Pianista sírio recusa rótulo de "bom refugiado" e "cão" treinado para entreter alemães

Anne Barnard

Em Wiesbaden (Alemanha)

  • Ilvy Njiokiktjien/The New York Times

O pianista começa seu programa abruptamente, com um lamento. As palavras e a música são árabes, mas o sofrimento é claro em qualquer língua. "Como, Deus?", canta ele. "Como Deus pôde trazer essa maldição?"

Ele se apresenta para o público alemão em uma tranquila cidade da Alemanha com torres de conto de fadas. Mas Aeham Ahmad está pensando em seu bairro pulverizado e faminto na Síria, onde alguns anos atrás, antes de vir para a Alemanha como refugiado, ele embarcou em uma estranha profissão, tocando piano entre os destroços.

Ele se levanta de um salto, balança a cabeça em uma reverência maliciosa e diz, como introdução: "Desculpem, não sou um bom pianista. Aprendi na Síria. Não é como Mozart e Bach, mas é assim que tocamos".

Em uma Alemanha profundamente dividida entre adotar e temer o milhão de migrantes que chegaram no último ano, Ahmad, 27, se impôs a tarefa de dar uma face humana a seus colegas refugiados. Seu objetivo é facilitar sua integração e talvez até ajudar outros milhões, entre eles sua mulher e seus filhos, que deixou para trás.

Essa missão tornou-se mais urgente nos últimos tempos, depois que a Alemanha ficou chocada com os dois ataques em que refugiados ligados ao Estado Islâmico (EI) tentaram matar civis. Só os atacantes morreram, mas os atos deixaram muitos alemães furiosos, ansiosos e prontos para fechar a porta. Já se fala em acelerar as expulsões.

No palco, Ahmad lisonjeia seus ouvintes, tranquiliza-os, cativa-os. Fala sobre sua fuga das bombas, da fome e da repressão. Ele canta sobre minaretes e sinos de igreja "pedindo paz". Declara que "o terrorismo não tem religião" e que os refugiados vêm "construir a Alemanha", e não prejudicá-la.

"A história lembrará que a Alemanha aceitou os muçulmanos", declara ele, e depois os faz cantar junto uma canção infantil alemã.

Ahmad deixa o salão, como sempre, sob uma chuva de abraços e fotos.

Reprodução/Facebook

Mas no dia seguinte, em seu quarto minúsculo na cidade de Wiesbaden, ele se dilacera sobre o papel que cunhou tão bem: é "o bom refugiado", fazendo os "bons alemães" se sentirem bem consigo mesmos. Não pode deixar de ver um toque de menestrel em seu número. Ele imagina como pode aparecer aos olhos dos alemães: um caso de caridade, um animal treinado que dança para ganhar comida.

"Ele é um cão refugiado", diz com a voz melodiosa. "Eles brincam com ele, e ele está brincando, feliz."

Antes da catástrofe na Síria, Ahmad, um refugiado palestino da terceira geração e filho de um violinista cego, foi professor de piano e vendedor em uma loja de instrumentos. Hoje sua mensagem de resiliência, juntamente com o desejo dos alemães de um símbolo tranquilizador, o transformou no mais popular refugiado na Alemanha.

Ele canta, toca e às vezes bate no piano, de dor e raiva.

Ahmad tem apresentações marcadas para quase todas as noites, cruzando o país entre estádios e modestos bares no interior. Ele apareceu em dezenas de reportagens animadoras nos noticiários e recebeu um prestigioso prêmio que tem o nome de um de seus ídolos, Beethoven. A produtora de cinema de Christina Aguilera já entrou em contato.

"Sinto como se eu tivesse sido tirado da realidade", diz ele em um trem-bala entre duas apresentações.

Ahmad conta que cresceu ouvindo seu pai transformar sua história de vida em lenda, "como você conta histórias sobre Sinbad, o marujo". Mas mesmo a história real de um músico cego e autodidata que aprendeu a tocar violino empalidece em comparação com sua própria viagem fantástica, desde o sítio do governo sírio e o regime islâmico extremista, passando pelo naufrágio e o exílio, até a celebridade constrangida.

No palco todas as noites, ele reencena sua jornada. E em cada viagem por terra entre as apresentações ele a reexamina --impiedosamente, como o artista questionador que sempre foi.
"Sinto-me como um sapo que foi dissecado", confessa, despencando em uma poltrona de trem, no início de uma viagem de cinco horas e quatro trens até o próximo show, em que, como sempre, devido às restrições de trabalho aos refugiados, ele tocará de graça.

"Estou vendendo a mim mesmo", diz ele, "e nem sequer recebo o dinheiro."

Pior, ele se pergunta se está fazendo alguma diferença. "Eles me aplaudem, mas o resto" --lá na Síria-- "continua na prisão, sitiado, sob bombas."

Seus próprios filhos o censuram: "Você não mandou um avião para nos buscar".

Reprodução/Facebook
Objetivo: manter a todos sãos

A vida de Ahmad como pianista refugiado começou há três anos quando ele estacionou seu instrumento em uma rua de prédios destruídos --paredes desmoronadas, tetos inclinados-- e começou a cantar.

Ele morava em Yarmouk, um bairro nos arredores de Damasco, a capital síria, que começou como um campo de refugiados palestinos nos anos 1950. Com o tempo, ele se transformou em um bairro agitado de 500 mil palestinos e sírios.

Mas agora foi eviscerado pela guerra civil síria. Tropas do governo o mantiveram isolado, martelando-o com artilharia e às vezes ataques aéreos. Grupos insurgentes disputavam o controle. A falta de acesso regular a alimentos e remédios começava a matar; alguns dos mais vulneráveis morriam de fome.

Seu único público era os moradores, presos com ele. E seu objetivo era dolorosamente modesto: impedir que todos enlouquecessem.

"Eu quero lhes dar um sonho bonito", disse ele na época, por uma conexão da internet interrompida. "Mudar esta cor negra, pelo menos para cinza."

Reprodução/Facebook
Ahmad tocava com um coro de jovens que ele chamou de Rapazes de Yarmouk. Algumas de suas canções eram tristes, de saudade dos que tinham fugido --"Meus emigrantes, voltem, a hortelã ainda é verde"--, algumas divertidas e brincalhonas, criticando os líderes árabes e mundiais. Seu bebê ficava sentado sobre o piano; meninas e velhas aderiam; seu pai improvisava com o violino.

Em breve, vídeos das apresentações se espalharam pela rede, primeiro entre os sírios, depois mais amplamente, um tipo de reportagem diferente de uma guerra tão brutal que já tinha deixado grande parte do mundo amortecida.

Ahmad tornou-se um símbolo de esperança e desafio, e começou a adotar uma missão maior: mostrar que havia seres humanos presos em Yarmouk.

"Todo mundo é contra os civis", disse ele em uma videoconferência.

Pianista sírio se apresenta em meio aos destroços no país

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Com o tempo, sua nova fama o ajudou a escapar do sítio --para unir-se aos emigrantes sobre os quais cantava. Isso ajuda a aumentar sua ambivalência e alimenta um caso colossal de culpa do sobrevivente.

A guerra civil chega

A primeira vez que um jato do governo atacou Yarmouk está gravada na memória de Ahmad: 16 de dezembro de 2012. Os foguetes caíram perto de uma escola da ONU e uma mesquita que abrigava deslocados. Partes de corpos encheram o chão. As pessoas fugiam correndo com sacolas feitas às pressas.

Foi um choque para os palestinos criados sob a afirmação do governo sírio de que era seu defensor. Para Ahmad, foi o início de "um segundo Nakba", ou desastre --o nome palestino para seu deslocamento em 1948. Para ele, Yarmouk era uma pátria substituta. Mas seu pai, nascido no sul da Síria depois que seus pais foram expulsos de sua casa na Galileia, sempre lhe havia contado outra coisa.

"Ele me falava que a música é nosso país", explica Ahmad. "E hoje eu percebo que isso é verdade."

Os pais de Ahmad, como ele, foram salvos pela música.

Seu pai, Ibrahim, perdeu a visão aos 8 anos. Ele foi enviado a uma escola para cegos em Damasco, sendo preparado para uma vida tecendo cadeiras de vime. Mas ele mentiu, dizendo a seu pai que precisava de um violino ou seria expulso da escola.

Ilvy Njiokiktjien/The New York Times

Aprendeu a tocar clássicos árabes e abriu uma loja de partituras em Yarmouk. Mais tarde, na cidade velha de Damasco, uma jovem síria chamada Iman, cujo pai conservador não queria que ela estudasse música, esgueirou-se até a loja de Ibrahim e pediu aulas de acordeão. Veio o namoro, mas o pai da moça recusava o candidato cego. "Você quer ser uma empregada?"
Então Iman, fingindo que seu acordeão precisava de conserto, levou sua mãe à loja. Ibrahim tocou, a mãe de Iman cantou. Alguns anos depois, Aeham Ahmad nasceu.

Quando começaram os protestos contra o presidente Bashar Assad, da Síria, em 2011, ele acompanhou com interesse, mas não aderiu. Relutava em abraçar uma causa ou identidade além da música, "minha própria revolução pessoal".

As forças de segurança dispararam contra os manifestantes; a rebelião armada ganhou força. Yarmouk ficou neutra a princípio, como pediram os líderes palestinos. Mas o tratamento relativamente bom da Síria aos palestinos lhes dava uma participação no país, e eles estavam divididos como os sírios. Muitos se uniram à rebelião.

Ahmad não tentou partir; ele foi procurado pelo serviço militar. Para alimentar a família, gastou suas economias. Então um tio libertou seus pombos e fugiu, deixando a ração das aves, um monte de lentilhas. Ahmad abriu uma barraca de falafel, espécie de sanduíche árabe. O falafel é feito de grãos-de-bico, mas as pessoas estavam famintas.

Um dia, um morteiro caiu perto de sua barraca, matando três clientes. Estilhaços atingiram a mão de Ahmad. Ele começou a tocar mais piano, para reabilitar os dedos. Isso lhe deu uma ideia. As lentilhas estavam acabando, mas a música não acabaria.

Ele encontrou vários amigos que partilhavam um narguilé (o tabaco era raro). Um deles, Mahmoud Tamim, gostava de compor canções zombando de Assad; Ahmad lhe pediu para escrever uma sobre Yarmouk. Eles se tornaram os primeiros Rapazes de Yarmouk, Shebab al-Yarmouk.

Para sua estreia, eles empurraram o piano dos destroços do primeiro ataque aéreo e cantaram a nova canção, "Yarmouk sente sua falta", que até hoje é seu maior sucesso.

O projeto parecia puro na época, mas depois que eles ganharam fama alguns cantores pediram pagamento. Então os ativistas começaram a vender fotografias para os canais de mídia.

Até Ahmad viu oportunidades.

Em Berlim, pianista sírio alerta sobre crise dos refugiados

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"O ego está sempre lá", lembra ele. "Eles ganharam dinheiro comigo, mas sem fotos eu não sou famoso."

A atenção tornou mais difícil evitar os chefes guerreiros. Uma facção palestina pró-Assad pediu que ele retirasse um verso de que Yarmouk estava "cercada de canhões", já que o culpado óbvio era o governo.

Depois vieram os islamistas linha-dura. Eles objetaram primeiro aos shows para um público misto de homens e mulheres, depois à música em geral.

"Se o profeta Maomé estivesse aqui, eles o chamariam de infiel se discordasse deles --isto se trata de concordar e obedecer", queixou-se Ahmad na época, em uma videoconferência.

"Eles podem impedir as aves de cantar?"

Ele deixou de tocar em público. Escondeu seu teclado eletrônico em um saco e subia nas lajes das casas para tocar, cuidando para não ser visto por atiradores do governo.

Mas ainda se sentia inseguro. Membros de sua banda estavam sendo sequestrados: Tamim pelas forças de segurança, outros por combatentes islâmicos. Certo dia, um atirador incendiou seu piano.

Hora de partir

Finalmente, Ahmad recebeu de um jornalista alemão dinheiro suficiente para que ele e sua família deixassem Yarmouk.

A meio caminho da Turquia, forças de segurança os detiveram e prenderam, inclusive as crianças. Saíram uma semana depois, mas abalados, e decidiram que a mulher e os filhos de Ahmad esperariam na Síria. Como os parentes continuam em perigo, não vamos revelar seus nomes. Ahmad continuou sozinho.

Por algum tempo, ele foi apenas mais um refugiado. Dissolveu-se nas massas que fugiam em agosto passado, quando o êxodo para a Europa cresceu.

Pagando a contrabandistas, ele cruzou as montanhas, evitando os postos de controle e guardas de fronteira.

Seu primeiro barco da Turquia afundou, e várias pessoas se afogaram. Ahmad filmou sua segunda travessia para a BBC. A salvo na Europa, ele começou a publicar seu avanço no Facebook.

Ilvy Njiokiktjien/The New York Times
Agora ele viajava abertamente como o Pianista de Yarmouk. Nas últimas semanas, as coisas melhoraram para Ahmad. Ele recebeu a condição de residente e um pequeno apartamento.

Seu emaranhado burocrático está resolvido: agora ele poderá abrir uma firma, contratar um gerente e receber pelos shows. E finalmente sua mulher e os filhos chegaram, há poucos dias.
Mas ele ainda se pergunta no palco: "Eles estão sentindo a música que eu sinto? Ou apenas sentem pena porque sou um refugiado?"

Os alemães, diz Ahmad a uma plateia em Wiesbaden, muitas vezes lhe perguntam se ouviu Mozart. Ele faz uma pausa, então ataca com um pot-pourri em alta velocidade de "Rondò alla Turca", de Mozart, com "Fur Elise", de Beethoven.

Desacelera, volta a acelerar, dá um sorriso, então corre a mão pelo teclado como um Little Richard ou Liberace. A plateia ri, aplaudindo. É uma piada musical, um golpe contra os preconceitos racistas. E eles adoram. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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