Onda de saques revela fome profunda entre venezuelanos

Nicholas Casey

Em Cumaná (Venezuela)

  • Meridith Kohut/The New York Times

    Leidy Cordova, 37, com quatro de seus cinco filhos, mostra a única comida que tem em casa: um saco de farinha e um frasco de vinagre na geladeira quebrada, em Cumaná, na Venezuela

    Leidy Cordova, 37, com quatro de seus cinco filhos, mostra a única comida que tem em casa: um saco de farinha e um frasco de vinagre na geladeira quebrada, em Cumaná, na Venezuela

Com caminhões de entrega sofrendo constantes ataques, os alimentos hoje são transportados sob guarda armada na Venezuela. Soldados vigiam as padarias. A polícia dispara balas de borracha contra multidões desesperadas que invadem os supermercados. Uma menina de 4 anos foi morta a tiros enquanto bandos disputavam comida nas ruas.

A Venezuela está em convulsão, causada pela fome.

Centenas de pessoas aqui na cidade de Cumaná, lar de um dos heróis da independência da região, marcharam contra um supermercado nos últimos dias, gritando por comida. Elas forçaram uma grande porta metálica e invadiram a loja. Agarraram água, farinha, cereais, sal, açúcar, batatas, qualquer coisa que encontrassem, deixando para trás geladeiras quebradas e prateleiras derrubadas.

E mostraram que até no país com as maiores reservas de petróleo do mundo é possível que a população faça rebeliões porque não tem alimentos suficientes.

Só nas últimas duas semanas, mais de 50 tumultos, protestos e saques por causa de comida ocorreram em todo o país. Dezenas de empresas foram atacadas ou destruídas. Pelo menos cinco pessoas foram mortas.

Isto é exatamente o que os líderes da Venezuela prometeram evitar.

Meridith Kohut/The New York Times
Dionny Ramarez na padaria onde trabalha em Boca de Uchire

Em um dos piores momentos da história do país, tumultos se espalharam da capital, Caracas, em 1989, deixando centenas de mortos pelas forças de segurança. Conhecidos como "caracazos", ou "choques de Caracas", eles foram desencadeados pelos baixos preços do petróleo, cortes nos subsídios e o repentino empobrecimento da população.

O fato marcou a memória de um futuro presidente, Hugo Chávez, que disse que a incapacidade do país de sustentar sua população, e a repressão do levante pelo Estado, eram os motivos pelos quais a Venezuela precisava de uma revolução socialista.

Agora seus sucessores se encontram em uma situação semelhante, ou mesmo pior.

O país procura ansiosamente maneiras como se alimentar. O colapso econômico dos últimos anos o deixou incapaz de produzir alimentos suficientes ou importar o que precisa. As cidades foram militarizadas sob um decreto de emergência do presidente Nicolás Maduro, o homem que Chávez escolheu para continuar sua revolução antes de morrer, três anos atrás.

"Se não houver comida, haverá mais tumultos", disse Raibelis Henriquez, 19, que esperou o dia inteiro por pão em Cumaná, onde pelo menos 22 empresas foram atacadas em um único dia na semana passada.

Mas enquanto a convulsão e os choques se espalham pelo país alarmado, é a fome que permanece a constante fonte de inquietação.

Uma porcentagem surpreendente --87%-- de venezuelanos disse que não tem dinheiro para comprar comida suficiente, na mais recente avaliação de padrões de vida feita pela Universidade Simón Bolívar.

Meridith Kohut/The New York Times
Homem procura por comida em supermercado que foi saqueado em Cumaná

Cerca de 72% dos salários são gastos só em alimentação, segundo o Centro para Documentação e Análise Social, um grupo de pesquisas associado à federação de professores da Venezuela. Em abril, ela descobriu que uma família precisaria do equivalente a 16 salários mínimos para se alimentar adequadamente.

Quando se pergunta aos moradores da cidade quando fizeram sua última refeição, muitos respondem que não foi hoje.

Entre eles estão Leidy Cordova, 37, e seus cinco filhos --Abran, Deliannys, Eliannys, Milianny e Javier Luis--, entre 1 e 11 anos. Na quinta-feira à noite, toda a família não tinha comido desde o almoço da véspera, quando Cordova fez uma sopa com pele e gordura de frango que encontrou por baixo preço em um açougue.

"Meus filhos me dizem que estão com fome", disse Cordova enquanto sua família olhava. "E tudo o que eu posso lhes dizer é que sorriam e aguentem."

Meridith Kohut/The New York Times
Mulher caminha por prateleiras e refrigeradores vazios de supermercado em Cumaná

Outras famílias têm de escolher quem come. Lucila Fonseca, 69, tem câncer linfático e sua filha de 45 anos, Vanessa Furtado, um tumor no cérebro. Apesar de também estar doente, em muitos dias Furtado dá a pouca comida que tem a sua mãe, para que não perca refeições.

"Eu antes era muito gorda, mas não sou mais", diz a filha. "Estamos morrendo vivos."

Sua mãe acrescenta: "Hoje vivemos na dieta de Maduro: sem comida, sem nada".

Economistas dizem que anos de má gestão econômica --agravada pelos baixos preços do petróleo, a principal fonte de receitas do país-- destruíram o abastecimento alimentar. Os campos de cana-de-açúcar no centro agrícola da Venezuela estão fracos por falta de fertilizantes. Máquinas usadas enferrujam nas fábricas estatais fechadas. Produtos como milho e arroz, que antes eram exportados, hoje devem ser importados e chegam em quantidades que não suprem a demanda.

Meridith Kohut/The New York Times
A família de Araselis Rodriguez e Nestor Daniel Reina fica sem jantar depois de não encontrar comida que pudessem pagar em Cumaná

Em reação, Maduro endureceu o controle do abastecimento. Por meio de decretos emergenciais que assinou neste ano, o presidente colocou a maior parte da distribuição de alimentos nas mãos de um grupo de brigadas de cidadãos leais aos esquerdistas, uma medida que, segundo os críticos, é reminiscente do racionamento de alimentos em Cuba.

"Eles estão dizendo, em outras palavras: 'Você terá comida se for meu amigo, se for meu simpatizante'", disse Roberto Briceño-León, diretor do Observatório Venezuelano da Violência, um grupo de direitos humanos.

Tudo isso foi uma nova realidade para Gabriel Márquez, 24, que cresceu nos anos de fartura, quando a Venezuela era rica e prateleiras vazias eram inimagináveis.

Ele parou na frente do supermercado destruído que a multidão havia invadido em Cumaná, uma enorme extensão de garrafas quebradas, caixas e prateleiras espalhadas. Algumas pessoas, inclusive um policial, vasculhavam os destroços em busca de algo para levar.

Meridith Kohut/The New York Times
Vanessa Furtado mostra a única refeição que fará naquele dia, em sua casa em uma favela em Caracas

"Durante o carnaval, costumávamos atirar ovos uns nos outros só por diversão", disse ele. "Hoje um ovo é como ouro."

Descendo a estrada costeira, em uma pequena cidade pesqueira chamada Boca de Uchire, centenas de pessoas se reuniram em uma ponte este mês em protesto porque as entregas de alimentos não chegavam. Os moradores pediram para ver o prefeito, mas quando ele não apareceu eles quebraram uma mercearia chinesa.

Os moradores arrombaram a porta com picaretas e saquearam a loja, manifestando sua raiva contra uma potência global que emprestou bilhões de dólares para sustentar a Venezuela nos últimos anos.

"Os chineses não vendem para nós", disse um motorista de táxi que assistia a multidão carregar tudo o que havia lá dentro. "Então nós queimamos suas lojas."

Nem sempre é claro o que provoca os tumultos. É só a fome? Ou uma ira maior que se acumula em um país que desmoronou?

Inés Rodríguez não tinha certeza. Ela lembra que gritou para a multidão que queria saquear seu restaurante na quarta-feira à noite e lhes ofereceu todo o frango e o arroz que havia lá se eles não quebrassem os móveis e a caixa registradora. Eles recusaram a oferta e simplesmente a empurraram para o lado, disse Rodríguez.

Meridith Kohut/The New York Times
Centenas de pessoas esperam em fila para comprar compida na favela de Catia, em Caracas

"Hoje é o encontro da fome com o crime", disse.

Enquanto ela falava, três caminhões com guardas armados passaram, todos adornados com fotos de Chávez e Maduro.

Os caminhões carregavam comida.

"Finalmente eles chegam aqui", disse Rodríguez. "E veja o que foi preciso para isso. Foi necessária essa revolta para conseguirmos alguma coisa."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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