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"Hitler em Brasília": jornal israelense publica artigo com críticas a Jair Bolsonaro

NELSON ALMEIDA/AFP
Manifestantes seguram cartazes contra Bolsonaro em protesto de mulheres contra a candidatura do capitão da reserva Imagem: NELSON ALMEIDA/AFP

Do UOL, em São Paulo

25/10/2018 18h43

Segundo maior jornal de Israel, o Haaretz publicou nesta quinta-feira (25) um artigo criticando o candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL). Intitulado "Hitler em Brasília - Os evangélicos dos EUA e a teoria política nazista que estão por trás do candidato à Presidência do Brasil", o texto foi escrito pelo jornalista norte-americano Alexander Reid Ross.

Ross abre seu texto citando as recentes declarações de Bolsonaro em um vídeo transmitido na manifestação que deu apoio a sua candidatura na Avenida Paulista. "Esses criminosos vermelhos serão banidos de nossa terra natal. Ou eles vão para o exterior ou vão para a cadeia. Será uma limpeza como nunca vista na história do Brasil", disse Bolsonaro no domingo (21).

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Para o jornalista, autor do livro "Contra o Crepúsculo Fascista" (sem tradução no Brasil), a ascensão de Bolsonaro mostra que o maior país da América Latina está seguindo um movimento global e retornando para as "décadas feias", em referência aos regimes totalitários que vigoraram no continente no século 20. 

"É também um sinal do retorno de uma compreensão repressiva e nacionalista do Estado e de suas políticas externas que chegaram ao auge na Alemanha nazista antes da guerra, se espalhou para o oeste até os Estados Unidos e foi impulsionada por sucessivas administrações dos EUA como uma estratégia", escreve Ross.

No artigo, Ross relembra algumas situações onde Bolsonaro transpareceu sua simpatia aos regimes totalitários, como quando Carlos Bolsonaro, filho do presidenciável, convidou o então candidato a vereador pelo PSC, Marco Antônio Santos, para acompanhar uma discussão na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Santos é conhecido por desfilar utilizando alegorias nazistas, e naquele dia não foi diferente.

Reprodução/Twitter
O ex-candidato a vereador Marco Antônio Santos, vestido com adereços nazistas, e o presidenciável Jair Bolsonaro em 2015 Imagem: Reprodução/Twitter

A presença de Santos naquele dia na Câmara gerou indignação dentro e fora da Casa. O então presidente da Câmara, Jefferson Moura (Rede), impediu que Marco Antônio se pronunciasse na sessão. “Num parlamento democrático não há espaço para apologia ao nazismo. É inadmissível um indivíduo fantasiado de Adolf Hitler usar a tribuna do plenário para se expressar”, disse Jefferson, como reportado pelo jornal Extra.

Outra questão explorada por Ross foi a relação entre Eduardo Bolsonaro - outro filho do capitão - e Steve Bannon, estrategista-chefe da campanha de Donald Trump em 2016. Os dois se encontraram em agosto desse ano, e Bolsonaro chegou a afirmar que o encontro foi para "somar forças, principalmente contra o marxismo cultural".

Bannon, juntamente com a empresa Cambridge Analytica, foram protagonistas de um escândalo de captura de dados de usuários das redes sociais sem as devidas autorizações. A empresa, contratada para impulsionar a campanha de Trump, utilizou dados de pelo menos 50 milhões de usuários do Facebook para direcionar conteúdo de campanha - incluindo notícias falsas - para potenciais eleitores.

"Estranhamente, o sr. Bolsonaro depois negou a conexão de Bannon com a campanha. Mas a implacável oposição de Bolsonaro à esquerda política não é o único combustível crítico para sua visão de mundo. Uma outra vertente chave, para a qual Bannon é peça importante, é o papel da geopolítica e seu uso pelos movimentos de extrema-direita ao longo do século 20.", disse Ross.

O jornalista então cita a influência, nas eleições brasileiras, do conceito de geopolítica desenvolvido pelo alemão Karl Haushofer, 'professor' dos nazistas Adolf Hitler e Rudolf Hess. Esta perspectiva, segundo Ross, agora está encarnada nos princípios desenvolvidos pelos Estados Unidos, principalmente após a implementação das ditaduras na América Latina.

"Não surpreende, portanto, que o mesmo departamento de Estado americano que apoiou firmemente as ditaduras latino-americanas, como parte de uma estratégia de insurgência anti-esquerdista em todo o continente conhecida como Operação Condor, ajudaria a trazer o retorno da geopolítica", escreve o jornalista.

Segundo Ross, Bolsonaro se adaptou às exigências que a sociedade brasileira exige para uma candidatura radical, com especial atenção à classe média do país. "A candidatura de Bolsonaro e sua provável ascensão à presidência é um sinal de uma crescente união geopolítica de forças de extrema-direita que formam a reação contra o liberalismo e a esquerda, e a reabilitação e glamourização do poder militar e do autoritarismo", conclui Ross.