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Pescadores no Brasil salvam um gigante dos rios e seu meio de sobrevivência

Pescadores e ambientalistas ajudam a preservar o pirarucu - Mauricio Lima/The New York Time
Pescadores e ambientalistas ajudam a preservar o pirarucu Imagem: Mauricio Lima/The New York Time

Simon Romero

Em Tefé (AM)

14/11/2014 00h01

Enquanto macacos guariba gritavam perto deste posto avançado nos confins da floresta amazônica, Valdenor da Silva agarrava seu arpão e guiava sua canoa por um deslumbrante mosaico de lagos e canais em busca de sua presa.

"Os gigantes do rio estão abundantes neste ano", disse Valdenor, 44, pai de oito filhos que coloca comida na mesa de sua família caçando o pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo. Exibindo um sorriso, o pescador, com 1,70 metro e pesando 72 quilos, acrescentou: "Todo pirarucu que pesquei neste ano é maior do que eu".

Em águas infestadas de piranhas, os pescadores saem à procura do pirarucu, que pode chegar a dois metros e pesar mais de 180 quilos, o que o coloca nas fileiras dos megapeixes de água doce como o tubarão tailandês e o bagre gigante do Mekong, ambos encontrados na distante bacia do rio Mekong, no Sudeste Asiático.

Com a pesca excessiva e degradação do habitat ameaçando esses gigantes em diferentes partes do mundo, os moradores das margens de rios e biólogos na Amazônia estão trabalhando juntos para salvar o pirarucu, ao proibirem forasteiros de o pescarem e mudarem seus métodos de pesca.

O esforço deles para salvar o peixe está resultando em uma história de sucesso pioneira em conservação na Amazônia, ao mesmo tempo que oferece uma estratégia para combater crises de extinção mais amplas em água doce, segundo especialistas em pesca que monitoram o desaparecimento de grandes peixes nos rios e lagos do mundo.

"Há pouco tempo, nós temíamos que o pirarucu silvestre desaparecesse da Amazônia", disse Ruiter Braga, um técnico de pesca de Mamirauá, uma reserva florestal que ajudou a desenvolver o regime de gestão, durante o qual os cardumes de pirarucu na área aumentaram mais de 400%. "Nós descobrimos que a única forma de salvar o pirarucu era envolvendo as pessoas que vivem na floresta, que dependem do peixe para sua própria sobrevivência."


As autoridades estabeleceram uma proibição geral à pesca do pirarucu em 1996 no Amazonas --o Estado brasileiro gigante na bacia do rio Amazonas que tem três vezes o tamanho da Califórnia-- mas concedendo aos habitantes locais o direito exclusivo de pesca nas águas de seu território.

Algumas comunidades ribeirinhas também proíbem o uso de redes de emalhar, que são utilizadas verticalmente para prender o pirarucu. E, fundamental para aumentar o tamanho do pirarucu, as comunidades também ordenam a soltura de pirarucus com menos de 1,5 metro, permitindo que procriem e cresçam; o pirarucu geralmente atinge a maturidade entre três e quatro anos.

Apesar do uso de redes ainda ser permitido em alguns lugares, a pesca de pirarucu em geral voltou às suas raízes --uma tradição envolvendo pouco mais que arpões, bastões de madeira, canoas e muita paciência.

Durante a estação da seca, quando o nível das águas cai nos alagadiços da Amazônia, os pescadores se espalham em suas canoas à procura do pirarucu, que sob à superfície para respirar a cada 15 minutos, aproximadamente, devido a um órgão labiríntico que permite ao peixe sobreviver em águas com pouco oxigênio.

Assim que o pirarucu é avistado, a caça frenética lembra uma caça a focas quase tanto quanto pesca. Quebrando a calma da floresta, os pescadores empalam o pirarucu com seus projéteis parecidos com lanças. Quando ataca, o pirarucu geralmente é forte o bastante para virar as pequenas canoas dos pescadores, os jogando em águas repletas de jacarés e piranhas.

Quando o peixe é puxado, ele fica apenas parcialmente na canoa, e os pescadores então usam os bastões de madeira para golpeá-lo na cabeça várias vezes para concluir o trabalho. No final, o pirarucu, geralmente maior do que os homens que o caçam, emite um gemido de morte que soa algo entre um murmúrio e um gorgolejo.

"Pescar o pirarucu não é para qualquer um, mas nós apreciamos todas as partes dele", disse Henrique Alcione Batalha, um pescador de 46 anos da comunidade de São Francisco da Capivara, enquanto ele e sua família se deleitavam certa noite com as vísceras e cabeça do pirarucu, preparadas com farinha de mandioca e comidas no dia em que peixe foi pescado.

Alguns vilarejos até mesmo usam as escamas do pirarucu como lixa de unha ou ornamentos, enquanto a língua óssea e áspera é usada para ralar guaraná, a fruta amazônica cafeinada considerada um afrodisíaco por alguns brasileiros e consumida em refrigerantes por todo o país.

Mas o maior comércio envolve a venda da carne do pirarucu, consumida por séculos em filés sem osso, considerados uma iguaria na Amazônia. Alguns dos pirarucus maiores chegam a custar mais de US$ 200 (R$ 460) cada quando vendidos inteiros nas feiras de rua das cidades amazonenses, reforçando a renda das famílias que sobrevivem do peixe que pescam e da mandioca que cultivam em pequenas propriedades.

"O pirarucu já era um dos peixes de consumo mais importantes na Amazônia muito antes da chegada dos europeus", disse Donald Stewart, um biólogo de consumo da Faculdade de Ciência Ambiental e Engenharia Florestal da Universidade Estadual de Nova York. "Os primeiros exploradores logo descobriram que a carne podia ser salgada e seca ao sol, de modo que podia durar muito tempo sem estragar."

Apesar de carecer dos sabores sutis da variedade não salgada, a popularidade do pirarucu salgado está crescendo em partes do Brasil. Ele é vendido como "o bacalhau da Amazônia", em uma tentativa de competir com o bacalhau, peixe cuja carne é seca, salgada e de cheiro forte. Ele é pescado na Noruega e importado pelo Brasil, onde é item caro e tradicional da culinária de inspiração portuguesa.

Mais de 1.400 pescadores de Mamirauá e arredores participam do regime de gestão do pirarucu, cumprindo as cotas e etiquetando cada peixe que pegam. Em 2013, os pescadores levaram para casa em média US$ 650 cada com a pesca do pirarucu, uma soma bem-vinda nas aldeias remotas. Mesmo assim, a pesca ilegal do pirarucu cresce em partes da Amazônia, reduzindo os preços do peixe nas feiras livres.

Apesar dos especialistas em pesca geralmente apreciarem projetos que recuperam populações exploradas em excesso de pirarucus em partes da floresta tropical, o comércio ilícito, especialmente no Estado vizinho do Pará, fez com que o megapeixe desaparecesse das proximidades de grandes cidades, ameaçando ao mesmo tempo sua sobrevivência em alguns assentamentos na floresta.

"Nós esperamos que o pirarucu possa resistir a esses desafios, já que uma extinção roubaria dos vilarejos por toda a Amazônia de sua fonte de sustento", disse Claudio Batalha, 47, um coordenador do projeto de pesca aqui. "Sem tornar essa pesca sustentável, mais forasteiros poderiam tomar a floresta", acrescentou. "É aí que a ameaça de uma maior devastação da floresta se torna real."