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Relatos de 3 LGBTs que adiaram voltar ao Brasil com medo de ataques homofóbicos

Marcello Camargo/Arquivo/Agência Brasil/Agência Brasil
Imagem: Marcello Camargo/Arquivo/Agência Brasil/Agência Brasil

Pedro Graminha

Do UOL, em São Paulo

21/11/2018 04h01

Há pouco mais de um mês, quando saiu o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, Walter*, 33, recebeu a ligação de um amigo que, assim como ele, é brasileiro e vive na Irlanda -- um país fortemente católico.

Juntos, eles choraram ao telefone.

Longe de casa, acompanhando o que acontecia no Brasil pelas redes sociais e pela imprensa, eles temiam que uma onda de ataques contra LGBTs se concretizasse, no contexto de polarização e violência que marcaram a última campanha eleitoral e que, agora, arrefeceram, mas não cessaram.

Hoje, encerrado o processo eleitoral, eles temem voltar para casa. E apontam dados concretos para o medo: ambos foram vítimas de ataque homofóbicos -- antes de Bolsonaro ser candidato ou presidente eleito, antes mesmo de saírem do Brasil. 

E, se as agressões já existiam no passado, para três brasileiros no exterior ouvidos pelo UOL, a retórica homofóbica de parte do eleitorado de Bolsonaro pode ganhar força e sentir-se respaldada no próximo governo. Ativistas e membros LGBT das Forças Armadas expressaram temor parecido.

Meu maior receio é a violência validada por quem deveria garantir a segurança da população

Walter*, 33, brasileiro, gay, há 4 anos na Irlanda

Na pele

Quando ainda estava na universidade, Walter foi agredido e levou nove pontos na cabeça.

"Foi uma experiência que não desejo nem para quem fez isso comigo. É um sentimento absurdo, ver a polícia duvidando, o atendimento no hospital...uma vez que você sofre homofobia, ou qualquer preconceito, você sabe quando está passando por aquilo de novo", afirma.

Ele se mudou para a Irlanda há quatro anos e, em 2017, casou-se com um irlandês. O casal sempre conversou sobre morar no Brasil, mas os planos mudaram: Walter tem medo daqui e diz que o discurso de Bolsonaro piora as condições de segurança para ele.

Mas a posição de Walter não é unânime. 

Antes do segundo turno, pesquisa do Datafolha mostrou que 29% dos eleitores não heterossexuais declararam voto em Bolsonaro. Por outro lado, 62% dos entrevistados o rejeitaram.

O que já disse Bolsonaro sobre homossexuais

Bruna Prado/UOL
Ao deixar o local de votação, Bolsonaro acena para apoiadores Imagem: Bruna Prado/UOL

Eles querem é se impor como uma classe à parte. Não vão encontrar sossego. E eu tenho imunidade pra falar que sou homofóbico, sim, com muito orgulho se é pra defender as crianças nas escolas

Em 2013, quando era deputado federal

Para crianças de seis anos de idade, não dá. O pai não quer chegar em casa e ver o seu filho brincando de boneca por influência da escola. Os homossexuais serão felizes se eu for presidente

Em 2018, antes do segundo turno

Ambiente hostil

Sem dados oficiais sobre agressões a LGBTs, o país se apoia em dados compilados por organizações independentes. O Grupo Gay da Bahia, que contabiliza esse tipo de incidente há 38 anos e se tornou referência no assunto, aponta que 2017 teve recorde de mortes de pessoas gays, lésbicas e transexuais: 445 assassinatos.

Ao mesmo tempo, 2017 foi um ano recorde nos assassinatos no Brasil de uma maneira geral: 63.880 casos, maior número desde 2013, quando o Fórum Brasileiro de Segurança Pública começou a contabilizar os assassinatos. E atuar na crise na segurança pública foi um dos pilares da campanha de Bolsonaro.

Mas ativistas LGBTs temem ficar de fora de um eventual avanço na melhoria da segurança.

"Um presidente é um influenciador, muito mais do que um youtuber, um ator e uma atriz. Se ele fala que ser gay é falta de porrada, as pessoas que tinham esse sentimento homofóbico agora vão dar porrada no gay", diz Toni Reis, presidente da Aliança Nacional LGBTI.

Ele diz que a organização teve de ampliar serviços de assistência jurídica e psicológica neste ano.

"Os números de casos aumentaram significativamente, inclusive as denúncias do disque 100 (serviço para denúncia de violações de direitos humanos). Isso não é coitadismo, são dados da realidade", afirmou Reis.

Após a vitória de Bolsonaro, a Renosp, organização formada por policiais, bombeiros e membros das Forças Armadas LGBTs, relançou uma cartilha com dicas de segurança

“A gente tem que ter cuidado, porque fica parecendo que só agora que LGBTs passaram a sofrer violência. Isso já acontecia. Mas, infelizmente, o nome do presidente virou um xingamento na boca daqueles que querem agredir a população LGBT”, diz Bruna Benevides, mulher transexual e sargento da Marinha. 

Bruna entrou na Marinha há 21 anos e fez a transição de gênero durante esse período. Disse ter sido bem recebida pelos oficiais, mas relata dificuldades com a burocracia.

"A aproximação do Bolsonaro com essas forças antidireitos e que se posicionam, historicamente, contra a pauta LGBT, faz com que as pessoas tenham mais cuidado. Esse é um dos motivos pelos quais relançamos a cartilha. Quando a gente fala de violência, não é só física. Perda de direitos e retrocessos em pautas que estavam avançando também", diz.

Em relação aos casos de violência cometidos por supostos apoiadores, em tuíte publicado antes do segundo turno, Bolsonaro declarou: "Dispensamos voto e qualquer aproximação de quem pratica violência contra eleitores que não votam em mim. A este tipo de gente peço que vote nulo ou na oposição por coerência, e que as autoridades tomem as medidas cabíveis, assim como contra caluniadores que tentam nos prejudicar".

Estrangeiros no próprio país

Jaime*, 42, que mora nos EUA há três anos, diz que sente ver o Brasil “andando para trás”. O jornalista que vive em Nova York não planeja voltar para cá.

“Os discursos de que minorias têm que se adequar ou desaparecer são fascistas", diz.

O jornalista saiu em 2015 para trabalhar como correspondente. Apesar de aliviado por estar fora, ele se diz angustiado pelas pessoas que ficaram.

“Não vou morar em um país onde minha vida é ameaçada, pois sou jornalista, gay e de esquerda. Prefiro ser estrangeiro no país dos outros do que ser estrangeiro no meu próprio país."

Outro brasileiro que disse não se reconhecer mais no Brasil foi Daniel*, 31. Ele se mudou para a Europa em 2008 e morou em Portugal, Inglaterra e agora Espanha.

Em 2017, nove anos depois de ter saído, voltou ao Brasil.

“Me senti completamente fora d'água. Não me sentia daí. Mesmo vendo que os jovens tinham a cabeça mais aberta, para muito mais coisas, tinha receio de andar na rua. Não dar pinta porque podiam me bater", afirma.

Quando se mudou, sempre pensava que um dia ia voltar, pelo país e pela família. Mas agora tem medo.

"Vai ser complicado voltar. De uma forma geral, isso vai trazer várias consequências na forma de pensar e acho que isso não passa com o mandato de Bolsonaro."

Ele diz que a situação é melhor na Espanha. 

“As pessoas nos respeitam muito. Ver um casal do mesmo sexo na televisão não surpreende. As pessoas são muito tranquilas em relação a isso", afirma.

Na Irlanda, Walter também diz se sentir protegido.

"Aqui a gente sai no mercado e vai de mãos dadas. Uma vez estávamos de bicicleta e no semáforo nos beijamos, coisa de casal. Então fiquei pensando no carro que estava atrás da gente, imaginando que, se fosse no Brasil, podia acontecer alguma coisa muito ruim”, relata.

Ele também afirma que, no Brasil, teme pela segurança do marido.

“Não tenho condições de exigir, nem sugerir, ir para um país que é pior que o lugar de onde ele veio, em relação a ser gay".

Apesar de não querer morar no Brasil, Walter planeja voltar para ver a família.

"Ao mesmo tempo que a gente precisa se proteger a gente não pode se privar. O medo não pode te deixar estagnado. Eu não me considero um exilado e isso eles não vão ter o gosto de dizer"

* Os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados.