Negociação entre EUA e Irã para libertar presos durou 14 meses e quase falhou

Peter Baker e David E. Sanger

Em Washington (EUA)*

  • Kevin Lamarque/AP

    O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, e o ministro do Exterior do Irã, Mohammad Javad Zarif, reúnem-se em Viena, na Áustria

    O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, e o ministro do Exterior do Irã, Mohammad Javad Zarif, reúnem-se em Viena, na Áustria

Há um ano, membros do governo Obama se reuniam em segredo com homólogos iranianos para tentar libertar americanos presos na República Islâmica. Finalmente, no último outono, um acordo para a libertação dos prisioneiros parecia quase fechado.

Mas os iranianos chegaram à última sessão clandestina em uma suíte de hotel em Genebra com uma proposta totalmente nova, que insistia na libertação de dezenas de iranianos presos nos EUA, essencialmente voltando às exigências iniciais que tinham sido rejeitadas havia tempo.

Os americanos ficaram atônitos. "Já conversamos sobre isto", disse Brett McGurk, o principal negociador. Mas os iranianos foram intransigentes, segundo autoridades americanas informadas sobre a reunião. Alguma coisa no Irã havia mudado, na constante batalha interna no país sobre como lidar com os EUA. Ao que parece, alguém no poder em Teerã não queria um acordo.

E assim McGurk e sua equipe pegaram seus papéis e saíram, encerrando abruptamente a reunião. Os interlocutores de McGurk vinham do aparelho de segurança do Irã, um grupo que nunca, ou quase, havia se reunido com americanos, muito menos negociado com eles. Não tinham o comportamento viajado e comunicativo dos dois veteranos iranianos que haviam negociado o acordo nuclear, muito maior, com os EUA durante mais de dois anos.

Afinal, o acordo foi retomado pelo secretário de Estado, John Kerry, e o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif. Cinco americanos deixaram o Irã neste fim de semana, em troca de sete iranianos libertados pelos EUA.

Mas foram necessários 14 meses de negociações turbulentas, pontuadas por alto drama diplomático e diversos quase colapsos, paralelamente ao último ano das negociações nucleares. As negociações secretas foram prejudicadas pela bagagem de uma história amarga, enquanto os representantes iranianos criticavam seus homólogos americanos sobre problemas antigos, incluindo o golpe patrocinado pela CIA em 1953 e o apoio americano ao Iraque na guerra com o Irã nos anos 1980.

Os iranianos não foram os únicos que enfrentaram divisões em seu governo sobre um possível acordo. Em Washington, o governo Obama se envolveu em um vigoroso debate sobre se devia trocar os prisioneiros iranianos e, nesse caso, quais deles. A ministra da Justiça, Loretta E. Lynch, era contra qualquer acordo que equiparasse americanos inocentes presos para obter vantagem política com criminosos iranianos acusados ou condenados pela tradição jurídica ocidental.

Afinal, as autoridades disseramque o presidente Barack Obama decidiu que para poupar anos --ou mesmo a vida-- dos americanos em uma prisão iraniana ele faria o que chamou de "gesto único", ao libertar iranianos que tinham sido acusados ou condenados por violar sanções que, de toda maneira, ele iria suspender como parte do acordo nuclear.

Mesmo então, houve uma discussão de última hora na pista do aeroporto --que, segundo uma autoridade americana, "parecia uma cena de 'Argo' [filme de 2012]"--, quando o Irã se recusou a deixar que a mãe e a mulher de um prisioneiro, Jason Rezaian, do jornal "The Washington Post", partissem com ele.

Somente depois que Kerry deu um telefonema urgente ao ministro do Exterior iraniano o avião recebeu permissão para decolar com todos os passageiros.

Críticos republicanos, embora comemorassem a libertação dos americanos, questionaram seu preço. "Acho que é um precedente muito perigoso", disse o senador Ted Cruz, do Texas, um importante candidato presidencial republicano, no programa "Fox News Sunday". "O resultado disto é que todo mau elemento na terra ouviu: 'capture um americano'. Se você quiser terroristas fora da cadeia, capture um americano; o presidente Obama está disposto a negociar."

Obama autorizou um canal diplomático secreto com o Irã a negociar sua libertação, enquanto ele tentava um acordo sobre o programa nuclear iraniano. McGurk, um alto membro do Departamento de Estado que havia intermediado a saída do problemático primeiro-ministro do Iraque, foi convocado em outubro de 2014 para liderar as novas negociações com o Irã.

Montada pelos suíços, que representam os interesses dos EUA em Teerã, a equipe de McGurk sentou-se com seus homólogos iranianos em Genebra pela primeira vez em novembro de 2014, segundo um relato feito por várias autoridades americanas sob a condição do anonimato.

Em sua lista estavam Rezaian, que foi preso em julho de 2014; Amir Hekmati, um veterano da Marinha de Michigan detido em agosto de 2011 quando visitava parentes; e Saeed Abedini, um pastor de Idaho preso desde 2012. Os americanos também discutiram a libertação de Nosratollah Khosravi, um empresário cujo caso não tinha sido divulgado até este fim de semana.

Enquanto os dois lados se reuniam a cada mês ou seis semanas, passaram mais tempo discutindo do que concordando, até que o acordo nuclearfoi concluído em julho. Depois disso, aumentou o ânimo para se chegar a um acordo. A oferta pelos EUA de melhor tratamento aos prisioneiros conseguiu certo resultado.

O principal avanço foi quando os iranianos fizeram um progresso mais rápidono sentido de acatar os termos do acordo nuclear, ao desativar um reator de plutônio, desligar centrífugas e enviar o urânio enriquecido para fora do país.

Autoridades americanas disseram que o momento não foi deliberado, mas sim uma função da melhora nas relações entre os dois países, quando ambos se sentiram ávidos para tirar antigas questões do caminho. Mas obstáculos de última hora continuavam ameaçando o acordo.

Em dezembro o Irã deteve Matthew Trevithick, um americano de 30 anos que estudava farsi em Teerã. Com um acordo quase pronto, os negociadores americanos disseramaos iranianos que esperavam que ele fosse libertado, mas não o incluiriam nas negociações porque temiam que Teerã exigisse a libertação de mais iranianos.

Então na última terça-feira (12), quando os acordos nucleare de prisioneiros rumavam para um desfecho, dois barcos de patrulha da Marinha dos EUA entraram em águas do Irã e dez marinheiros americanos foram detidos, no que os EUA chamaram de "tempestade perfeita". As autoridades americanas advertiram que, como questão política, o presidente não poderia levantar as sanções ao Irã se os marinheiros não fossem soltos.

Kerry telefonou para Zarif diversas vezes e os marinheiros foram libertados na manhã seguinte, o que os americanos interpretaram como um sinal de que o Irã realmente queria concluir os dois acordos. O Departamento de Estado começou a telefonar para as famílias para avisar que as coisas caminhavam bem.

Os dois lados decidiram anunciar a troca de prisioneiros enquanto fechavam o acordo nuclear. Trevithick, embora não fizesse parte tecnicamente do mesmo, foi libertado no sábado (16) e imediatamente deixou o país em um voo comercial. Khosravi decidiu ficar em Teerã depois que membros do consulado suíçogarantiram que era essa sua vontade. Os outros três foram levados ao aeroporto para partir em um avião suíço.

Mas mesmo então fervilharam discórdias durante mais de 11 horas. Uma delas era sobre o texto dos documentos relativos ao acordo nuclear,que retardaram os anúncios. Às 21h de sábado em Viena, Kerry reuniu-se em seu hotel com Zarif e o representante da União Europeia e falaram pelo celular do secretário com o ministro das Relações Exteriores da França.

Kerry levantou o telefone para que os vários participantes pudessem dar suas contribuições ao texto. Finalmente, por volta das 21h30, todos concordaram que estava pronto.

Depois que Zarif e o representante da UE fizeram o anúncio, Kerry recebeu informação de Genebra de que havia um problema para libertar os outros três prisioneiros americanos. O Irã não permitiria que a mulher de Rezaian, Yeganeh Salehi, e sua mãe, Mary, embarcassem.

Kerry ligou para Zarif enquanto este se dirigia ao aeroporto. "Javad, isso faz parte do acordo", disse-lhe Kerry, como contou mais tarde a repórteres em seu avião. Zarif, segundo ele, destacou quatro pessoas para resolver o problema.

Então as famílias estavam ansiosas com a expectativa, muitas voando para a Alemanha para encontrar seus parentes libertos. Obama começou a telefonar para elas para dar a notícia. Falou com Sarah Hekmati, uma irmã de Hekmati, quando ela e seu marido, o doutor Ramy Kurdi, se dirigiam ao Aeroporto Metropolitano de Detroit.

Mais tarde ela recebeu uma ligação de seu irmão. Suas primeiras palavras para ele foram: "Estou falando com um homem livre?"

Estava.

*Colaboraram na reportagem Rick Gladstone, de Nova York, e Eric Lichtblau, de Washington

Irã rechaça novas sanções impostas pelos Estados Unidos

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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