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Imigrantes geram mais receita do que gasto para Europa, diz estudo

Em 2015, imigrante faz selfie com a chanceler Angela Merkel, da Alemanha - Fabrizio Bensch/Reuters
Em 2015, imigrante faz selfie com a chanceler Angela Merkel, da Alemanha Imagem: Fabrizio Bensch/Reuters

Filipe Domingues

Colaboração para o UOL, de Roma

21/06/2018 19h06

A sensação de que migrantes e refugiados prejudicam os países que os acolhem não corresponde à realidade – pelo menos não no campo econômico. Pelo contrário, a presença deles beneficiou economias europeias entre 1985 e 2015, diz um levantamento da Escola de Economia de Paris divulgado na última quarta-feira (20).

Segundo os autores do estudo Macroeconomic evidence suggests that asylum seekers are not a “burden” for Western European countries (Evidências macroeconômicas sugerem que solicitantes de asilo não são um ‘fardo’ para países da Europa Ocidental), a chegada de estrangeiros gerou mais receita do que gasto público.

“Não negamos que o amplo fluxo de requerentes de asilo na Europa represente muitos desafios políticos”, escrevem. “Mas acreditamos que os mecanismos destinados a eles devem depender mais de considerações políticas e diplomáticas do que de preocupações econômicas.”

Para quantificar os efeitos da onda de migrações na Europa, os pesquisadores analisaram crescimento econômico, emprego e gastos públicos de um conjunto formado por 15 países, durante 30 anos. A lista é composta por economias grandes, como as de Alemanha e França, e outras de menor porte, como Portugal e Islândia.

Os países foram analisados em grupo, e não individualmente, conforme indicadores disponíveis na agência Eurostat e na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

“Nossas estimativas indicam que esses choques [de imigrantes e refugiados] aumentam significativamente o PIB per capita, reduzem o desemprego, e melhoram o balanço das finanças públicas”, escrevem os economistas no artigo publicado na revista "Science Advances".

“As despesas públicas adicionais, que geralmente são relacionadas ao chamado ‘fardo dos refugiados’, são mais do que compensadas pelo aumento nas receitas com impostos”, observam os pesquisadores.

Africanos chegam à Itália em junho após serem resgatados de embarcações do mar Mediterrâneo - AFP PHOTO / Giovanni ISOLINO
Africanos chegam à Itália em junho após serem resgatados de embarcações do mar Mediterrâneo
Imagem: AFP PHOTO / Giovanni ISOLINO

Metodologia

“Usamos um modelo estatístico que é amplamente conhecido em macroeconomia para avaliar as consequências das políticas fiscais, especialmente o aumento das despesas públicas”, disse ao UOL o economista Hippolyte d’Albis, um dos autores do estudo.

“Nosso modelo sobre migrações replica o modelo estatístico de políticas fiscais.” Segundo os pesquisadores, essa associação é adequada porque a economia é afetada pela imigração e, ao mesmo tempo, uma importante referência quando as pessoas decidem migrar. Eles analisam, ainda, “como variáveis econômicas interagem com as variáveis migratórias”.

O ano de 2015 teve mais refugiados no mundo do que qualquer outro desde a Segunda Guerra Mundial, com 1 milhão de pedidos de asilo, segundo as Nações Unidas. Os países avaliados nessa pesquisa responderam, naquele ano, por 85% dos pedidos de asilo da Europa.

“Muita gente pensa que os migrantes, e em particular os que pedem asilo, custam muito para as finanças públicas da economia que os acolhe. Isso é uma ‘crença’ muito forte. Mas nós descobrimos que, ao longo dos últimos 30 anos, esse não é o caso”, disse o professor d’Albis.

“O objetivo da nossa pesquisa é somente sobre os efeitos econômicos das migrações. Há muitas outras questões relacionadas a migrantes e refugiados, e nós não negamos isso”, complementou, explicando que não se trata de uma previsão, mas de uma constatação sobre as últimas décadas. “Os migrantes custam um pouco, é verdade. Mas também induzem um aumento nas receitas públicas.”

O estudo não explora os motivos que levam as pessoas a migrar, mas exclusivamente as consequências nos países anfitriões. Enquanto o efeito econômico dos migrantes permanentes tende a ser positivo por ao menos 2 anos após um “choque” migratório, isto é, uma forte onda de chegada de migrantes, a entrada de requerentes de asilo demora um pouco mais (de 3 a 7 anos) para influenciar a economia.

De acordo com o professor, a diferença entre os migrantes permanentes e os requerentes de asilo está no fato de que os que buscam asilo são, a rigor, migrantes temporários. “Eles ficam legalmente nos países, têm o direito de ficar, mas durante o tempo que precisarem para uma demanda específica. No fim desse processo podem se tornar refugiados, o que permite a eles ficar no país de modo permanente”, afirmou.

O professor d’Albis defende uma maior clareza na análise dos dados econômicos quando se trata da questão migratória. “Podem existir pessoas que defendem a acolhida de migrantes, por motivos humanitários, e ainda assim creiam que isso seja um custo econômico, que nós tenhamos que estar prontos para pagar o preço, mas não é esse o caso.” Segundo ele, “há muitos motivos para que as pessoas não queiram migrantes no seu país, mas temos que mostrar os fatos”.

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