Republicanos negros assistem preocupados a uma convenção marcada pela pregação

Patrick Healy, Yamiche Alcindor e Jeremy W. Peters

Em Cleveland (EUA)

  • Robyn Beck/AFP

    Homem segura placa com os dizeres "Torne a América segura de novo", uma alusão ao slogan de campanha de Trump, durante a convenção republicana em Cleveland

    Homem segura placa com os dizeres "Torne a América segura de novo", uma alusão ao slogan de campanha de Trump, durante a convenção republicana em Cleveland

Mike Hill, um deputado estadual republicano negro da Flórida, ficou cada vez mais desanimado ao assistir na televisão a vídeos da convenção de seu partido, majoritariamente branca, dando palestras aos afro-americanos sobre a polícia e as relações raciais.

Lá estava Rudolph Giuliani, o ex-prefeito de Nova York, quase gritando na segunda-feira à noite que a polícia só queria ajudar as pessoas, independentemente de sua raça.

Um mar de delegados brancos na convenção aplaudiu fortemente quando dois oradores negros ridicularizaram o movimento "Black Lives Matter" ("Vidas Negras Importam") e elogiaram de forma incondicional os policiais. E uma série de oradores promoveram a mensagem de lei e ordem de Donald Trump e afirmaram, como ele fez, que os EUA perderam o rumo.

"Quando muitos republicanos brancos se reúnem e falam em raça, dizendo aos negros como devem ver a polícia e o mundo, isso evoca o pior tipo de emoção", disse Hill, que apoia Trump, mas decidiu não ir à convenção. "Temos tão poucos republicanos negros, para começar. Falar sobre raça não vai nos trazer mais."

Para muitos republicanos negros, a convenção do partido se desviou inesperada e infelizmente para a pregação e a moralização de temas raciais, uma posição desconcertante em um momento em que Trump é extremamente impopular entre os eleitores das minorias.

Ele atraiu o apoio de 0% dos afro-americanos nas últimas pesquisas da NBC News/Wall Street Journal em Ohio e na Pensilvânia, e está tendo dificuldade com os hispânicos, em parte por causa de sua linguagem dura sobre os mexicanos e imigrantes.

Esses republicanos disseram que preferiam as mensagens políticas aos eleitores negros das últimas convenções, em que o enfoque foi menos para a segurança pública e o crime do que para oportunidades econômicas, geração de empregos, apoio a pequenas empresas e opção escolar --todos temas interessantes, segundo eles.

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Em Cleveland, entretanto, Trump e líderes do Partido Republicano estão concentrados em atrair os eleitores brancos, especialmente homens que criticam sua estratégia eleitoral no meio-oeste e no sul do país. 

Republicanos negros disseram que compreendem o pensamento por trás disso, mas afirmaram que se baseia mais na política que em ajudar as pessoas ou fortalecer o país. 

"Se os republicanos estão recebendo apenas 5% ou 6% dos votos negros de qualquer modo, e os democratas só precisam dizer 'estou do seu lado' para conquistar o voto negro, que opção você tem?", disse Ward Connerly, um ex-regente na Universidade da Califórnia e líder em esforços nacionais para pôr fim às cotas raciais para admissão nas faculdades. "Você apoia a lei e a ordem. Isso trará uma certa quantidade de apoio a muitos americanos que têm medo porque veem a sociedade desmoronando."

"Politicamente, é uma medida inteligente", acrescentou Connerly, "mas se os republicanos estão resolvendo os problemas da subclasse negra ou não é outra questão." 

Várias figuras políticas e candidatos negros deixaram de ir ao evento. "Não tenho assistido", escreveu em um e-mail o ex- secretário de Estado Colin Powell. 

E aqueles que falaram no pódio pareciam mais concentrados em punir os manifestantes negros, criticar outros negros por seu comportamento e exaltar Trump, do que em tentar ajudar os republicanos a fazer incursões com os eleitores negros céticos ou indecisos. 

"Alguém com uma cor bonita precisa dizer isto: todas as vidas importam!", declarou Darryl Glenn, um comissário do condado de El Paso, no Colorado, que é afro-americano, em uma frase que provocou uma ovação retumbante dos delegados. 

Glenn assumiu repetidamente um tom moralizante. "Se nós realmente quisermos curar nossas comunidades, mais homens precisam começar a se levantar e cuidar de nossas crianças", disse ele a certa altura. "Bairros seguros acontecem quando os pais e as mães estão em casa", disse ele em outro ponto.

O orador negro mais destacado da convenção, Ben Carson, em contraste, sugeriu na terça-feira à noite que Hillary Clinton está tentando enganar os negros pobres e outras pessoas em desvantagem.

"Ela continuaria com um sistema que denigre a educação dos jovens, os coloca em um lugar onde eles nunca conseguirão um emprego, onde eles sempre serão dependentes, e onde poderão ser cultivados por seus votos", disse Carson. "Esse não é o significado da América."

Embora Carson e Glenn tenham sido recebidos com entusiasmo, seus discursos em direção aos negros pareceram mais discordantes diante da formação racial da plateia no salão de convenções.

Esta convenção tem menos delegados e oradores negros que qualquer outra em duas décadas, segundo vários republicanos afro-americanos que são frequentadores das reuniões do partido. O Comitê Nacional Republicano não pôde dar uma contagem definitiva dos delegados conforme a raça; uma autoridade do partido calculou que havia 80 delegados negros. Mas ele se baseou em uma contagem informal da multidão, que podia incluir pessoas no local que não eram delegados. Estes são 2.472 ao todo. 

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Fred Brown, o presidente do Conselho Republicano Negro Nacional, disse que frequenta as convenções republicanas desde os anos 1970 e acredita que a deste ano é uma das mais brancas de que se lembra.
"O Partido Republicano não fez o suficiente para enriquecer o partido e criar uma oportunidade para os membros negros se envolverem mais", disse Brown, 80, que vive no Bronx, em Nova York. 

Referindo-se ao interesse republicano pelos negros, ele disse: "Eles não colocaram os recursos para que isso acontecesse. O dinheiro deveria estar aí. É como nós criamos a estratégia negra no sul, e agora controlamos o sul porque o Partido Republicano com Nixon aplicou o dinheiro. A mesma coisa que eles fizeram lá poderiam ter feito com a comunidade afro-americana."

O discurso de Glenn, e os gestos de Giuliani no palco --em que ele pareceu condenar as pessoas que tinham opiniões negativas sobre a polícia-- foram dos vários momentos na convenção que irritaram alguns republicanos. 

Outro foi quando David Clarke Jr., o delegado de Milwaukee, declarou que "as vidas negras importam" e afirmou que esse movimento está contribuindo para o "colapso da ordem social". Ele também elogiou a absolvição de um dos policiais de Baltimore acusados da morte de Freddie Gray. (As tentativas de falar com Glenn e Clarke na terça-feira não foram bem-sucedidas.) 

Telly Lovelace, o diretor nacional de iniciativas afro-americanas e mídia urbana no Comitê Nacional Republicano, disse que as estimativas do partido indicam que a convenção deste ano é mais diversificada que as últimas duas. Mas ele disse que se sentiu desconfortável durante alguns discursos, incluindo o de Clarke.

"Não acho que o delegado Clarke compreende bem o que os moradores das comunidades urbanas, especialmente os homens negros, têm de enfrentar para lidar com a polícia e ser discriminados racialmente", disse ele. "Eu acredito que as vidas negras importam. E o movimento Black Lives Matter não é esse 'movimento anarquista' que ele descreveu no discurso." 

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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