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Bolsonaro foi mais polido que sua média, avaliam especialistas em oratória

24.set.2019 - Bolsonaro na ONU Imagem: REUTERS/Lucas Jackson

Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

24/09/2019 20h51Atualizada em 24/09/2019 20h52

O presidente Jair Bolsonaro começou o discurso que abriu a Assembleia Geral da ONU desconfortável e depois engrenou apontaram especialistas em falar em público ouvidas pelo UOL. Ainda que a imprensa tenha classificado o conteúdo como agressivo, os profissionais em oratória viram avanço no presidente não ter "falado com o fígado".

Autor de livros sobre o tema, o blogueiro do UOL Reinaldo Polito ressaltou que Bolsonaro acertou no tom. "Começou hesitante e se encontrou com dois minutos de discurso. Usou emoção na medida certa. Às vezes o orador quer ser eloquente e fala com emoção não proporcional à mensagem".

Crítico do presidente em outras ocasiões, Polito declarou que alguns assuntos previsíveis, como queimadas, soberania nacional e questão indígena, eram certezas no discurso, mas que a postura veemente na defesa de um viés ideológico surpreendeu. Ele disse que ficou visível uma preparação prévia de pelo menos três dias e cuidado em não ser grosseiro e ampliar crises.

"Se continuar se preparando, não falando de forma intempestiva está bom. Se tivesse falado com o fígado não convenceria outra parte e passaria imagem negativa".

Polito elogiou a inclusão da carta de grupo de indígenas. Explicou que o discurso é longo e a tendência é cair o interesse do público. Mas no momento em que a carta é sacada, cria-se um fato novo e a atenção é retomada.

Por último, ressaltou que a Assembleia da ONU é um dos palcos mais difíceis do mundo. Além de quase 200 líderes mundiais, a repercussão é global. Mesmo assim, foi o melhor desempenho de Bolsonaro em não ser tão robótico nem cometer gafes.

Imagem: Stephanie Keith/Getty Images/AFP

Olhos confessaram tensão

A jornalista especialista em mídia training Aurea Regina de Sá notou que o presidente Bolsonaro estava com os olhos bastante abertos logo que chegou começou a falar, comportamento típico de quem está assustado. Também não escapou dela a dificuldade do presidente em fazer uma leitura fluída que transmita naturalidade ao falar. Aurea explicou que Bolsonaro ficou muito mecânico e isto dificulta a captação da audiência da plateia.

"Ele faz a leitura como se estivesse cumprindo um papel. A atribuição do presidente não é ler o texto. Ele está ali para se conectar com pessoas, dar informações, orientações, fazer convites. Todo este conteúdo está no texto, mas não é transmitido pelo jeito que é apresentado ao espectador"

Aurea também partilha da opinião de que o texto foi mais ameno que o padrão das declarações do presidente. A especialista em mídia training disse que é claro que várias pessoas participaram da elaboração do texto. Ela acrescentou ainda que o conteúdo escrito foi seguido porque ficaria nítido sair do script.

"Foi um texto mais amigável que a média dele (Bolsonaro), apesar de ter pontos que cutucaram a imprensa e alguns países. O texto foi produzido para melhorar imagem do Brasil lá fora".

Aurea avalia que o discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU não é determinante na avaliação que os brasileiros farão do presidente. Já há pessoas a favor e contra e não será um discurso que determinará o índice de aceitação de Bolsonaro.

"O que pode mudar a percepção da população são os resultados para o cidadão. Criação de emprego, maior sentimento de segurança e uma vida melhor podem dar ao presidente este mérito".

Imagem: William Volcov/Brazil Photo Press/Folhapress

Consultoria vê oportunidade perdida

A consultoria de risco político Eurasia classificou o desempenho de Jair Bolsonaro como uma oportunidade perdida em demonstrar preocupação ambiental, tema que o Brasil é criticado. Em informe, a avaliação feita foi a de que o presidente preferiu entregar um discurso carregado de tons ideológicos que acenaram para pessoas de direita.

A Eurasia ressaltou a dissonância que existe entre a agenda liberal de Bolsonaro e a retórica contra o socialismo, o globalismo e negar que há devastação da Amazônia. Neste último item, a consultoria ressaltou a parte do discurso do presidente brasileiro que apontou a imprensa como responsável por divulgar informações falsas.

Por fim, a Eurasia escreveu em seu informe que o discurso de Bolsonaro na ONU mostrou ao mundo, mais uma vez, que ele é um presidente contra o establishment. O texto ressalta que há um grupo próximo a um terço da população brasileira que apoia esta postura e se manifestou nas redes sociais endossando o discurso.

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