

Economia melhor

Yamil Lage/AFP
Pescador Esmerido Morales, 45 anos, pesca na província de Matanzas, em Cuba

Esmerido Morales, 45, preocupa-se com a economia e com "o salário que não dá mais". Nos últimos anos, ele teve que abrir mão do emprego público em Matanzas (a 100km ao leste de Havana), porque seu salário era insuficiente para cobrir as despesas da família. Hoje ele vive da pesca.

"O problema é que (os dirigentes) falam muito de Cuba. (...) O que nós queremos é que eles façam, em vez de falar", disse ele.

Yamil Lage/AFP
Fernando Hernandez, 50, trabalha em uma plantação de tabaco em San Juan y Martinez, em Pinar del Rio, Cuba

Para Fernando Hernandez, filho de camponeses pobres para os quais Fidel distribuiu terras após a revolução de 1959, o novo governo "deveria intervir um pouco mais para melhorar a produção".

Ele cultiva há quase 40 anos seus campos de tabaco em Vuelta Abajo, na província de Pinal el Rio. "Desde a Revolução, o produtor de tabaco é um privilegiado", reconhece esse "guajiro" (como é chamado o camponês cubano) de 50 anos, que lamenta a insuficiência de recursos fornecidos pelo Estado.

Jorge Beltran/AFP
14.jul.2017 - Presidente de Cuba Raúl Castro (esquerda) conversa com o atual primeiro vice-presidente Miguel Díaz-Canel, seu provável sucessor

Novo presidente, mesmo partido

Hernandez está convencido de que o novo presidente será o número dois do regime, Miguel Díaz-Canel, "bem formado", comenta ele.

Nessa nova sucessão, o presidente de Cuba será escolhido pelos 31 membros do Conselho de Estado do país. No país, não existem candidatos públicos ao cargo, então qualquer um dos 605 deputados do Parlamento pode ser eleito para suceder Raúl Castro.

Embora Díaz-Canel seja do Partido Comunista Cubano, ele nasceu depois da Revolução e não faz parte dos chamados líderes "históricos". Ele também tem a reputação de ser progressista em relação a temas como liberdade de imprensa, direitos de homossexuais e acesso à internet.

Contudo, analistas esperam poucas mudanças, já que Raúl Castro deixará o cargo de presidente, mas seguirá na vida política como líder do Partido Comunista e, de forma não oficial, das Forças Armadas.

Fim da moeda dupla

Até 2030, os líderes cubanos prometeram a eliminação da dupla moeda (o CUC, que tem paridade com o dólar, e o CUP, com o qual os funcionários públicos são pagos) e a elaboração de um novo plano econômico e social.

Outra preocupação de Morales é com o sistema de eleição indireta do presidente. "É preciso dar uma chance aos jovens. Isso não pode ser assim: toma, é você o presidente! É preciso que o povo decida também", acrescenta.

Hoje, na ilha, os cubanos maiores de 16 anos votam nos candidatos de seu município para que integrem as assembleias provinciais e o Parlamento, em nominatas fechadas, ou seja, o número de candidatos é igual ao de cadeiras. Não se escolhe entre vários, mas aprovam ou não um candidato.

Yamil Lage/AFP
A dançarina cubana Lisset Suarez, 29 anos, entra na internet em seu celular nas ruas de Havana

Já Lisset Suarez, de 29 anos, espera que o novo governo leve as demandas do povo em consideração. Ela, que vive de sua formação em dança contemporânea em Ciego de Avila (centro do país), ressalta os problemas da cidade.

"Precisamos de melhoria nos transportes, de habitação e de alimentação, que é insuficiente e muito cara", diz a dançarina, que pode exercer seu talento no exterior.

Ela se prepara para uma turnê de sua companhia na China, o que só foi possível graças às aberturas feitas por Raúl Castro.

"Muitos, como eu, achavam que as coisas não funcionariam por causa da rigidez de Raúl Castro, mas (...) nesses últimos dez anos nós vimos progresso", destaca a jovem.

(Com agências internacionais)

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