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Mourão visita a China de olho em integrar Brasil na Nova Rota da Seda

Carolina Antunes/PR
Jair Bolsonaro faz a transmissão do cargo para o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, antes de viajar para os EUA Imagem: Carolina Antunes/PR

Talita Marchao*

Do UOL, em São Paulo

2019-05-18T04:00:00

18/05/2019 04h00

O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) desembarca na China na noite de sábado (hora de Brasília) na primeira visita de um representante do alto escalão do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) ao país asiático.

Na agenda, o general tem a reativação da Cosban (Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação), parada desde 2015, o restabelecimento da boa relação bilateral do Brasil com seu maior parceiro comercial e principalmente ouvir as propostas chinesas para que o país integre a chamada "Nova Rota da Seda", o grande projeto global de investimento em infraestruturas promovido por Pequim.

Mourão passará a semana na China, entre as cidades de Xangai e Pequim. Ainda se reunirá com o presidente chinês, Xi Jinping, na sexta-feira. A viagem tem ainda uma parada na Muralha da China, um churrasco e uma entrevista para a agência de notícias estatal chinesa, a Xinhua, depois de um período para atender jornalistas.

O encontro de Mourão com Xi representa um grande sinal da boa vontade chinesa sobre as relações com o Brasil de Bolsonaro --já este não havia se esforçado tanto: numa atitude não muito bem vista, enquanto era pré-candidato, Bolsonaro visitou Taiwan, ilha considerada rebelde por Pequim.

O presidente brasileiro já confirmou que visitará a China no segundo semestre deste ano. O chinês vem ao Brasil em novembro para a cúpula dos Brics (sigla em inglês para o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). O evento com Xi em Brasília terá ainda a participação de presidentes da América do Sul.

"A visita é importante para recuperar a relação bilateral, que é importante tanto para a China quanto para o Brasil. Pelo que ouvi de diplomatas chineses, eles estão bastante esperançosos de que essa visita possa ser o ponto final de uma época de bastante incerteza na parceria entre os dois países iniciada na época da eleição", afirma Oliver Stuenkel, coordenador do programa de pós-graduação da Escola de Relações Internacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e especialista nas relações China-Brasil.

Para Stuenkel, "o governo chinês não quer que o Bolsonaro goste ou fale bem da China".

A China quer previsibilidade dos negócios. Para o investimento chinês dar certo no Brasil, o nosso país não precisa amar a China, mas é preciso saber se o presidente vai tomar uma atitude como a de Donald Trump, por exemplo, de banir a Huawei. E o Mourão, de certa maneira, tem se posicionado como uma garantia de que a relação continuará funcionando bem
Oliver Stuenkel, especialista nas relações entre Brasil e China

Nesta semana, o presidente dos EUA acirrou a batalha contra a China anunciando medidas que impedem as vendas de produtos da Huawei, a maior fabricante de equipamento para redes.

Brasil na "Nova Rota da Seda"

Mourão confirmou nesta semana que irá ao país asiático disposto a ouvir as propostas chinesas para que o Brasil faça parte do projeto Belt and Road Initiative (Iniciativa do Cinturão e Rota), batizado informalmente de "Nova Rota da Seda", em referência aos caminhos usados por terra e mar entre o sul da Ásia e a Europa para comercializar o tecido, formando a maior rota comercial do mundo antigo.

O projeto de Pequim agora prevê um megainvestimento em infraestruturas para conectar o mundo aos mercados chineses --são portos, ferrovias, estradas, aeroportos e redes de telecomunicações.

Mark Schiefelbein/Pool/AP
O presidente chinês, Xi Jinping, discursa durante evento Imagem: Mark Schiefelbein/Pool/AP

Na América do Sul, por exemplo, Chile e Equador já firmaram a parceria, mas a entrada do Brasil é crucial para a conexão chinesa com os demais países da região. Enquanto a China flerta com os países da região, os EUA de Trump tentam reduzir a influência de Pequim --e os investimentos chineses-- no continente americano.

É nesse contexto que Brasil e China retomam os trabalhos da Cosban, tradicionalmente presidida pelos vice-presidentes dos dois países. A comissão foi criada em 2004, durante os governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hu Jintao, e está parada desde 2015, quando foi realizada a última reunião.

"Queremos iniciar um relacionamento de confiança, para que os chineses entendam que nós os temos como parceiros estratégicos. É o nosso maior fluxo comercial. Nós sabemos da importância da China, que hoje tem mais de um terço do PIB (Produto Interno Bruto) do mundo. Num curto a médio prazo, pode chegar a ter mais da metade. A gente tem de se colocar bem nisso aí", disse Mourão a jornalistas em Brasília no começo da semana.

Mas o general deixou claro que nenhuma decisão será tomada durante a visita. Segundo Mourão, Bolsonaro visitará Pequim em agosto, e ele é quem "poderá ter uma decisão sobre a nossa participação" na "Nova Rota da Seda". "O investimento tem que vir aonde nós queremos e tem que ser um investimento que contrate brasileiros e não chineses", afirmou o vice-presidente.

Para o embaixador Luiz Augusto de Castro Neves, presidente do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), "o papel da economia chinesa na retomada do crescimento econômico brasileiro pode ser fundamental, central, e é isso que precisamos explorar". "Salta aos olhos o fato de que a China vai continuar a crescer o dobro da média da economia mundial, e a demanda externa vai desempenhar um papel muito importante para a retomada do crescimento da economia brasileira", analisa ele.

"O investimento interno brasileiro não será suficiente para colocar a economia em marcha. Vai ser preciso que a economia mundial tenha uma demanda que possa comprar do Brasil e investir no Brasil. E a China é hoje o maior investidor estrangeiro no nosso em termos de fluxo", explica o diplomata, que já comandou a embaixada brasileira em Pequim.

Para Stuenkel, autor de "Brics e o Futuro da Ordem Global", Mourão chega a Pequim com vantagem para negociar. "Para a China, o Brasil fazer parte do Belt and Road é superimportante, porque gera a integração da América do Sul ao projeto. Por isso, Mourão entende que pode pedir coisas em troca. Isso significa que ele pode dizer que o Brasil está à disposição do projeto, mas, como isso pode ter um custo político para Bolsonaro, a China precisa assegurar uma certa quantidade de projetos e investimentos. E é isso que o Mourão deve negociar nesta viagem", afirma o professor da FGV.

Em nota divulgada nesta semana, o Itamaraty destaca que a China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009 e acumula, até o ano passado, US$ 69 bilhões de investimentos no Brasil, em 155 projetos, especialmente nos setores de energia (geração e transmissão, além de óleo e gás), infraestrutura (portuária e ferroviária), finanças, serviços e inovação.

* Com Luciana Amaral, do UOL, em Brasília

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