Na Guiné Equatorial, oposição pede para investigar milhões apreendidos no Brasil: 'não era para médico'

Bruno Aragaki

Do UOL, em São Paulo*

Partidos de oposição da Guiné Equatorial pedem investigação da origem e do destino dos 16 milhões de dólares (R$ 65 milhões) apreendidos, em espécie e joias, na semana passada no Aeroporto Internacional de Viracopos, em São Paulo. O montante estava em posse do filho do ditador do país, Teodoro Nguema Obiang Mangue, conhecido como "Teodorín". 

Após horas recusando ser inspecionado pela Polícia Federal e pela Receita Federal, Teodorín foi obrigado a abrir as malas e afirmou que os valores pagariam tratamentos de saúde no Brasil.

"É claro que não era para médico. A família vai à Clinica Mayo (uma das mais renomadas nos EUA)", disse ao UOL Mocache Massoko, testemunha em um processo que levou Teodorín, no ano passado, a perder o equivalente a R$ 500 milhões em propriedades que tinha em Paris.

O governo francês acusa o Teodorín, que além de filho do ditador Teodoro Obiang é vice-presidente da Guiné Equatorial, de corrupção, lavagem de dinheiro e apropriação indevida de bens.

Com um estilo de vida luxuoso, Teodorín recheia as redes sociais com fotos com modelos, carros importados e lugares luxuosos. Recentemente, limitou o acesso de sua conta no Instagram -- mas ainda tem 100 mil seguidores.

Eles se exibem nas redes sociais. Há imagens do pai com Lula, mas também do filho com Temer

Mocache  Massoko, opositor à ditadura na Guiné Equatorial

Reprodução
"Teodorín" Nguema Obiang Mangue, filho do ditador da Guiné Equatorial Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, junto ao presidente Michel Temer

Há cinco anos morando no exterior temendo perseguição política, Massoko mantém um jornal online hospedado na Espanha, Diario Rombe, para fiscalizar o governo do seu país natal. 

Seu pai é presidente da União da Centro Direita (UCD), partido de oposição que emitiu uma carta em conjunto com a Convergência para a Democracia Social (CDS), outra força contrária ao regime, pedindo investigação.

"A mídia aqui é controlada, nos inteiramos da apreensão pelas redes sociais", disse Avelino Mocache, presidente da UCD.

"Não sabemos para que era esse dinheiro. Não acredito que seja para o presidente atual [do Brasil, Michel Temer], porque se fosse, ele não teria tido problemas com a polícia", cogita Mocache.

Negócios com o Brasil

Com pouco menos de 1,3 milhão de habitantes, a Guiné Equatorial é um país pequenino que ocupa o 141º lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano. O Brasil é 79º.

O Brasil tem embaixada na Guiné desde 2005, quando a representação diplomática foi inaugurada pelo governo Lula. O Itamaraty estima que 400 brasileiros morem no país, onde diversas empresas brasileiras mantêm ou mantiveram operações.

A relação entre os dois países esfriou sob o mandato de Dilma Rousseff e ensaiou uma retomada recentemente, quando os chanceleres Aloysio Nunes, sob o governo Temer, e Simeón Oyono se encontraram em Brasília.

Alan Marques/Folhapress
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recebe o presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, no Palácio do Planalto, em Brasília (DF), em imagem de 14 de fevereiro de 2008

Petrobras e empreiteiras se aproveitaram da aproximação

Arte/UOL

A aproximação com o regime de Obiang Nguema rendeu frutos para empresas brasileiras. Em janeiro de 2006, a Petrobras anunciou participação na exploração de petróleo no país, em conjunto com empresas africanas e americanas.

A construção civil brasileira também cresceu na Guiné Equatorial. Quatro gigantes do setor entraram no país na década passada: ARG, OAS, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão.

As empresas não quiserem confirmar à reportagem se ainda atuam no país.

Fora do governo, Lula supostamente atuou na aproximação da Odebrecht com a ditadura africana, segundo reportagem da Folha de S.Paulo de 2015. Ao UOL, a empresa disse que fechou a sede em Mabalo em 2014.

Escândalo carnavalesco

Em 2015, a escola de carnaval carioca Beija-Flor sagrou-se campeã ao desfinar a Guiné Equatorial na Sapucaí.

Teodorín e sua comitiva assistiram ao desfile.

Uma reportagem do jornal O Globo apontou que a escola teria recebido R$ 10 milhões do país como forma de patrocínio, mas a Beija-Flor diz que o pagamento, na verdade, veio das construtoras brasileiras.

As ligações da Beija-Flor com a Guiné Equatorial teriam começado no Carnaval de 2013, quando Teodorín teria contratado uma apresentação particular da escola.

No mesmo ano, a escola fez uma apresentação em homenagem aos 45 anos da independência do país. Em 2014, a escola levou uma comitiva à Guiné Equatorial para buscar patrocínio, e Teodorín teria convencido o pai a destinar uma quantia à Beija-Flor para 2015.

Origem e destino do dinheiro encontrado em Viracopos

Reprodução
Pedido de investigação de dois partidos da Guiné Equatorial para averiguar o incidente envolvendo Teodorín Mangue e a justiça brasileira

A Polícia Federal continua investigando a origem e o possível destino do dinheiro.

O professor Victor Martins, professor de Relações Internacionais do Centro Universitário Assunção, especula que o vice-presidente, investigado por corrupção em cinco outros países tenha tentado adotar o Brasil como nova rota para enviar dinheiro ao exterior.

"É possível que a PF tenha recebido alguma dica, você não vai abrir a mala de um vice-presidente do nada", disse Carlos Eduardo Riberi Lobo, doutor em Relações Internacionais.

A Polícia Federal não comentou sobre o caso, ainda em investigação.

Por meio de nota divulgada na última segunda-feira (17), a embaixada de Guiné Equatorial no Brasil atribuiu o incidente a um "desacerto entre duas autoridades políticas e administrativas brasileiras, que só pode ser atribuído ao período de campanha eleitoral que se vive neste momento".

*Colaborou Lucas Borges Teixeira, em São Paulo

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

UOL Newsletter

Para começar e terminar o dia bem informado.

Quero Receber

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos