Ataques em nome do EI expõem dificuldade de identificar futuros terroristas

Rukmini Callimachi

Em Magnanville (França)

  • Facebook/Reprodução/AFP

    Larossi Abballa, 25, que esfaqueou um policial e sua mulher nos arredores de Paris

    Larossi Abballa, 25, que esfaqueou um policial e sua mulher nos arredores de Paris

Na primeira vez em que Larossi Abballa apareceu no radar dos investigadores de terrorismo franceses, o único ato de violência que puderam atribuir a ele foi matar coelhos. 

Ele tinha se juntado a um pequeno grupo de homens, todos dispostos a travar a jihad (guerra santa), em uma viagem a uma floresta coberta de neve no norte da França há cinco anos, quando tinha 19 anos. Lá, eles gravaram em vídeo a si mesmos matando coelhos, comprados para que os homens pudessem começar a se acostumar a matar. 

Quando ele e sete outros foram posteriormente presos, as autoridades descobriram que vários dos homens salvaram o vídeo do abate em seus celulares, juntamente com vídeos de soldados sendo decapitados, segundo autos processuais franceses. Abballa acabou sendo condenado por terrorismo e passou mais de dois anos na prisão. 

Olhando para trás, não é difícil ver como aquele primeiro ato de brutalidade prenunciou o que aconteceu na semana passada: armado com uma faca, Abballa atacou um casal no norte da França em nome do Estado Islâmico e os deixou sangrando até a morte. 

Mas quando foi preso em 2011, os investigadores foram incapazes de mostrar de forma definitiva que ele era uma ameaça permanente à França. Após o cumprimento de sua pena de prisão, ele foi colocado sob vigilância. Poucos meses após a vigilância ser encerrada, ele cometeu o duplo homicídio na semana passada. 

Por toda a Europa e Estados Unidos, os agentes da lei estão tendo dificuldades para lidar com agressores como Abballa e Omar Mateen, cujo tiroteio em massa neste mês em uma boate gay em Orlando, Flórida, deixou 49 mortos. Eles eram homens que claramente pareciam estar caminhando para atos violentos e cujos nomes surgiram em investigações de terrorismo, mas que evitaram cruzar linhas legais que pudessem chamar a atenção das autoridades até ser tarde demais. 

Com milhares de casos de vigilância de terrorismo em andamento a qualquer momento, as autoridades europeias dizem estar sobrecarregadas e em uma posição difícil para tentar impedir ataques, para os quais o único prenúncio costuma ser na forma do que alguém pensa ou alguém ter ouvido dizer. 

"Um homem está em uma loja e pensa em roubar um objeto", disse Georges Sauveur, um advogado de Paris que defendeu vários suspeitos de terrorismo, incluindo um dos homens que acompanhou Abballa à floresta em 2011 para matar coelhos. "O que você faz? O coloca na prisão?" 

Sauveur acrescentou: "Não se pode colocá-lo na prisão a menos que ele dê o próximo passo e tente roubar algo". 

No final de 2010, a agência de inteligência doméstica da França começou a vigiar Mohamed Niaz Abdul Raseed, 33 anos, que vivia na região de Val d'Oise, no norte da França, e que a agência suspeitava ser um recrutador da Al Qaeda. A investigação revelou que ele atraiu sete seguidores, cujo mais jovem era Abballa. 

Sob a instrução do homem mais velho, os jovens se encontravam em um parque público para praticar calistenia (ginástica leve), se matricularam em um curso de kung fu e se reuniam para aulas sobre o Islã extremista. Eles também fizeram sua viagem à floresta em Cormeilles-en-Parisis com os coelhos, que juntaram dinheiro para comprar. 

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'Sede de sangue' 

No segundo trimestre de 2011, dois membros do grupo foram para o Paquistão, onde foram recebidos por um facilitador da Al Qaeda, segundo autos processuais franceses obtidos pelo "New York Times".

Como membro mais jovem do grupo, Abballa não foi escolhido para ir, o que o frustrou. "Tenho sede de sangue, Alá é minha testemunha", ele escreveu em um e-mail interceptado pelas autoridades. Em outro, ele implorou: "Por favor, deixe-me ir, por favor, por favor, por favor". 

Quando ficou claro que não seria enviado para o Paquistão, ele voltou sua fúria contra a França, escrevendo em 19 de fevereiro de 2011: "Com a vontade de Alá, encontraremos um meio de hastear a bandeira aqui". Uma semana depois, ele escreveu que sua célula "eliminaria os infiéis". 

Ele foi preso em 14 de maio de 2011 e, assim como outros membros de sua célula, foi condenado por pertencer a uma organização criminosa ou terrorista, o que resulta em uma pena máxima de 10 anos, segundo Sebástien Bono, o advogado que representou o líder acusado do grupo. 

Considerado o membro menos influente do grupo, Abballa passou mais de dois anos na prisão e foi solto em 2013. Ele foi mantido sob vigilância até o final de 2015. 

"Olhando para trás, é muito fácil dizer que as autoridades, ou o governo, deveriam saber a intenção de alguém. Mas obviamente há uma grande diferença entre motivação (alguém se radicalizando) e de fato transformá-la em ação", disse Richard Walton, que liderou a unidade de contraterrorismo da Polícia Metropolitana de Londres durante os Jogos Olímpicos de 2012. "A qualquer momento, em qualquer país, haverá muitas centenas, se não milhares, de suspeitos que se encaixam nesse perfil." 

Entre as dificuldades para as autoridades em 2011 estava o fato de Abballa ter negado agressivamente qualquer ligação com terrorismo. Ele disse aos investigadores que era ateísta. Ele negou que tinha participado no exercício de decapitação de coelhos (ele não apareceu no vídeo) apesar de sete outros homens da célula terem dito que ele participou. E os membros do grupo contradiziam uns aos outros. Quando pressionado, um dos cúmplices de Abballa explicou que tinham abatido os animais para preparar uma refeição "halal" (de acordo com os requisitos islâmicos) para comer durante o feriado islâmico do Eid (que marca o final do jejum do Ramadã), segundo um sumário do interrogatório deles. 

Levou algum tempo para que os investigadores encontrassem um furo nessa alegação: o abate na floresta ocorreu em janeiro e o feriado Eid al-Fitr foi celebrado dois meses antes, em novembro.

Agulhas no palheiro

Apesar dos sistemas legais serem diferentes, os Estados Unidos enfrentaram muitos dos mesmos problemas em suas interações com Mateen, que quando foi questionado pelas autoridades sobre ameaças anteriores de violência, insistiu que tinha dito aquelas coisas por estar furioso após sofrer discriminação. 

Após o massacre cometido por Mateen, James B. Comey, o diretor do Birô Federal de Investigação (FBI, a polícia federal americana), disse que o arquivo sobre Mateen era apenas um dentre "centenas e centenas de casos por todo o país" e comparou a tarefa de separar aqueles que expressam ideias extremistas daqueles que agem com base nessas ideias de "procurar por agulhas em um palheiro nacional". 

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Para a França, país considerado como tendo o maior número de seguidores leais do Estado Islâmico na Europa, o palheiro é no mínimo tão grande quanto, e alguns dizem que o número de casos está se tornando impossível de administrar. 

"Estamos de fato nos afogando em inteligência", disse Alain Bauer, um professor de criminologia do Conservatório Nacional de Artes e Ofícios, em Paris. 

Ele e outros disseram que há problemas estruturais, incluindo o fato de a chamada Lista S da França, um banco de dados de pessoas que supostamente se radicalizaram, contar com mais de 10 mil nomes que não são classificados por nível de ameaça. 

Apesar de a maioria na lista nunca cometer violência, outros já foram responsáveis por manchetes terríveis. Oito dos 10 homens que realizaram o ataque terrorista europeu mais mortífero em mais de uma década, os ataques em Paris em 13 de novembro, estavam na Lista S e vários já tinham passado tempo atrás das grades, mas conseguiram voltar da Síria para a França e Bélgica.

Outro suspeito na lista, Amedy Coulibaly, também já tinha sido preso por condenação por terrorismo. Oito meses após a remoção de seu bracelete eletrônico pelas autoridades francesas, ele matou um policial e abriu fogo em um supermercado judeu em Paris, em janeiro de 2015, matando mais quatro pessoas em nome do Estado Islâmico. 

Depois que Abballa matou o casal em Magnanville, França, na semana passada, um membro do Parlamento, Éric Ciotti, apresentou um projeto de lei criando o status de "detenção administrativa" para aqueles que representam uma ameaça à segurança. 

Na prática, ele pede por uma rápida priorização da Lista S e disse que o projeto de lei visa deter imediatamente centenas daqueles que representam maior risco, os colocando sob prisão domiciliar ou em um centro de detenção. 

Ele considera a medida necessária porque o código penal se baseia em provar que um indivíduo está não apenas falando ou pensando em cometer um ato de terrorismo, mas que já deu passos para cometer o ato. 

"Essas pessoas são conhecidas por nós", ele disse. "Eu quero poder agir de forma preventiva." 

O primeiro-ministro Manuel Valls disse na semana passada que consideraria a proposta, mas que não haveria uma Guantánamo na França, como noticiou o jornal francês "Libération". 

Jean-Charles Brisard, o presidente do Centro Francês para Análise do Terrorismo, em Paris, chamou a ideia de "absurda" e disse que a França não pode alijar as liberdades civis. 

Ele acrescentou que colocar todos da Lista S sob vigilância é impossível, porque são mais de 10 mil nomes e menos de 5.000 agentes. É preciso 20 agentes por suspeito para vigilância 24 horas, ele disse, o que significa que a França só pode realizar vigilância ininterrupta de apenas uma pequena fração dos suspeitos de terem se radicalizado. 

"Minha convicção profunda é de que, infelizmente, precisaremos nos acostumar a conviver com esta nova ameaça", disse Brisard. "É permanente, é difusa e pode ocorrer a qualquer momento."

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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