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Na Guiné Equatorial, oposição pede para investigar milhões apreendidos no Brasil: 'não era para médico'

Bruno Aragaki

Do UOL, em São Paulo*

20/09/2018 04h01

Partidos de oposição da Guiné Equatorial pedem investigação da origem e do destino dos 16 milhões de dólares (R$ 65 milhões) apreendidos, em espécie e joias, na semana passada no Aeroporto Internacional de Viracopos, em São Paulo. O montante estava em posse do filho do ditador do país, Teodoro Nguema Obiang Mangue, conhecido como "Teodorín". 

Após horas recusando ser inspecionado pela Polícia Federal e pela Receita Federal, Teodorín foi obrigado a abrir as malas e afirmou que os valores pagariam tratamentos de saúde no Brasil.

"É claro que não era para médico. A família vai à Clinica Mayo (uma das mais renomadas nos EUA)", disse ao UOL Mocache Massoko, testemunha em um processo que levou Teodorín, no ano passado, a perder o equivalente a R$ 500 milhões em propriedades que tinha em Paris.

O governo francês acusa o Teodorín, que além de filho do ditador Teodoro Obiang é vice-presidente da Guiné Equatorial, de corrupção, lavagem de dinheiro e apropriação indevida de bens.

Com um estilo de vida luxuoso, Teodorín recheia as redes sociais com fotos com modelos, carros importados e lugares luxuosos. Recentemente, limitou o acesso de sua conta no Instagram -- mas ainda tem 100 mil seguidores.

Eles se exibem nas redes sociais. Há imagens do pai com Lula, mas também do filho com Temer

Mocache  Massoko, opositor à ditadura na Guiné Equatorial

Reprodução
"Teodorín" Nguema Obiang Mangue, filho do ditador da Guiné Equatorial Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, junto ao presidente Michel Temer Imagem: Reprodução

Há cinco anos morando no exterior temendo perseguição política, Massoko mantém um jornal online hospedado na Espanha, Diario Rombe, para fiscalizar o governo do seu país natal. 

Seu pai é presidente da União da Centro Direita (UCD), partido de oposição que emitiu uma carta em conjunto com a Convergência para a Democracia Social (CDS), outra força contrária ao regime, pedindo investigação.

"A mídia aqui é controlada, nos inteiramos da apreensão pelas redes sociais", disse Avelino Mocache, presidente da UCD.

"Não sabemos para que era esse dinheiro. Não acredito que seja para o presidente atual [do Brasil, Michel Temer], porque se fosse, ele não teria tido problemas com a polícia", cogita Mocache.

Negócios com o Brasil

Com pouco menos de 1,3 milhão de habitantes, a Guiné Equatorial é um país pequenino que ocupa o 141º lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano. O Brasil é 79º.

O Brasil tem embaixada na Guiné desde 2005, quando a representação diplomática foi inaugurada pelo governo Lula. O Itamaraty estima que 400 brasileiros morem no país, onde diversas empresas brasileiras mantêm ou mantiveram operações.

A relação entre os dois países esfriou sob o mandato de Dilma Rousseff e ensaiou uma retomada recentemente, quando os chanceleres Aloysio Nunes, sob o governo Temer, e Simeón Oyono se encontraram em Brasília.

Alan Marques/Folhapress
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recebe o presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, no Palácio do Planalto, em Brasília (DF), em imagem de 14 de fevereiro de 2008 Imagem: Alan Marques/Folhapress

Petrobras e empreiteiras se aproveitaram da aproximação

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

A aproximação com o regime de Obiang Nguema rendeu frutos para empresas brasileiras. Em janeiro de 2006, a Petrobras anunciou participação na exploração de petróleo no país, em conjunto com empresas africanas e americanas.

A construção civil brasileira também cresceu na Guiné Equatorial. Quatro gigantes do setor entraram no país na década passada: ARG, OAS, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão.

As empresas não quiserem confirmar à reportagem se ainda atuam no país.

Fora do governo, Lula supostamente atuou na aproximação da Odebrecht com a ditadura africana, segundo reportagem da Folha de S.Paulo de 2015. Ao UOL, a empresa disse que fechou a sede em Mabalo em 2014.

Escândalo carnavalesco

Em 2015, a escola de carnaval carioca Beija-Flor sagrou-se campeã ao desfinar a Guiné Equatorial na Sapucaí.

Teodorín e sua comitiva assistiram ao desfile.

Uma reportagem do jornal O Globo apontou que a escola teria recebido R$ 10 milhões do país como forma de patrocínio, mas a Beija-Flor diz que o pagamento, na verdade, veio das construtoras brasileiras.

As ligações da Beija-Flor com a Guiné Equatorial teriam começado no Carnaval de 2013, quando Teodorín teria contratado uma apresentação particular da escola.

No mesmo ano, a escola fez uma apresentação em homenagem aos 45 anos da independência do país. Em 2014, a escola levou uma comitiva à Guiné Equatorial para buscar patrocínio, e Teodorín teria convencido o pai a destinar uma quantia à Beija-Flor para 2015.

Origem e destino do dinheiro encontrado em Viracopos

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Pedido de investigação de dois partidos da Guiné Equatorial para averiguar o incidente envolvendo Teodorín Mangue e a justiça brasileira Imagem: Reprodução

A Polícia Federal continua investigando a origem e o possível destino do dinheiro.

O professor Victor Martins, professor de Relações Internacionais do Centro Universitário Assunção, especula que o vice-presidente, investigado por corrupção em cinco outros países tenha tentado adotar o Brasil como nova rota para enviar dinheiro ao exterior.

“É possível que a PF tenha recebido alguma dica, você não vai abrir a mala de um vice-presidente do nada", disse Carlos Eduardo Riberi Lobo, doutor em Relações Internacionais.

A Polícia Federal não comentou sobre o caso, ainda em investigação.

Por meio de nota divulgada na última segunda-feira (17), a embaixada de Guiné Equatorial no Brasil atribuiu o incidente a um "desacerto entre duas autoridades políticas e administrativas brasileiras, que só pode ser atribuído ao período de campanha eleitoral que se vive neste momento".

*Colaborou Lucas Borges Teixeira, em São Paulo